Há filmes que chamam atenção não por sua grandiosidade, mas pela maneira como transformam ideias improváveis em histórias envolventes. Conselhos de um Serial Killer Aposentado, dirigido e roteirizado por Tolga Karaçelik, é exatamente esse tipo de produção: uma comédia de humor ácido com pitadas de suspense, que encontra sua força no absurdo da própria proposta — um assassino em série aposentado que decide ajudar um escritor em crise criativa.
A trama acompanha Keane (John Magaro), um escritor em bloqueio há quatro anos, que vive um momento turbulento tanto na carreira quanto no casamento com Suzie (Britt Lower). Desmotivado e prestes a enfrentar um divórcio, ele tenta vender um novo livro sobre serial killers, quando conhece Kollmick (Steve Buscemi), um homem que se apresenta como um assassino em série aposentado. Interessado em ajudar Keane a dar veracidade à sua história, Kollmick se torna uma espécie de consultor literário — e, quase por acidente, também um conselheiro matrimonial.
É dessa relação improvável que o filme extrai sua essência. Karaçelik brinca com o contraste entre o grotesco e o cotidiano, explorando o absurdo de um serial killer que, em vez de aterrorizar, tenta salvar um casamento. A proposta soa absurda no papel, mas funciona surpreendentemente bem na tela, graças ao equilíbrio que o diretor encontra entre comédia e tensão. Há algo de excêntrico e até carinhoso na forma como ele constrói o vínculo entre Keane e Kollmick — um homem solitário, irônico e cheio de segredos, que parece entender melhor de relacionamentos do que de assassinatos.
Mesmo com uma produção de baixo orçamento e filmagens rápidas, o longa não perde ritmo. A montagem, embora um tanto apressada, mantém a história sempre em movimento e dá uma agilidade que combina com o tom leve da narrativa. Ainda assim, é possível sentir que algumas ideias ficaram subdesenvolvidas — especialmente o arco de Suzie e a faceta “terapêutica” de Kollmick, que acabam servindo mais como gatilhos para momentos de humor do que como pilares emocionais da história.
John Magaro e Steve Buscemi são o grande motor do filme. A química entre os dois atores surpreende: Magaro encarna a frustração e insegurança de Keane com uma comicidade contida, enquanto Buscemi entrega um personagem excêntrico e carismático, que domina a cena sem esforço. Juntos, formam uma dupla improvável, responsável por grande parte das melhores sequências — especialmente aquelas em que a linha entre sinceridade e loucura se torna cada vez mais tênue.
Britt Lower, por sua vez, aparece menos do que merecia, mas aproveita bem o tempo que tem em cena. Depois do destaque na série Ruptura e de seu recente Emmy, a atriz reforça aqui que tem muito a oferecer. Suzie poderia ser uma figura secundária em qualquer outro filme, mas Lower consegue dar dimensão a essa mulher cansada e desconfiada, que suspeita que o marido possa estar envolvido em algo muito mais sombrio do que parece.
Karaçelik, em sua estreia em um longa de língua inglesa, mostra-se um diretor interessado em dinâmicas humanas e em situações que flertam com o ridículo sem perder a credibilidade. Ele conduz a história com ritmo e senso de humor, mas também com curiosidade sobre seus personagens. Há um olhar quase afetuoso sobre aquele trio de pessoas quebradas, tentando encontrar sentido em meio a mentiras e frustrações.
O roteiro, embora repleto de boas ideias, às vezes peca por excesso. Karaçelik injeta tantos elementos — crise criativa, relacionamento em ruínas, amizade inusitada, desconfiança e mistério — que alguns acabam ficando pelo caminho. Ainda assim, a narrativa nunca se torna confusa; apenas dá a impressão de que o filme poderia ir um pouco além. Falta um fechamento mais sólido para amarrar tudo o que foi construído. Quando chega ao clímax, o longa entrega um desfecho envolvente, mas corta abruptamente, sem mostrar as consequências do que acabamos de ver. É um final que deixa um gosto agridoce: satisfaz, mas também frustra.
Apesar dessas limitações, Conselhos de um Serial Killer Aposentado é uma das boas surpresas de 2025. É divertido, tem ritmo e um humor que surge de forma orgânica, sem forçar o absurdo da situação. Karaçelik mostra que sabe transformar uma ideia curiosa em um filme instigante e com personalidade. E, mesmo que o resultado pareça um recorte de algo maior — como se faltasse um último ato —, o que está ali é suficiente para conquistar o público e deixar claro que o diretor tem muito a oferecer no futuro.
Em tempos em que tantas comédias e thrillers parecem depender de fórmulas prontas, é refrescante ver uma produção que aposta na estranheza para falar de temas humanos: fracasso, amor, medo e solidão. Conselhos de um Serial Killer Aposentado é exatamente isso — um pequeno filme sobre pessoas imperfeitas tentando se entender, com a ajuda inesperada de um assassino que, ironicamente, talvez seja o mais sensato de todos.