O Auto da Compadecida 2 é um outro filme, e por ser outro, obviamente, tem a sua própria beleza. Ainda que dialogando com a obra de Ariano Suassuna (não é ela) e por isto tenha a sua liberdade de interpretação. A arte fílmica lhe concede essa licença. Da mesma forma que um texto literário permite ao leitor(a) plurissignificá-lo, ou seja, fazer dele leituras diferentes sempre que o revisite. Talvez por isto, também, em algum momento do filme João Grilo se despeça de Nossa Senhora na camaradagem do “Até uma próxima”!… Sim, é ele sugestivamente na telona, ciente de que ainda poderá precisar dela, em outras aventuras (filmes, será? 樂). O novo filme se mantém na temática religiosa (é uma condição no gênero AUTO, como se sabe) e se insiste no julgamento final, ainda com a apelação de Nossa Senhora, é para lembrar do protagonismo dela, que dá título, aliás, à montagem de Ariano. O que muda do outro? A mãe de Nazaré agora é negra e está mais próxima de Nossa Senhora Aparecida, a pretinha, achada nas águas por pescadores; e consagrada padroeira do Brasil. Assim como Jesus e o diabo agora trazem o próprio rosto de João Grilo, em seus travestimentos, para nos lembrar, quem sabe, que Deus e o Diabo, na verdade, residem dentro de nós. E que a conduta de cada um(a), - em fatos e omissões - , é que fará sua face resplandecer. Só não deixamos de rir quando o Grilo dá graças a Deus por Nossa Senhora não vir também com o rosto dele. Talvez fosse mais do que ele pudesse suportar nessa trama. Mas note que Nossa Senhora segue em todo o roteiro: no grande feito relembrado por Chicó; nos versinhos repetidos e já ditos pelo João de outrora; nas imagens de santo que Chicó vende; na estátua erguida com o João Grilo a seus pés ; e na quermesse da igreja, que agita dessa vez o mundo político de Taperoá. Sim, a cidade permanece lá, só que como tudo o mais nesse novo ponto de vista, ressignificada. Mudam as aventuras de João Grilo porque assim como no livro que lhe dá origem, ele não é personagem de se estagnar frente ao que já realiza, por isto sempre aprontando. Por isto quem sabe a suspensão da personagem na parte final, dê brechas para que ele possa ainda reaparecer e aprontar mais uma. O filme 2 é, em súmula, uma ode à amizade. Aliás, comovente a fala em que o malandro João diz não precisar de mais nada nessa vida, pois tem o perdão da Compadecida e um amigo como Chicó. O tema da amizade repercute, aliás, nas letras das canções interpretadas por João Gomes e Chico César, já que a parte musical que compete à Maria Bethânia liga-se muito mais ao conteúdo divino, como divina é a voz, me permitam a tietagem, dessa cantora nossa. Mas o filme é principalmente uma ode à Literatura. De Ariano, claro, já que dele vem a matéria de inspiração, talvez por isto a gente escute, a exemplo de outras, um período frasal inteiro vindo de Chicó, se referindo à morte na tela, idêntico ao que consta no livro que deu origem ao filme, mas que só vai perceber quem leu: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.” Sim, a Literatura aí está. Assim como está na fala de Clarabela, ao invocar o discurso de Guimarães Rosa, quando afirma que “sertão é dentro da gente”, defesa da moça no audiovisual, justificando ao pai o gosto em voltar para a sua terra. O Auto da Compadecida 2 é uma ode à Literatura, especialmente oral. E para essa Chicó, o contador de histórias, mais uma vez, é o grande representante. Quando avisa que vai contar sobre a segunda ressurreição de João Grilo, é Rosinha que lhe lembra que haverá sempre quem prefira a primeira, num belo exercício de metalinguagem fílmica, se reportando por sua vez aos que estarão ainda fixados no filme primeiro. E que bom que a arte também nos permite essas escolhas, não é mesmo? … No segundo filme, Chicó sabe que conta melhor do que escreve, por isto grava no rádio o seu recado à procura da amada, ao invés de escrever para que outros leiam por ele (até porque nem escrever sabe!). E é bem sucedido com a volta dela. Aliás, lindo ele aprender depois, para com isto assinar de próprio punho o folheto, cuja narratividade poética era sua e lhe tinham usurpado a autoria. Veja que nem o plágio literário faltou. E como não reconhecer Manoel Camilo, o poeta da “Viagem ao país de São Saruê”, na definição de paraíso que João Grilo não consegue dar, porque de nada lembra após a sua volta do “outro mundo”. E é Chicó, mais uma vez, que tenta descrever por ele: “Maniva lá não se planta/ nasce e invés de mandioca/bota cachos de beiju e palmas de tapioca” Assim como de igual maneira é lindo ouvir João Grilo dizer noutro momento desse filme que o amigo é um artista; e que suas “mentiras” constituem poesia, pois na verdade é isto que ele faz. É um filme lindo e de muitas camadas. Sendo que muitas delas podem ser perdidas, sim, se o(a) espectador(a), desavisado(a), não tenha sido em sua trajetória de compreensão, também, um(a) perspicaz leitor(a). Sempre é tempo, né?
Lígia Regina Calado de Medeiros
Doutora em Letras pela UFRJ e Professora de Literatura da UFCG-Cajazeiras