Crítica de “O Auto da Compadecida 2”
Adrielio Moreno
Professor de português e literatura -
Apesar do carisma inegável do elenco e da nostalgia que a continuação desperta, O Auto da Compadecida 2 não consegue atingir o brilho do primeiro filme. A tentativa de equilibrar elementos da obra original com novas abordagens resulta em uma narrativa inconsistente, ora se prendendo excessivamente à trama do antecessor, ora se desviando de forma brusca sem um desenvolvimento sólido.
Um dos pontos que mais chamam atenção é o distanciamento do espírito da obra de Ariano Suassuna. Enquanto o primeiro filme conseguiu captar com maestria o tom cômico, crítico e folclórico do autor, a sequência parece perder essa essência ao apostar em um roteiro que, por vezes, soa genérico e previsível.
Além disso, a ausência do bando de Lampião e a maneira como certos eventos são conduzidos levantam questionamentos sobre a coerência da trama. A morte de um personagem-chave, causada por um cangaceiro introduzido sem contexto sólido, acaba parecendo um artifício forçado para impulsionar a história, sem a profundidade que o enredo exige.
O Auto da Compadecida 2 era uma aposta arriscada, e infelizmente, o resultado confirma os receios que cercam a maioria das continuações tardias: a falta de uma narrativa bem estruturada, um texto que não alcança a profundidade do original e um apelo exagerado à nostalgia, sem inovação ou propósito claro.
Se a estética do primeiro filme era um de seus trunfos, com cenários naturais e uma ambientação que evocava o sertão nordestino de forma crível, a decisão de gravar boa parte da continuação em estúdio compromete gravemente sua verossimilhança. O fato de não terem retornado a Cabaceiras-PB e aos outros espaços reais resultou em um visual artificial, que se distancia da rusticidade e da identidade regional tão essenciais para a obra original de Ariano. No primeiro filme, a ambientação era um personagem à parte; aqui, ela se reduz a um pano de fundo genérico e desconexo.
Uma das maiores virtudes do primeiro Auto da Compadecida era a solidez narrativa, capaz de equilibrar comédia, crítica social e elementos do realismo fantástico de Suassuna sem perder coerência. Em O Auto da Compadecida 2, o roteiro se apresenta como um emaranhado de tramas desconexas, onde personagens surgem e desaparecem sem justificativa, e onde os eventos parecem se desenrolar sem consequência real dentro da história.
Clarabela, por exemplo, é um exemplo claro da fragilidade do desenvolvimento de personagens. Introduzida sem função narrativa relevante, ela some sem qualquer resolução, assim como os candidatos à eleição, cujo arco é simplesmente abandonado. Essa falta de continuidade sugere um roteiro que não apenas carece de planejamento, mas que também não confia em sua própria história para prender o espectador.
O humor, que no primeiro filme era afiado e carregado de ironia sofisticada, aqui se torna uma repetição de fórmulas desgastadas. As divagações de Chicó, que antes traziam um lirismo encantador e serviam como mecanismo narrativo eficaz, agora soam sem criatividade.
Apesar da fotografia caprichada e do esforço dos atores para resgatar a magia do primeiro filme, O Auto da Compadecida 2 carece do frescor e da originalidade que tornaram seu antecessor um marco do cinema nacional. A tentativa de revisitar esse universo é válida, mas fica a sensação de que faltou um roteiro mais coeso e uma abordagem mais fiel ao legado de Suassuna.