Manual Prático da Vingança Lucrativa parte de uma premissa irresistível: um herdeiro preterido decide eliminar, um a um, os familiares bilionários que o impedem de acessar uma fortuna de 28 bilhões de dólares. A ideia carrega em si provocação suficiente para sustentar uma sátira feroz sobre ambição, desigualdade e o fascínio quase doentio pelo dinheiro. O filme até ensaia esse caminho: flerta com o absurdo, ironiza os excessos da elite e cutuca o sonho americano, mas escolhe permanecer em uma zona mais segura. Diverte, mantém o ritmo e revela controle por parte do diretor, porém deixa a sensação constante de que poderia ter ido além.
Este é o segundo longa de John Patton Ford, que desenvolveu o roteiro ao longo de uma década, período em que o projeto circulou por Hollywood antes de encontrar um estúdio disposto a bancá-lo. Inicialmente pensado como uma versão americana de Kind Hearts and Coronets, o filme evoluiu para incorporar uma crítica social mais contemporânea. A proposta é clara: usar a estrutura de uma comédia de assassinatos para expor o vazio moral de uma família bilionária. Para dar corpo a essa ideia, Ford reúne um elenco de peso, com Glen Powell no papel principal, acompanhado por Margaret Qualley e Jessica Henwick.
A história acompanha Becket Redfellow, arquiteto e filho da filha deserdada do clã Redfellow. Enquanto a mãe viveu longe da fortuna da família, seus primos e tios desfrutaram do império construído pelo patriarca. Agora, adulto e ressentido, Becket decide que está disposto a fazer qualquer coisa, inclusive matar, para recuperar o que acredita ser seu por direito. A pergunta que move o filme é simples e potente: até onde alguém iria por dinheiro, poder e reconhecimento?
Ford constrói sua crítica apoiando-se na caricatura. Os herdeiros são apresentados como versões exageradas da elite contemporânea: o primo pastor que valoriza mais a própria imagem do que a fé, a prima que adota crianças como estratégia de marketing, o parente que vive como se estivesse dentro de O Lobo de Wall Street. A sátira está ali, clara e direta. O problema é que ela raramente ultrapassa o nível da ridicularização. O filme aponta para a desigualdade e para a obsessão pelo sucesso financeiro, mas evita aprofundar as consequências desse sistema. Parece temer que a narrativa se torne densa demais ou panfletária, e com isso reduz o impacto do que poderia ser um comentário mais incisivo.
Essa escolha gera uma contradição interessante: o longa quer provocar, mas também quer ser leve. O absurdo é um de seus pilares, afinal, trata-se de um homem que decide exterminar a própria família, porém as motivações que justificariam essa escalada nem sempre recebem o mesmo cuidado. A relação de Becket com a mãe, que poderia ser o motor emocional da trama, aparece em poucos momentos de flashback. A demissão do emprego surge como gatilho adicional, mas também não ganha desenvolvimento suficiente para sustentar a transformação do protagonista em estrategista metódico. Não se trata de ausência de motivação, e sim de construção apressada. A virada existe, mas falta peso para que ela seja plenamente convincente.
Outro ponto que enfraquece o impacto é o uso constante de narração. O que poderia ser sugerido pelas ações e pelos silêncios acaba explicado em palavras. Ao verbalizar pensamentos e planos, o protagonista reduz a força de algumas cenas que funcionariam melhor pela tensão implícita. Além disso, a estrutura que alterna presente e passado, incluindo conversas com um padre, por vezes quebra o fluxo da narrativa, interrompendo o envolvimento do espectador.
Ainda assim, é preciso reconhecer que Ford demonstra firmeza no controle do tom. O filme não oscila entre drama pesado e comédia escancarada, ele mantém uma linha de humor mais contida, quase silenciosa, que funciona em vários momentos. Essa escolha pode até explicar a sensação de que Glen Powell está mais comedido. Conhecido pelo carisma expansivo e pelo timing afiado para comédia, aqui o ator parece limitado por um estilo que pede contenção. Não é uma atuação fraca, mas é menos vibrante do que se poderia esperar. Já Margaret Qualley e Jessica Henwick cumprem seus papéis, embora o roteiro não lhes ofereça espaço suficiente para brilhar.
A estrutura da trama, com Becket eliminando familiares conforme “sobe” na árvore genealógica, cria expectativa quanto à inventividade das mortes. As duas primeiras trazem certa criatividade, mas a partir daí o interesse do diretor parece deslocar-se. O foco deixa de ser a elaboração dos crimes e passa a ser o avanço da história, o que contribui para o ritmo ágil, mas reduz o potencial lúdico da premissa.
No terceiro ato, o filme se aproxima de algo mais instigante. A presença de dois interesses amorosos, um do passado e outro do presente, coloca o protagonista diante de escolhas que poderiam aprofundar a discussão moral. Surge uma ambiguidade promissora, especialmente quando as consequências chegam de maneira diferente do esperado. No entanto, essa tensão é rapidamente suavizada. O desfecho opta por uma resolução mais convencional, enfraquecendo o impacto que poderia ter sido mais duradouro.
No fim das contas, Manual Prático da Vingança Lucrativa é um filme que entretém, sustenta seu ritmo e entrega algumas reviravoltas interessantes. Há controle, há intenção e há momentos genuinamente divertidos. Mas também há cautela excessiva. Ao priorizar o entretenimento em detrimento de um mergulho mais profundo em suas próprias provocações, o longa se mantém na superfície de temas que pediam mais coragem. É um divertimento eficiente e digestível, mas que deixa no ar a sensação de que, com o mesmo material, poderia ter sido algo realmente marcante.