Em uma era onde os estúdios parecem estar mais interessados em reviver franquias do que em inovar de verdade, Como Treinar o Seu Dragão (2025) surge como uma grata exceção — e, surpreendentemente, vinda da Universal Pictures. À primeira vista, o longa pode parecer apenas mais um projeto caça-níquel baseado no sucesso da animação de 2010. Mas basta uma análise mais cuidadosa para perceber que estamos diante de algo muito mais significativo: um marco entre as adaptações live-action contemporâneas, que, além de respeitar profundamente o material original, entrega emoção, grandiosidade e uma experiência cinematográfica digna de aplausos.
A chave para esse êxito está na escolha certeira do diretor. Dean DeBlois, cocriador da trilogia original e também corroteirista de Lilo & Stitch (2002), faz aqui sua estreia em longas live-action. A decisão da Universal de trazer alguém com vínculo direto com a obra original é não só acertada como reveladora: enquanto a Disney insiste em reinventar suas histórias clássicas para tentar agradar um novo público — frequentemente falhando em agradar tanto os antigos quanto os novos fãs —, a Universal opta por respeitar o legado que Como Treinar o Seu Dragão já carregava. E mais do que isso, entrega esse legado a alguém que o compreende em profundidade. O resultado é um filme que não tenta ser mais do que o original, mas sim traduzir sua essência para um formato mais palpável, onde o toque humano e a fisicalidade do mundo real elevam ainda mais o impacto emocional da história.
Visualmente, o filme é deslumbrante. Em tempos em que a pressa para entregar produtos digitais tem resultado em efeitos visuais questionáveis, Como Treinar o Seu Dragão (2025) impressiona pelo cuidado com seus cenários e criaturas. A ilha de Berk ganha vida com cenários reais e detalhadamente construídos — a ponto da produção inserir até cheiro de peixe nos sets para estimular a imersão dos atores —, e os dragões são renderizados com tamanha naturalidade que não há distanciamento algum entre público e fantasia. A pós-produção é cuidadosa, e o resultado são criaturas que realmente parecem existir naquele mundo, reforçando o elo entre os personagens e os espectadores.
E esse elo não seria possível sem um elenco comprometido e bem escalado. Mason Thames, que já havia chamado atenção em O Telefone Preto, entrega um Soluço convincente e cheio de nuances, consolidando ainda mais sua presença em Hollywood. Nico Parker, ainda em início de carreira, mostra carisma e presença em cena, enquanto Gerard Butler surpreende ao retornar ao papel de Stoico, agora não apenas emprestando sua voz como fez na animação, mas oferecendo uma atuação sólida, sensível e muito distante dos personagens explosivos que marcaram sua carreira. Sua presença traz uma carga emocional poderosa à narrativa e reforça os laços familiares que sustentam o cerne do enredo.
A direção de DeBlois também se destaca pela sensibilidade e controle narrativo. Ainda que esta seja sua estreia no formato live-action, sua bagagem nas animações o prepara para conduzir uma história que exige tanto ação quanto emoção. O filme flui de maneira orgânica, sem atropelos, com uma fotografia que valoriza a ambientação e uma trilha sonora magistral, que amplifica cada momento dramático e heróico com uma precisão comovente. Arrisco dizer que, em certos pontos, a trilha sonora desta versão chega a rivalizar — ou até superar — a do filme original, o que não é pouca coisa.
Claro que algumas adaptações foram feitas. Nem todas as cenas da animação foram transportadas fielmente, mas as mudanças são pontuais e justificadas pelo novo formato. Nada aqui soa como uma tentativa de reinventar ou corrigir o que já funcionava. Pelo contrário: há um profundo respeito por tudo que fez da obra original um sucesso — o que torna a experiência ainda mais gratificante para os fãs. A história mantém sua força, seu coração, e agora é envolta em uma aura épica que apenas o live-action poderia oferecer.
Como Treinar o Seu Dragão (2025), portanto, não é apenas mais um remake. É uma celebração de um universo que encantou gerações e que, agora, ganha novas camadas sem perder sua alma. É também uma prova de que os live-actions podem — e devem — ser tratados com mais seriedade, e que a fidelidade emocional é mais importante do que a reinvenção por si só. O filme diverte, emociona e impressiona com sua escala e carinho nos detalhes. Chega a ser irônico perceber que, enquanto muitos ainda esperam que House of the Dragon nos entregue uma história realmente emocionante com dragões em tela, esse live-action da Universal já o faz — com muito mais coração.
Diante de tudo isso, faz total sentido que a Universal tenha confirmado Como Treinar o Seu Dragão 2 (2027) antes mesmo da estreia deste filme. Quando se entrega algo com tanto respeito, alma e qualidade, o público responde. E a expectativa para o futuro dessa franquia, agora em sua nova forma, não poderia ser mais positiva.