Sem qualquer alarde ou esforço de divulgação, A Última Missão chegou silenciosamente ao catálogo do Prime Video neste começo de mês. E, convenhamos, o silêncio já dizia muita coisa. Ao descobrir que o elenco traz nomes como Eddie Murphy, Pete Davidson e Keke Palmer — sob a direção de Tim Story, responsável por filmes como Quarteto Fantástico (2005), Táxi (2004) e Tom & Jerry (2021) — era difícil não acender o sinal de alerta. Ainda assim, como o Prime Video havia entregado algumas comédias razoáveis nos últimos meses, decidi encarar o filme com expectativas baixíssimas. Esperava, no mínimo, dar algumas risadas. Mas o que se vê aqui é uma comédia de ação que falha justamente nos dois pilares que deveria sustentar: o humor e a ação.
Ninguém assiste a um filme como A Última Missão em busca de grandes reviravoltas, drama profundo ou personagens complexos. O que o público espera é algo simples: leveza, piadas eficientes e, se possível, algumas sequências de ação bem coreografadas para justificar o rótulo de “comédia de ação”. Só que o filme não entrega nada disso. É uma produção que não diverte, não empolga, e sequer consegue sustentar a própria proposta.
A maior decepção vem de Eddie Murphy. Um nome que, mesmo em produções fracas, costumava manter um mínimo de carisma em cena. Aqui, ele parece deslocado, quase apático. Seu humor característico, sempre expressivo e sarcástico, dá lugar a uma atuação contida, sem brilho. De acordo com o próprio diretor, muitas cenas entre Murphy e Pete Davidson foram improvisadas. Mas a sensação é que Murphy se segurou demais, enquanto Davidson seguiu com sua habitual performance caricata, ocupando um espaço que deveria ser equilibrado entre os dois. Essa dinâmica sem química afeta diretamente o tom cômico do filme, que se torna irregular, sem ritmo e, acima de tudo, sem graça.
Davidson, conhecido por um estilo de humor mais físico e exagerado, tem espaço de sobra para brilhar, mas não consegue. Seus trejeitos, que já foram engraçados em outras ocasiões, aqui soam repetitivos e sem propósito. E isso prejudica inclusive Keke Palmer, que talvez seja a única no elenco tentando de fato tirar algo desse roteiro desastroso. Palmer demonstra esforço tanto nas tentativas de humor quanto nos raros momentos em que o filme sugere algum drama. Mas seu empenho esbarra em um problema incontornável: ela não tem material para trabalhar. Em cena, Palmer parece fazer parte de outro filme — um em que ainda há esperança de que algo funcione.
O roteiro é um capítulo à parte. Totalmente entregue aos clichês do gênero, ele não se dá ao trabalho de desenvolver qualquer aspecto da narrativa. Personagens surgem e tomam decisões sem motivação. Situações simplesmente “acontecem”, sem qualquer construção prévia. E não se trata de esperar profundidade em um filme que nunca prometeu isso — trata-se de constatar que nem mesmo o mínimo é oferecido. A ausência de coesão é tamanha que os próprios personagens, em diversos momentos, precisam verbalizar o que estão fazendo e por quê, como se o roteiro soubesse que não construiu nada até ali.
Ao analisar os créditos, descobrimos que os roteiristas praticamente não têm histórico em grandes produções, o que ajuda a explicar tamanha fragilidade no texto. Mas a culpa não pode ser só deles. Tim Story, apesar de não ser conhecido por obras-primas, já demonstrou competência para conduzir filmes genéricos, mas funcionais. Desta vez, parece ter perdido completamente o controle da narrativa. A direção é frouxa, sem identidade, e passa a sensação de que ninguém no set realmente acreditava no material que estava sendo produzido.
Mesmo ao tentar se apoiar nos elementos de ação, A Última Missão não convence. Há um ou outro momento em que se percebe alguma tentativa de movimentar a trama com perseguições ou lutas, mas tudo parece feito sem energia. Os dublês são visivelmente mais ativos do que os próprios atores, e algumas cenas de combate são tão mal executadas que beiram o amadorismo. No desfecho, quando o filme deveria entregar seu clímax, o resultado é anticlimático e visualmente pobre, com efeitos especiais questionáveis e uma conclusão que parece mais um alívio do que um encerramento digno.
O tom geral do filme também é confuso. Ao mesmo tempo que flerta com o humor escrachado, tenta inserir pequenos momentos de emoção — que não funcionam por falta de contexto. Falta equilíbrio. Falta foco. Falta, acima de tudo, a sensação de que alguém estava realmente comprometido com o projeto.
Em resumo, A Última Missão é um dos filmes mais esquecíveis — e frustrantes — do catálogo recente do Prime Video. Não pela proposta simples, mas por não conseguir entregar nem o básico. O elenco tinha potencial, o diretor já entregou projetos medianos que funcionaram dentro da proposta, mas aqui nada se salva. A comédia não arranca risadas, a ação não empolga, o roteiro não se sustenta, e até mesmo os talentos em cena parecem desconectados entre si e da história.
A comédia de ação é um gênero que, quando bem executado, é eficaz mesmo com roteiros simples e produção modesta. Mas exige ritmo, carisma e direção. A Última Missão não tem nada disso. É uma obra que parece ter sido feita no piloto automático e, no fim, representa pouco mais do que uma perda de tempo — tanto para quem assistiu quanto, aparentemente, para quem participou da produção.