É difícil não se impressionar com Uma Batalha Após a Outra, novo filme de Paul Thomas Anderson. A cada projeto, o diretor norte-americano se reinventa, mas desta vez ele foi além: construiu uma obra de ação grandiosa, com discussões políticas inflamadas, mas que nunca abre mão de entreter. Em 2h40 de duração, Anderson mostra que é possível unir espetáculo e reflexão, sem que um sacrifique o outro.
A premissa parte de um terreno clássico, quase mítico: Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), ex-revolucionário conhecido no passado como “Ghetto Pat”, precisa sair da aposentadoria para salvar sua filha, sequestrada por um velho inimigo que ressurge após 16 anos. O enredo poderia se limitar ao drama pessoal, mas Anderson vai além. O resgate funciona como motor narrativo para abordar algo maior: o extremismo político contemporâneo, tanto de correntes liberais quanto conservadoras, revelando a paranoia e a fragilidade de movimentos que se autoproclamam donos da verdade.
O mais impressionante é como o filme, apesar de lidar com temas pesados, nunca perde o ritmo. Muitos longas com essa duração se perdem em excesso, mas aqui tudo se mantém coeso. O espectador não sente o tempo passar porque cada sequência acrescenta algo novo: seja uma camada ao protagonista, seja uma crítica social, seja uma cena de ação que parece saída de um épico moderno.
Esse equilíbrio só é possível porque Anderson não se limita a um único tom. Quando o tema ameaça ficar denso demais, o diretor injeta humor, ironia e até absurdos que funcionam como válvula de escape. A ação, por sua vez, surge como espetáculo visual, mas também como comentário: cada batalha é metáfora para a luta interna de personagens que oscilam entre ideologia e sobrevivência.
O investimento da Warner Bros. foi arriscado. Com orçamento estimado em US$ 170 milhões, havia o temor de repetir o desastre de Mickey 17, de Bong Joon-ho, outro projeto autoral bancado pelo estúdio que não rendeu nem bilheteria nem aplausos da crítica. A diferença é que Anderson entrega aqui um filme que justifica cada centavo. É grandioso em escala, mas também íntimo em propósito. É entretenimento de massa, mas sem abrir mão de personalidade.
Nos bastidores, o caminho até a estreia não foi simples. O filme não passou por festivais, teve exibições-teste (algo raro para o diretor desde Boogie Nights) e enfrentou adiamentos que alimentaram rumores de problemas na produção. O medo era que Anderson tivesse perdido a mão depois da recepção morna de Licorice Pizza. Mas Uma Batalha Após a Outra desmente qualquer desconfiança: não só ele manteve o controle criativo como entregou o maior projeto da sua carreira.
A parte técnica é um espetáculo à parte. A fotografia de Michael Bauman constrói imagens que traduzem paranoia e frenesi. Não é apenas estética: cada plano reforça a atmosfera de urgência que envolve Bob Ferguson. A trilha sonora de Jonny Greenwood, colaborador de longa data do diretor, é igualmente fundamental. Seus arranjos, cheios de tensão e mistério, dialogam com a edição de Andy Jurgensen, criando momentos em que música e imagem parecem pulsar no mesmo compasso. É como se o som fosse uma extensão da câmera.
O elenco também merece destaque. Leonardo DiCaprio entrega uma das atuações mais completas de sua carreira recente. Seu Bob é um homem dividido entre a glória passada e a fragilidade presente. No auge da juventude, ele parecia um herói revolucionário; anos depois, é um pai cansado, descrente, que só encontra motivação ao perceber que sua filha corre perigo. DiCaprio transita entre esses dois polos com naturalidade, mostrando tanto o fervor idealista do passado quanto o medo humano do presente.
Sean Penn surpreende como o coronel Lockjaw. O personagem poderia ser apenas uma caricatura de extremista, mas o ator constrói alguém repleto de contradições: um homem que precisa reafirmar sua virilidade e posição política o tempo todo, como se tentasse convencer a si mesmo. É uma atuação densa, que adiciona camadas a um papel que, em mãos menos experientes, seria raso.
Teyana Taylor também brilha como Perfidia Beverly Hills, ainda que seu arco inicial tenha menos desenvolvimento do que poderia. O relacionamento entre ela e Bob, por exemplo, surge de forma apressada, e isso fragiliza parte da transição entre o primeiro e o segundo ato. Essa é talvez a maior falha do filme: a pressa em estabelecer elementos do passado para chegar rapidamente ao presente. Mas, ainda que esse trecho soe acelerado, Anderson compensa com a força das atuações e com o que vem depois. O impacto dramático não se perde.
Chase Infiniti, em sua estreia no cinema, consegue se destacar mesmo dividindo tela com gigantes. E ainda há participações de peso como Benicio del Toro e Regina Hall, que, mesmo em papéis menores, fortalecem a trama. Anderson sabe usar cada ator como peça de um tabuleiro maior, em que ninguém está ali por acaso.
Outro mérito está na coragem de abordar temas que muitos preferem evitar. Extremismo político, imigração e até a noção de paternidade como responsabilidade e renúncia aparecem no roteiro. Anderson não toma partido, mas também não se esconde atrás da neutralidade. Ele mostra os dois lados com ironia, revelando absurdos e contradições. Ao mesmo tempo, injeta humanidade em figuras que poderiam ser apenas símbolos ideológicos.
Se Uma Batalha Após a Outra não é perfeito, é porque nenhum filme realmente é. Há pressa na exposição inicial e talvez algumas cenas pudessem ser mais enxutas. Mas o saldo é tão positivo que essas imperfeições se diluem diante da grandeza da obra. Anderson entrega não apenas um épico de ação, mas também uma reflexão sobre o tempo em que vivemos.
No fim, o longa é um retrato do presente disfarçado de espetáculo. É sobre a fragilidade de heróis e vilões, sobre como ideologias podem se tornar prisões, e sobre como, em meio a tudo isso, ainda resta espaço para afeto, humor e redenção. É cinema em grande escala, feito para provocar e entreter ao mesmo tempo.
Uma Batalha Após a Outra não é só um dos melhores filmes de 2025. É um daqueles raros trabalhos que conseguem unir inteligência, emoção e espetáculo, deixando claro que Paul Thomas Anderson ainda tem muito a dizer — e que, quando dizem que o cinema está em crise, basta um filme assim para provar o contrário.