Título: “Carismática e nostálgica, mas apressada e limitada, que emociona sem fazer jus à grandiosidade” - Nota 6
Mauricio de Sousa é um dos maiores nomes da cultura brasileira. Criador da Turma da Mônica, ele moldou gerações e se tornou parte essencial do imaginário nacional. Não à toa, sua cinebiografia era inevitável. Mauricio de Sousa: O Filme, dirigido por Pedro Vasconcelos e escrito em parceria com Paulo Cursino, chega justamente nesse momento em que o cinema brasileiro tem investido cada vez mais em histórias de figuras marcantes do país. Mas se o longa é carregado de respeito, emoção e carisma, também tropeça em escolhas narrativas que comprometem o resultado final.
O primeiro ponto que chama atenção é a ambição. A proposta do filme é revisitar cerca de 40 anos da vida de Mauricio em pouco menos de duas horas. É aí que mora um dos maiores problemas: condensar décadas de história em um tempo tão curto. O resultado é uma narrativa que corre demais, pula etapas importantes e nem sempre consegue transmitir o impacto emocional que a trajetória do quadrinista merece. Muitas cinebiografias recentes têm optado por recortar apenas uma fase marcante da vida de seus retratados justamente para evitar essa armadilha. Aqui, a tentativa de abraçar tudo acaba deixando de lado partes que o público mais esperava ver — como o processo criativo detalhado da Turma da Mônica e a consolidação da MSP.
Apesar disso, não dá para negar que o longa exala carinho. A escolha de colocar Mauro Sousa, filho de Mauricio, interpretando o próprio pai em cena é um acerto carregado de emoção. Mauro, com sua experiência no teatro, traz uma presença sensível e verdadeira. Já Diego Laumar, que vive o Mauricio mais jovem, entrega uma atuação encantadora, daquelas que deixam claro o surgimento de um talento promissor. Ambos são o coração do filme e conseguem segurar a narrativa mesmo quando o roteiro se perde em saltos temporais ou diálogos expositivos.
O elenco de apoio também tem seus momentos. Tathi Lopes brilha nas passagens cômicas e dá frescor à trama, enquanto Elizabeth Savala se destaca em uma participação que dá peso e afeto às relações familiares. No entanto, nem todos os coadjuvantes conseguem sustentar o mesmo nível, e quando a narrativa depende desses personagens para avançar, o filme perde intensidade.
Outro ponto que merece destaque — e crítica — é a decisão de Pedro Vasconcelos de filmar quase todo o longa com a câmera estática. Em entrevistas, o diretor explicou que a escolha foi proposital: a ideia era criar a sensação de estar folheando uma revista em quadrinhos, como se cada cena fosse um quadro fixo. A proposta é interessante no papel, mas na prática acaba prejudicando o ritmo. O recurso gera uma sensação de imobilidade, de superficialidade, e coloca sobre os atores um peso ainda maior, já que todo o dinamismo da cena precisa vir deles. Quando isso funciona, a cena ganha força; quando não, o resultado é uma estética que lembra produções de baixo orçamento.
Essa decisão se conecta com outra escolha problemática: o uso quase constante da narração. Se nos quadrinhos a voz narrativa nos guia pela história, no cinema esse recurso pode soar preguiçoso quando substitui a construção visual. Em vários momentos, a narração funciona mais como um remendo para costurar buracos do roteiro, revelando a dificuldade de condensar tantos acontecimentos em tão pouco tempo. Em vez de mostrar o impacto de certos episódios, o filme opta por simplesmente contá-los, o que tira parte da emoção.
A estrutura da narrativa também contribui para essa sensação de descompasso. O primeiro bloco, que retrata a infância e a descoberta da paixão pelo desenho, é encantador e prende o espectador com naturalidade. O problema surge a partir do segundo bloco, quando a vida adulta de Mauricio passa a ser contada por meio de saltos abruptos, limitados a marcos como “o nascimento das filhas” ou “um novo emprego”. Essa forma apressada de contar a história dilui o impacto emocional e faz a trajetória perder a força que poderia ter. O terceiro ato, que deveria ser o ápice, com a criação da Turma da Mônica e o reconhecimento nacional, acaba se tornando o mais atropelado, reunindo cenas rápidas e resoluções corridas que deixam a sensação de vazio.
É aqui que surge uma contradição central do longa: ao mesmo tempo em que quer prestar homenagem a Mauricio, destacando a grandiosidade de sua obra, o filme falha em dar o devido espaço àquilo que mais marcou sua carreira. O marketing vende a ideia de que veremos 40 anos de história, mas a construção da Turma da Mônica, que é justamente o momento mais aguardado, recebe pouco tempo de tela. As ideias aparecem de forma apressada, em lembranças ou pequenas citações, sem o peso que deveriam ter. Para o público, isso se traduz em frustração.
Ainda assim, há méritos. A introdução e o desfecho conseguem emocionar, especialmente porque deixam clara a admiração de todos os envolvidos pelo legado de Mauricio. O filme também cumpre um papel importante ao apresentar ao público traços menos conhecidos da vida pessoal do quadrinista — sua relação com a família, com a avó Dita e com os primeiros passos de sua carreira. Para quem cresceu lendo a Turma da Mônica, é impossível não sentir nostalgia ao ver essa trajetória ganhar forma na tela.
Mas quando o filme termina, fica a sensação de que vimos apenas flashes de uma história muito maior. O excesso de carinho e respeito está lá, mas faltou ousadia para aprofundar os conflitos, explorar melhor o processo criativo e construir cenas que ficassem marcadas na memória. É como se o longa tivesse preferido ser seguro demais em vez de mergulhar na complexidade do personagem e da obra.
No fim das contas, Mauricio de Sousa: O Filme é uma homenagem carismática, nostálgica e feita com amor. É um longa que emociona em alguns momentos e traz ao público um lado mais íntimo do quadrinista. Porém, sua proposta ambiciosa de contar 40 anos em duas horas cobra um preço alto. A narrativa apressada, a escolha de uma câmera estática e o excesso de narração fazem com que a cinebiografia não alcance todo o potencial que tinha nas mãos.
O resultado é um filme que conquista pelo afeto, mas deixa a sensação de que poderia ter sido muito mais. Afinal, contar a vida de alguém que criou um universo tão rico e essencial para a cultura brasileira merecia uma abordagem mais ousada, mais viva e menos dependente de atalhos. Mauricio de Sousa continua sendo uma lenda, mas sua cinebiografia, apesar de carismática, ainda não é o gibi completo que gostaríamos de folhear no cinema.