Conclave mergulha no cerne da política eclesiástica ao retratar o conclave para eleger um novo papa após uma morte inesperada. O roteiro, adaptado do romance de Robert Harris, estrutura-se em três dias de tensão, revelando segredos que desafiam a moralidade dos cardeais. A trama é habilmente construída, com reviravoltas como a acusação de simonia contra Tremblay e o passado de Adeyemi com uma freira, sustentando o suspense. No entanto, críticos como Katie Walsh (Los Angeles Times) apontam que o enredo, embora envolvente, é "um mistério muito fino", dependente de convenções do gênero. A explosão terrorista no terceiro ato, embora impactante visualmente, parece um recurso abrupto para acelerar o clímax, levantando questões sobre coerência narrativa. Ainda assim, a exploração de temas como hipocrisia e poder mantém o espectador engajado, mesmo que a profundidade filosófica seja, por vezes, sacrificada em prol do ritmo.
O elenco de Conclave é seu maior trunfo. Ralph Fiennes, como o cardeal Lawrence, equilibra gravidade e vulnerabilidade, personificando um homem dividido entre dever e dúvida. Stanley Tucci (Bellini) e John Lithgow (Tedesco) entregam nuances que transcendem caricaturas, embora Sergio Castellitto (Tremblay) roube cenas com sua ambiguidade moral. Isabella Rossellini, como a irmã Agnes, adiciona camadas de mistério com poucas falas. Contudo, a representação do cardeal nigeriano Adeyemi (interpretado por um ator não nomeado no material) gera controvérsia: Otosirieze Obi-Young (Open Country Mag) critica a associação do único candidato africano a um escândalo sexual, reforçando estereótipos coloniais. Apesar disso, as performances geralmente elevam o roteiro, oferecendo complexidade onde o texto poderia ser raso.
Peter Straughan, vencedor do Oscar por Melhor Roteiro Adaptado, constrói diálogos afiados que refletem as fissuras ideológicas da Igreja. A tensão entre progressistas e tradicionalistas é articulada com inteligência, evitando maniqueísmos fáceis. No entanto, o discurso final de Benitez (arcebispo intersex), embora poderoso em sua mensagem de inclusão, é criticado por seu tom genérico. A revista Angelus compara-o a "um texto do ChatGPT", acusando-o de superficialidade. Além disso, a revelação da condição intersexo de Benitez, embora inovadora, é introduzida tardiamente, deixando pouco espaço para desenvolvimento. Ainda assim, o roteiro brilha ao humanizar figuras hierárquicas, mostrando cardeais como seres falíveis, não apenas símbolos institucionais.
Edward Berger e o diretor de fotografia (não citado) transformam o Vaticano em um personagem silencioso. A Capela Sistina é filmada com ângulos claustrofóbicos, enfatizando o peso da tradição. A paleta de cores, dominada por tons terrosos e dourados, contrasta com a frieza dos corredores administrativos, simbolizando a dicotomia entre espiritualidade e burocracia. Cenas como a explosão na capela são coreografadas com precisão, usando luz e sombra para amplificar o caos. A crítica Manohla Dargis (The New York Times) observa que a estética reflete a autoimagem da Igreja — grandiosa, porém envelhecida. A fotografia, portanto, não apenas embeleza, mas também critica.
Embora detalhes específicos sobre a trilha sonora sejam escassos, a música em Conclave cumpre seu papel ao sublinhar a tensão sem dominar as cenas. Acordes graves de órgão ecoam durante votações, lembrando a solenidade do ritual, enquanto cordas discretas acompanham investigações secretas. A ausência de uma trilha marcante pode ser vista como uma falha para alguns, mas funciona como uma escolha estilística, permitindo que o silêncio — tão crucial em ambientes monásticos — fale por si.
O desfecho, com a eleição do cardeal Benitez (intersex), é tanto provocativo quanto polarizador. Para Peter Debruge (Variety), trata-se de "uma reviravolta satisfatória", enquanto Richard Lawson (Vanity Fair) a considera "imprudente". A revelação da condição de Benitez desafia noções de identidade e divindade, mas sua rápida resolução — ele aceita o papado sem confrontar publicamente seu segredo — dilui o impacto potencial. A cena final, com Lawrence contemplando freiras no pátio, sugere uma ambiguidade deliberada: é uma metáfora de esperança ou resignação? O bispo Robert Barron critica o final como "previsivelmente progressista", mas é inegável que ele instiga debate, algo raro em filmes de suspense.
Conclave é uma obra paradoxal: tecnicamente impecável, com direção segura e atuações memoráveis, mas dividida entre ambição intelectual e convenções comerciais. Seu maior mérito está em humanizar um processo históricomente mitificado, mostrando a Igreja como um espelho das contradições humanas. No entanto, falha ao aprofundar questões como colonialismo (na representação de Adeyemi) e intersexualidade, optando por gestos simbólicos em vez de análise substantiva. Culturalmente, o filme ressoou além das telas, viralizando em memes que ironizavam sua seriedade — um testemunho de sua relevância, ainda que involuntária.
Em síntese, Conclave é um triunfo como entretenimento sofisticado, mas sua busca por equilíbrio entre crítica social e suspense o impede de atingir grandeza. Como observou Alexander Payne, é "fascinante e engraçado", porém, como arte, deixa a sensação de que poderia ter sido mais corajoso — um pecado de omissão em um filme sobre escolhas morais.