Entre os filmes mais falados desta temporada de premiações, poucos conseguiram polarizar tanto o público e a crítica quanto Emilia Pérez. A produção de Jacques Audiard surgiu com grande destaque nos festivais, arrebatando prêmios importantes e garantindo sua vaga na corrida do Oscar. No entanto, a recepção se transformou drasticamente quando o filme finalmente alcançou um público mais amplo, gerando debates acalorados sobre sua qualidade narrativa e suas indicações. Embora Emilia Pérez não seja um dos piores filmes do ano, sua presença entre os indicados ao Oscar revela um claro descompasso entre a percepção da crítica especializada e o que a obra realmente entrega.
A premissa do filme, por si só, chama atenção: um chefe do tráfico mexicano decide mudar de gênero e recomeçar sua vida, contratando uma advogada para intermediar sua transição. A ideia, que poderia render um drama potente e significativo, acaba sendo diluída em uma estrutura confusa e superficial. Audiard parece ter pego elementos de diversas temáticas relevantes e os jogado juntos sem um fio condutor que os una de forma orgânica. O roteiro, um dos aspectos mais criticados da obra, carece de coesão narrativa, fazendo com que as decisões dos personagens frequentemente pareçam arbitrárias e desconectadas da lógica interna do filme.
O protagonista Manitas, interpretado por Karla Sofía Gascón, passa por uma transição de gênero que nunca é realmente explorada de maneira profunda. O filme menciona a questão identitária e a utiliza como pilar central da história, mas nunca se aprofunda nos conflitos internos da personagem ou nas implicações reais dessa mudança. A trama ainda apresenta inconsistências notáveis, como a decisão de Manitas de mudar de gênero para escapar do cartel, apenas para, anos depois, reaparecer publicamente e assumir um papel de destaque na mídia. Essas contradições fazem com que seja difícil se conectar com o drama proposto, já que a lógica da narrativa constantemente se desfaz.
O filme também enfrenta problemas significativos na representação da cultura mexicana. O fato de o roteiro ter sido originalmente escrito em francês e posteriormente traduzido para o espanhol resultou em diálogos que, em alguns momentos, soam artificiais e desconectados da realidade linguística local. O uso de Inteligência Artificial para adaptar sotaques apenas reforça essa sensação de distanciamento, criando momentos em que o idioma parece robotizado e desprovido de autenticidade. Essa falta de imersão também é sentida na construção dos personagens e de suas relações, que são pouco desenvolvidas ao longo da narrativa.
Porém, nem tudo em Emilia Pérez é um equívoco. A atuação de Zoe Saldaña é um dos pontos altos do filme, trazendo camadas e profundidade para sua personagem. Karla Sofía Gascón também entrega uma performance digna de reconhecimento, mesmo com um roteiro que pouco lhe oferece para trabalhar. O grande ponto fraco do elenco, no entanto, é Selena Gomez. Sua interpretação se destaca negativamente, com uma atuação exagerada e um espanhol pouco convincente, o que constantemente quebra a imersão da narrativa. Seu desempenho destoa do restante do elenco, tornando algumas cenas involuntariamente constrangedoras.
Outro aspecto que merece atenção é a estrutura musical do filme. Emilia Pérez é classificado como um musical, mas se distancia dos padrões tradicionais do gênero. As canções funcionam mais como diálogos musicados do que como momentos de expressão emocional ou de avanço narrativo. Inicialmente, essa escolha parece interessante, mas, com o passar do tempo, fica evidente que o filme usa esse recurso como uma tentativa de mascarar a superficialidade de seu roteiro. As relações entre os personagens são desenvolvidas de forma precária, e a conexão emocional que o público deveria sentir nunca se concretiza. A relação entre Manitas e a personagem de Selena Gomez, por exemplo, é praticamente inexistente, tornando-se ainda mais incoerente quando se torna um dos principais motores dramáticos do terceiro ato.
No final das contas, Emilia Pérez é um filme que almeja muito, mas entrega pouco. Seu roteiro fragmentado, a falta de coerência na jornada dos personagens e as falhas na representação cultural fazem com que sua presença no Oscar pareça mais um reflexo de um entusiasmo inicial da crítica do que do real impacto da obra. As indicações para Atriz Coadjuvante e Canção Original são compreensíveis, mas a inclusão do filme em categorias como Melhor Filme e Roteiro Adaptado é, no mínimo, questionável.
Diante de tantas lacunas narrativas e de uma abordagem que falha em aprofundar os temas que propõe, Emilia Pérez se torna uma experiência frustrante. Seu potencial existia, mas a execução transformou a obra em um dos títulos mais contestáveis da atual temporada de premiações.