Trazer “A Odisseia” para o cinema nunca foi tarefa simples. A obra de Homero, com toda a sua grandiosidade, sempre carregou consigo um peso quase intransponível: como traduzir em imagens a magnitude de uma das histórias mais célebres da humanidade? Em O Retorno, Uberto Pasolini decide assumir esse desafio de uma forma completamente diferente. Ao invés de apostar em batalhas épicas ou na escala monumental da jornada de Odisseu, o diretor escolhe enxugar a narrativa, reduzir os excessos e se concentrar em um recorte específico da história: os momentos finais, quando o herói finalmente retorna a Ítaca após anos de ausência. É aqui que Pasolini encontra o seu campo de batalha — não nas guerras contra monstros ou exércitos, mas no terreno humano, melancólico e frágil das marcas que a guerra deixa em quem sobrevive.
Esse olhar intimista não surgiu por acaso. O projeto começou a ser desenvolvido em 2011, mas só em 2022 encontrou o espaço necessário para avançar, graças à disponibilidade de Ralph Fiennes, que se tornaria o coração da produção. Com um orçamento modesto de cerca de 20 milhões de dólares, Pasolini jamais poderia competir em escala visual com adaptações grandiosas da mitologia grega. Por isso, a aposta recaiu sobre uma fotografia contemplativa e sobre a força interpretativa do elenco. Essa decisão, embora corajosa, traz consigo tanto acertos quanto limitações que marcam o filme de forma evidente.
O ponto de partida do diretor é explorar o trauma de Odisseu. Em entrevistas, Pasolini deixou claro que não queria contar a história de um herói glorioso, mas de um homem devastado. A guerra de Troia aparece em meros 30 segundos de tela — e não é um deslize de produção, mas uma escolha criativa. O filme parte do pressuposto de que o público já conhece o material original, e usa esse conhecimento como alicerce para mergulhar no que vem depois: o choque do retorno, a incapacidade de retomar a vida, o peso do que foi perdido. É quase uma leitura moderna do estresse pós-traumático, só que ambientada no universo da mitologia.
Essa ideia, no entanto, encontra obstáculos no roteiro assinado por John Collee e Edward Bond. Há uma tentativa clara de construir o drama interno do protagonista por meio de diálogos densos e momentos contemplativos, mas o texto nunca consegue desenvolver plenamente o trauma de Odisseu. As pistas aparecem, o desconforto é sugerido, mas não se concretiza em uma narrativa consistente. O resultado é um filme que oscila entre o retrato do herói devastado e o melodrama familiar, lembrando, em alguns momentos, a artificialidade de produções televisivas de época. Essa contradição prejudica o impacto que Pasolini parecia buscar: de um lado, a promessa de um retrato cru e brutal; de outro, uma execução que muitas vezes se perde em convenções e superficialidades.
Um dos aspectos que mais expõem essas falhas está no design de produção. É inegável que o orçamento reduzido não permitiria cenários grandiosos ou figurinos luxuosos. O problema é que, em vez de abraçar essa limitação com criatividade, a produção acaba soando pobre. Figurinos pouco trabalhados, cenários repetitivos e uma cenografia que raramente transmite a sensação de tempo e lugar deixam a experiência com um ar genérico. Há momentos em que os trajes parecem recém-saídos do figurino, sem a mínima preocupação em transmitir desgaste ou realismo. Isso, em um filme que se propõe a mergulhar em uma ambientação histórica, cria uma barreira entre o espectador e a imersão.
As cenas de combate reforçam essa fragilidade. Se Pasolini queria transmitir brutalidade e violência crua, como chegou a afirmar, o que se vê na tela são embates mal coreografados, que soam artificiais e até mesmo bregas. Em vez de fortalecer a tensão da narrativa, esses momentos a enfraquecem, destoando da proposta de um olhar mais humano e devastado da jornada de Odisseu.
Ainda assim, nem tudo se perde. A fotografia, filmada em locações reais na Itália e na Grécia, consegue resgatar em alguns instantes a atmosfera épica que falta ao restante da produção. A escolha por cenários naturais, por vezes áridos, ajuda a reforçar a ideia de um mundo esvaziado, refletindo o estado interno do protagonista. É nesse contraste entre a paisagem grandiosa e o homem destruído que o filme encontra momentos de verdadeira beleza.
E é impossível falar de O Retorno sem destacar Ralph Fiennes. O ator entrega muito mais do que o roteiro oferece. Seu Odisseu é um homem marcado pelo tempo, vulnerável, ao mesmo tempo duro e frágil, que carrega em cada olhar o peso do que viveu. Fiennes é, de longe, o maior trunfo do filme — e talvez a razão pela qual ele se sustente. Em meio a uma narrativa que nunca se desenvolve por completo, ele traz profundidade, dor e humanidade. É como se o ator conseguisse dar vida a um personagem que o texto não soube construir.
Juliette Binoche, mesmo com menos espaço, também acrescenta força à narrativa. Sua Penélope, embora envolta em momentos de melodrama, transmite firmeza e uma intensidade contida que complementa a performance de Fiennes. Juntos, os dois estabelecem uma química que garante ao filme pelo menos uma âncora emocional. O desfecho, ainda que previsível, ganha mais impacto justamente pela presença dos dois atores.
Em resumo, O Retorno é um filme que nasce de uma proposta ousada: olhar para a Odisseia de uma forma humana, íntima e marcada pelo trauma. A ideia é potente, mas a execução não acompanha sua ambição. O roteiro não consegue dar densidade suficiente ao trauma de Odisseu, o design de produção compromete a imersão e os momentos de ação caem na artificialidade. Ao mesmo tempo, a fotografia e, sobretudo, as atuações de Ralph Fiennes e Juliette Binoche impedem que o projeto se torne irrelevante.
Pasolini merece crédito pela tentativa de revisitar uma das obras mais adaptadas da história por um ângulo diferente, mas a ousadia fica mais no papel do que na prática. O Retorno não chega a ser uma das grandes adaptações da Odisseia, mas serve como registro de uma visão distinta — a de um Odisseu não como herói invencível, mas como homem quebrado, tentando encontrar seu lugar em meio às ruínas da própria vida.