Que saudade dos filmes desta época. A produção de arte, a direção, o roteiro original. Para esta crítica, divido em dois tempos.
Primeiro Tempo
Aqui, trago elogios, pois a direção lê e sente o roteiro, apesar de Adrian Lyne usar de seus próprios meios para alcançar os elementos realistas para os atores, principalmente para a Kim Basinger, diria que a duras penas, as quais repudio veementemente.
O fato é que Lyne conseguiu o que queria, passar a angústia e desejo das cenas, conforme a autobiografia escrita por Ingeborg Seiler. O que parecia ser uma história de paixão apimentada, se transforma em um complexo jogo de violência psicológica, mesmo que mostrado de forma sutil, como um bom filme faz. Elizabeth é uma personagem simples, sem muita profundidade e esperteza, mas ganha cores profundas ao longo da trama, trazendo uma sensação de afogamento lento, encontro após encontro. John Gray, um cara enigmático, conta com os olhos do Mickey Rourke, misterioso, profundo e sensual no talo. O resultado é uma trama envolvente, a qual você é levada junto com Elizabeth, pois toca em algo que o machismo sempre gosta de trabalhar, o dispositivo amoroso feminino. É nele que John constrói sua teia de poder e submissão, contando com a ingênua mente de Elizabeth.
No fim, os dois vão ao limite de Elizabeth, assim como o de Kim Bassinger, atormentada pelas técnicas nada politicamente corretas de direção aplicadas por Lyn, e Gray se vê também preso na teia que ele mesmo costurou, revelado em um final sem glamour ou clichê romântico.
Para a época, um escândalo. Para os dias de hoje - já acostumados com a temática com os 50 tons de cinza e outros mais escuros - um show de direção de arte, figurino e fotografia. Amo a singeleza da estética 80th e mais ainda quando tem a pegada futurista urbana.
Saí apaixonada pela crítica levantada, pelo olhar de Rourke, no auge de sua beleza e juventude, e pelos verdadeiros tons de cinza (desde o cenário até os figurinos) que ficaram gravados no inconsciente de quem viveu este surto chamado 9 Semanas e Meia de Amor.
Segundo Tempo
Lyne não me deixa ficar nostálgica de um jeito bom, somente. Da mesma forma que o personagem, assumiu a porção satânica de John e impôs terros a Kim Besinger, para trazer as emoções reais da personagem a tona. Acredito que por ser uma atriz ainda sem muitos recursos de atuação, foi escolhida por possuir características iguais aos de Elizabeth, segundo o diretor, "ela é do tipo de mulher que lê revistas e não livros." Segundo ele, essa falta de criticidade e intelectualidade a fazia mais ingênua e perfeita para o papel. Então temos cenas com espanto e pavor real, onde Lyn orientava somente Rourke para as cenas, a deixando vulnerável.
De fato, a atuação de Kim deixa a desejar, mas as cenas são salvas por Mickey Rourke.