Desde que foi reconhecido na Black List de 2020 como um dos roteiros não produzidos mais promissores de Hollywood, Entre Montanhas já carregava consigo altas expectativas. Quando a Apple decidiu bancar o projeto em 2022, trazendo Scott Derrickson para a direção, a produção ganhou ainda mais atenção. Derrickson, conhecido por sua habilidade em transitar entre terror e ação com filmes como A Entidade, O Telefone Preto e Doutor Estranho, parecia uma escolha certeira para conduzir uma trama que misturava romance, terror e ficção científica. A escalação de Miles Teller e Anya Taylor-Joy também foi um atrativo, aumentando o hype ao ponto de garantir um painel exclusivo na CCXP 2024. No entanto, apesar de um conceito intrigante e de uma estética bem trabalhada, o filme tropeça ao tentar equilibrar suas diversas ambições narrativas, resultando em uma experiência inconsistente.
Desde sua campanha de marketing, Entre Montanhas foi vendido como uma história de amor ambientada em um cenário de ficção científica com toques de terror. A ideia de Derrickson era clara: contar um romance envolvente dentro de um contexto repleto de mistério e tensão. No entanto, o relacionamento entre os protagonistas nunca convence por completo. O roteiro de Zach Dean adota uma abordagem fragmentada, entregando informações aos poucos ao longo da narrativa, o que poderia ser uma escolha interessante caso os personagens fossem suficientemente desenvolvidos. Mas esse não é o caso. A ausência de um aprofundamento nos protagonistas prejudica a conexão com o público, tornando suas decisões e motivações pouco impactantes. O filme tenta compensar essa lacuna com diálogos expositivos que explicam os antecedentes dos personagens de maneira abrupta, o que acaba quebrando o ritmo da história, especialmente no clímax.
O maior problema de Entre Montanhas reside justamente nessa indefinição de foco. O romance, que deveria ser o coração da trama, acaba sendo o aspecto mais frágil do filme. A falta de química entre Teller e Taylor-Joy contribui para que o relacionamento dos personagens pareça artificial, deslocado dentro da narrativa. Com isso, o elemento de ficção científica, que deveria servir como pano de fundo para fortalecer o drama humano, acaba se tornando o verdadeiro atrativo da produção. Quando o filme se dedica a explorar os mistérios do universo que construiu, ele se torna muito mais interessante. Mas essa mudança de perspectiva ocorre de maneira abrupta, criando uma sensação de desequilíbrio na experiência como um todo.
Apesar das falhas no roteiro e na construção dos personagens, Scott Derrickson mostra que ainda possui um domínio visual impressionante. O design das criaturas que habitam os desfiladeiros é um dos pontos altos do filme, evocando influências que remetem a The Last of Us e A Lenda do Cavaleiro Verde. Embora alguns efeitos visuais sejam perceptíveis e nem sempre orgânicos, o trabalho de ambientação é convincente e ajuda a criar um clima de tensão genuína. Quando Derrickson abandona a tentativa de desenvolver o romance e mergulha na ação e no suspense, Entre Montanhas encontra seu melhor ritmo. As sequências de embate e o desenrolar dos mistérios são instigantes, prendendo a atenção do espectador. Entretanto, a resolução dos conflitos decepciona por seguir caminhos fáceis e previsíveis, entregando respostas pouco satisfatórias para os enigmas da trama. O confronto final ocorre de maneira apressada, sem o peso emocional necessário, deixando a sensação de que faltou ambição na conclusão.
No fim das contas, Entre Montanhas é um filme de romance, mas que funciona melhor como ficção científica. Se a narrativa tivesse abraçado esse viés desde o início, talvez a experiência fosse mais envolvente. No entanto, ao insistir em um romance sem substância e personagens sem profundidade, o filme se perde na própria proposta. Os momentos de maior impacto estão concentrados na reta final, quando a ação e o suspense assumem o controle. O resultado é uma obra que, embora tenha boas ideias e um visual marcante, carece de coesão e conexão emocional. Entre Montanhas poderia ter sido uma experiência muito mais memorável caso tivesse feito escolhas narrativas mais coerentes. No entanto, da forma como foi construído, é um filme que desperta interesse, mas não deixa uma marca duradoura.