A Amazon Prime Video segue sua estratégia de investir pesado em produções originais de longa-metragem. Porém, em vez de consolidar grandes títulos que se destacam no catálogo, a plataforma parece tropeçar em uma repetição de filmes medianos, superficiais e facilmente esquecíveis. Jogo Sujo (Play Dirty), novo projeto do diretor Shane Black, infelizmente se encaixa exatamente nesse padrão: mais um lançamento que tenta impressionar pelo elenco e pelo peso do nome de quem o dirige, mas que não encontra força suficiente nem na trama, nem no estilo.
Shane Black é um nome que carrega uma certa expectativa. Mesmo com uma filmografia curta, o cineasta marcou os anos 2010 com dois trabalhos que chamaram atenção: Homem de Ferro 3 (2013), que dividiu o público, e principalmente Dois Caras Legais (2016), um dos filmes mais criativos e divertidos da década no gênero policial-comédia. Seu último trabalho havia sido O Predador (2018), uma tentativa fracassada de revitalizar a franquia. Desde então, Black esteve afastado da direção. A expectativa era que Jogo Sujo marcasse um retorno em grande estilo, mas o resultado mostra um cineasta preso entre o desejo de grandiosidade e um roteiro que não sustenta nada além do básico.
A história acompanha Parker (Mark Wahlberg), um ladrão profissional que aceita um assalto de grandes proporções. Ao lado de Grofield (LaKeith Stanfield), Zen (Rosa Salazar) e outros comparsas, Parker precisa enfrentar não apenas a máfia nova-iorquina, mas também um regime ditatorial em um país da América do Sul, em uma trama que mistura vingança, ação e intrigas criminosas. No papel, a proposta poderia soar atraente. Um golpe ousado, conflitos de poder, personagens carismáticos – todos os ingredientes de um bom thriller policial estão aqui. O problema é que nada se desenvolve além da superfície.
O roteiro assinado por Anthony Bagarozzi e Chuck Mondry é o grande calcanhar de Aquiles do projeto. Ele até estabelece uma base clara para que a história avance, mas se resume a uma sucessão de eventos repetitivos: o grupo se reúne, elabora um plano, enfrenta obstáculos previsíveis e segue para o próximo desafio. Não há progressão dramática, não há risco palpável, não há sequer a sensação de que os personagens estão em perigo real. Pior: os vilões – divididos entre a máfia de Nova York e uma ditadura sul-americana – não têm o menor desenvolvimento. São apenas rótulos para justificar perseguições e tiroteios, sem qualquer densidade.
Shane Black tenta imprimir sua marca, principalmente em diálogos rápidos e irônicos, além de algumas cenas de ação com pitadas de humor. Porém, esses momentos aparecem de forma esparsa, como relances de um estilo que já funcionou no passado, mas que aqui não encontra espaço para florescer. Em Dois Caras Legais, por exemplo, a química entre Russell Crowe e Ryan Gosling era o motor do filme. Em Jogo Sujo, não existe essa mesma conexão entre os protagonistas. Wahlberg, que deveria carregar a trama, entrega uma performance apática. Ele até mostra uma entrega pontual nas cenas de ação, mas nas passagens dramáticas parece deslocado, quase sem energia. Já LaKeith Stanfield e Rosa Salazar tentam segurar seus papéis com mais empenho, mas ficam limitados a personagens sem profundidade.
Esse desequilíbrio gera uma contradição incômoda: ao mesmo tempo em que o filme sugere grandiosidade – grandes golpes, mafiosos poderosos, regimes ditatoriais – sua execução é rasa, sem impacto. O espectador é convidado a acreditar que Parker e sua equipe estão envolvidos em algo monumental, mas tudo o que se vê na tela é um enredo genérico, sem urgência. As tramas paralelas, em vez de enriquecer, apenas se empilham sem se resolver. O resultado é um filme que tenta ser épico, mas soa pequeno, limitado.
Os problemas não param no roteiro e na direção. Visualmente, Jogo Sujo também decepciona. O CGI, usado em diversas cenas de ação, é mal acabado e denuncia claramente os cenários digitais. Em certos momentos, a artificialidade do fundo verde é tão evidente que compromete qualquer tentativa de imersão. É o tipo de problema que não apenas tira a força da ação, mas também faz o espectador questionar a qualidade do investimento da própria Amazon. Em vez de se parecer com uma superprodução de streaming, o filme por vezes lembra produções de baixo orçamento que mal chegam ao cinema.
E essa fragilidade visual se soma ao vazio narrativo. Quando uma trama não consegue se sustentar, a esperança é que ao menos a ação ofereça algum respiro, algum espetáculo que justifique a experiência. Mas em Jogo Sujo, nem isso acontece. As perseguições, explosões e tiroteios são previsíveis, muitas vezes mal coreografados, e não transmitem adrenalina. A sensação é de acompanhar personagens que se deslocam de ponto A a ponto B sem conexão, sem tensão, apenas para cumprir uma checklist de cenas obrigatórias de um filme de assalto.
É claro que há momentos em que Shane Black mostra lampejos do diretor que já foi. Alguns diálogos carregam humor, e algumas interações entre o trio central trazem breves faíscas de entretenimento. Mas essas pequenas vitórias se perdem diante de uma obra maior que não encontra identidade. E talvez essa seja a maior decepção: Jogo Sujo não é ruim apenas por ser genérico, mas por representar uma oportunidade desperdiçada de um cineasta que já mostrou capacidade de reinventar o gênero.
No fim das contas, Jogo Sujo é um filme que até pode entreter em passagens isoladas, mas que não deixa nada depois dos créditos. Esquecível, superficial e mal executado, ele se junta a uma lista cada vez maior de produções da Amazon que passam despercebidas. Shane Black, que um dia foi celebrado por equilibrar ação e humor com criatividade, aqui entrega um trabalho burocrático, que nem empolga, nem diverte, nem se sustenta. Para quem esperava um retorno marcante do diretor, a sensação é de frustração. Para o público em geral, apenas mais um título perdido no catálogo de streaming.