A Substância marca o retorno do body horror, um gênero quase esquecido que agora ressurge com força no mainstream. O filme é bom, cinematograficamente acima da média atual, e se destaca por não ceder à bunda-molice: é asqueroso e entrega um gore de qualidade. A diretora francesa — só podia ser europeia — bebe de várias fontes para compor sua obra, como Cisne Negro, O Iluminado, Possessão e, principalmente, os clássicos de David Cronenberg, que certamente curtiu demais este longa.
O início é hipercriativo. As duas introduções, primeiro da substância e depois da protagonista, são curtas e inteligentes. A cena inicial, estrelando o "produto", é brilhante e já dá o tom do que está por vir: uma direção centralizadora, muita luz artificial, planos abertos e uma trilha sonora que mescla eletrônica com música clássica criam a atmosfera de desconforto perfeita. Cenários e elenco de apoio caricatos reforçam a ideia de que estamos diante de uma ficção científica.
Demi Moore entrega uma atuação de primeira linha, especialmente no trabalho corporal, enquanto Margaret Qualley, interpretando o "outro lado" de sua personagem, mantém o nível alto. A agressividade do filme é um dos pontos mais marcantes: close-ups de injeções, feridas expostas, corpos em decomposição e pele caindo culminam em um ápice tragicômico que realça o lirismo grotesco da obra.
Embora não seja perturbador a ponto de traumatizar, o filme incomoda em algumas cenas. Ele é longo e repetitivo, dividido em quatro atos extensos que prolongam sua conclusão. Algumas sequências parecem ter sido adicionadas posteriormente, como ideias surgidas na pós-produção. Isso não chega a estragar a experiência, mas a torna mais cansativa do que o necessário.
Um dos grandes méritos do longa é seu lado crítico, abordando questões como etarismo, sexualização e renovação. A diretora explora essas temáticas através do horror, sem chatice de sem forçar diálogos ou cenas expositivas. Há um pouco disso, mas nada que prejudique o ritmo. A obra pode ser apreciada tanto como um filme de terror, que funciona muito bem, quanto como uma ficção científica que, apesar de às vezes parecer uma colcha de retalhos, se sustenta como uma expressão de arte grotesca.
Para os fãs de terror no estilo trash body horror dos anos 80, A Substância será um prato cheio. Nota: 8/10.