Estreando em janeiro de 2024 no Festival de Sundance, Love Me rapidamente chamou a atenção dos presentes. O longa foi descrito como “inventivo” e “inovador”, e não poderia ser diferente: além de uma proposta curiosa, o filme ainda trouxe como chamariz a presença de Kristen Stewart e Steven Yeun, dois nomes de peso em Hollywood. A dupla não apenas estrelou o projeto, como também o defendeu em entrevistas, ressaltando que o roteiro era algo único. E, de fato, ao olhar para a premissa, a sensação inicial é de frescor e ousadia dentro da ficção científica.
A trama se passa em um futuro longínquo, onde uma boia meteorológica ganha consciência e inicia contato com um satélite em órbita. O que nasce desse encontro é, surpreendentemente, uma relação que se desenvolve entre essas duas inteligências artificiais. A ideia é tão excêntrica que já serve de divisora de águas: ou o espectador aceita embarcar nessa experiência experimental, ou dificilmente encontrará motivação para dar o play. Afinal, não se trata de um filme convencional, mas de um exercício narrativo que claramente busca romper padrões.
E nesse aspecto é impossível não reconhecer a coragem dos diretores Sam e Andy Zuchero, que aqui estreiam em longas-metragens depois de experiências em curtas e comerciais. O problema é que ousadia, por si só, não basta para sustentar duas horas de filme. Quando se tem tantas ideias condensadas em uma única obra, o risco de sobrecarregar a narrativa é enorme. E Love Me infelizmente cai nessa armadilha: a proposta inicial, que poderia render um olhar sensível sobre humanidade, consciência e afeto, se perde em meio a experimentos excessivos e um ritmo arrastado.
A comparação com Wall-E ou até com episódios de Black Mirror surge naturalmente, já que o filme também procura examinar os costumes humanos sob o olhar de quem não pertence a esse mundo. A boia, em sua tentativa de “se tornar humana”, mergulha na internet em busca de referências e acaba encontrando uma influencer como modelo de comportamento. A partir daí, nasce a exploração das experiências mais triviais — o que é beijar, como funciona uma cócega, ou até o que significa beber água. Esses momentos, em tese, poderiam ser o coração da narrativa, já que revelam como a vida cotidiana, quando observada de fora, pode soar absurda e até engraçada.
Mas o que poderia ser poético e instigante acaba se tornando repetitivo. O filme opta por dividir sua narrativa em três estilos visuais diferentes: a realidade “pura”, com a boia e o satélite; uma realidade virtual representada em stop-motion com captura de movimento; e, apenas em momentos pontuais, a presença real dos atores. Essa multiplicidade, que tinha a intenção de enriquecer a experiência, gera o efeito contrário: o espectador é lançado de um estilo para outro, sem tempo de se conectar de fato com a história. O stop-motion, em especial, sofre com o chamado “vale da estranheza”, tornando difícil criar empatia com o que se vê na tela.
Esse excesso de camadas visuais denuncia o maior problema de Love Me: a ambição desmedida. Os diretores parecem querer abordar de tudo — crítica social, reflexão sobre inteligência artificial, análise do comportamento humano, exploração de sentimentos básicos —, mas não conseguem estruturar um fio narrativo consistente. O resultado é um filme que, apesar de ter muito a dizer, não consegue se expressar de maneira clara. O ritmo lento e a densidade da proposta fazem com que a experiência seja exaustiva, a ponto de exigir paciência extra do público para chegar até o fim.
Curiosamente, quando Stewart e Yeun finalmente aparecem em carne e osso, já perto do desfecho, o longa ganha força. De repente, existe vida, existe energia, existe conexão. Só que esse sopro dura pouco e não é suficiente para compensar o tédio acumulado durante a maior parte da projeção. A sensação é de frustração: tínhamos ali dois grandes intérpretes que poderiam ter carregado o filme com muito mais impacto, mas foram relegados a aparições quase simbólicas.
É importante reconhecer, no entanto, que a tentativa de discutir temas humanos através do olhar de máquinas não é desprezível. Há momentos em que o filme levanta reflexões interessantes sobre ego, vaidade, consumo, luxo e exposição nas redes sociais. Mas tudo isso aparece de forma fragmentada, diluído em piadas rápidas ou observações superficiais, sem nunca ganhar o aprofundamento necessário. O relacionamento entre as duas IAs, que deveria ser o centro emocional da trama, nunca chega a se consolidar. Falta densidade nos diálogos, falta tempo de tela dedicado a construir intimidade. Assim, o que era para ser uma história de amor cósmica se transforma em um exercício de paciência.
Se Love Me tivesse sido lançado há dez ou quinze anos, talvez fosse recebido como uma obra “cult” pela ousadia formal. Hoje, porém, em um cenário onde a ficção científica já explorou tantas vertentes, a proposta soa mais como um experimento que não encontrou seu equilíbrio. O que deveria ser um elogio à inventividade se torna, paradoxalmente, um exemplo de como a inovação sem clareza pode afastar mais do que atrair.
Em resumo, Love Me é corajoso, mas confunde coragem com clareza. O filme quer falar de humanidade, mas esquece de tornar sua história humana. Quer ser inventivo, mas se perde na própria invenção. Há boas ideias no caminho, sem dúvida, mas elas se diluem em um mar de excessos. Não é um desastre completo — existem produções recentes bem piores com orçamentos mais generosos —, mas dificilmente alguém vai sair da sessão entusiasmado. O que fica, no fim, é uma experiência cansativa, arrastada e que desperdiça tanto o talento de seus atores quanto a chance de realmente emocionar.
Love Me tinha tudo para ser um sopro de novidade, mas acaba sendo um dos filmes mais difíceis de assistir da temporada. É a prova de que ousadia é essencial no cinema, mas, sem equilíbrio, pode transformar a inovação em um fardo.