Oppenheimer - 2023
"Oppenheimer" é escrito e dirigido por Christopher Nolan, com uma colaboração na produção de Emma Thomas (produtora de "Tenet" - 2020) e Charles Roven (produtor de "The Flash" - 2023). A estrela principal do filme é vivido por Cillian Murphy como Julius Robert Oppenheimer, o físico teórico americano que é considerado como o "pai da bomba atômica" por sua participação no "Projeto Manhattan", sendo ele o cientista responsável por liderar o programa confidencial dos Estados Unidos cujo objetivo era desenvolver uma bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial. O longa-metragem é baseado na biografia "American Prometheus" de 2005, de Kai Bird e Martin J. Sherwin, onde narra a carreira de "Oppenheimer", com a história focando predominantemente em seus estudos, sua direção do "Projeto Manhattan" durante a Segunda Guerra Mundial e sua eventual queda em desgraça devido à sua audiência de segurança em 1954.
É impossível não considerar Christopher Nolan como um gênio do cinema moderno, e isso pode ser comprovado ao navegar em sua filmografia, que vem desde o final do anos 90 mas com um destaque maior a partir do início da década de 2000, onde ele se prova como o gênio da sétima arte que conhecemos hoje. Nolan tem trabalhos grandiosos, impecáveis, irretocáveis, grandes obras-primas que navega no drama, no sci-fi, nas adaptações de super-heróis e na guerra. Posso citar aqui obras como "Amnésia" (2000), a trilogia "Batman" (2005/2012), "O Grande Truque" (2006), "Interestelar" (2014), "Dunkirk" (2017) e a maior obra-prima de sua carreira que eu considero, "A Origem" (2010).
Nolan sempre foi a referência em criar roteiros complexos, ambíguos, intrigantes, pragmáticos, enigmáticos, audaciosos, que nos leva a enésima sensação do êxtase e sempre dá aquele famoso nó em nossas mentes. Eu sou um fã de carteirinha das obras do Nolan, e tenho "Interestelar" e "A Origem" como os seus dois filmes mais complexos e surpreendentes que eu assisti até hoje.
Quando eu ouvi os rumores que Christopher Nolan iria dirigir um filme relacionado a Segunda Guerra Mundial, eu fiquei bastante curioso e com uma grande expectativa, afinal de contas em toda a sua carreira ele ainda não tinha navegado nesse gênero cinematográfico. Estou falando exatamente de "Dunrkirk", que foi lançado em 2017 e que na minha opinião não está entre os melhores filmes do Nolan, mas não deixa de ser uma belíssima produção, ainda mais falando das qualidades técnicas da obra. Já em 2020, quando Nolan lançou o bagunçado "Tenet", tivemos um fato bastante curioso dentro do roteiro daquele filme; que foi toda a explicação e toda ligação para a criação do método de inverter o mundo, que foi nos passado como uma criação feita por uma Cientista no futuro, que paralelamente foi ligado com o curioso "Projeto Manhattan", que é exatamente o programa de pesquisa e desenvolvimento que produziu as primeiras bombas atômicas durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, lá em 2020 Nolan deixou no ar uma referência sobre o roteiro de seu próximo filme, aquele famoso "easter egg".
"Oppenheimer" traz um Nolan de volta a sua grande fase, ao seu grande auge, pois aqui estamos falando de um roteiro pautado em volta de uma grande personalidade histórica, um nome que até hoje causa bastante controvérsia e opiniões diferentes. Nolan mergulha em um filme biográfico com um tema que traz um grande impacto na história da Segunda Guerra Mundial, exatamente sobre o grande fardo que caiu nas costas de Robert Oppenheimer quando ele esteve à frente de um dos maiores projetos de extermínio da história da humanidade - estou me referindo exatamente sobre a bomba nuclear que foi lançada em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.
"Oppenheimer" é composto por várias vertentes, e isso que deixa o longa mais interessante, pois afinal de contas estamos falando de uma história real em que nós já conhecemos o seu final. Esse é um ponto extremamente importante para a narrativa de toda a história, ou seja a forma como o Nolan vai trabalhando todo o seu contexto, isso refletindo diretamente em um drama, uma biografia, uma história, que nos conduz por um caminho totalmente político, que nos mostra as suas variações de valores morais e éticos. E como estamos falando de Oppenheimer, fica ainda mais difícil falar de conceitos morais e éticos, pois a história nos mostra simplesmente a criação do "pai da bomba atômica", ou seja, como ele foi o responsável em dar a humanidade um meio de se autodestruir, um meio de exterminar vidas inocentes.
Nolan é muito hábil e inteligente, pois logo na abertura do filme temos uma alegoria com o mito de "Prometeus", que diz: "Prometeus" roubou o fogo dos deuses e deu aos homens." E é interessante notar que a história de Oppenheimer pode ser comparada com a de "Prometeus", pois o próprio Oppenheimer também desafia os limites das leis da natureza, quando ele cria uma forma de autodestruição, que sim, muitos diziam ser um poder unicamente dos deuses. E continuando na linha de "Prometeus", Oppenheimer também sofre o alto preço das suas consequências, por passar a viver uma guerra psicológica interna, uma forma de se torturar, por sentir o peso da sua invenção, por sentir a dor de ser o responsável pelo extermínio humano. O próprio Nolan revelou que Oppenheimer nunca se desculpou pelo o que ele causou a Hiroshima e Nagasaki.
Podemos considerar "Oppenheimer" como um longa que aborda uma personalidade histórica inserida em um profundo drama que soa desconfortável, desgastante, doloroso, que nos mostra que a mente humana não tem limites, que nos faz refletir sobre como o ser humano sempre está propício a falhas, a erros, e que muito desses erros é considerado como grandes vitórias para uns enquanto é uma dolorosa realidade para outros. Realmente "Oppenheimer" é uma experiência que por pode ser boa pelo lado do conhecimento histórico de um acontecimento na Segunda Guerra Mundial, mas ao mesmo tempo é uma experiência totalmente trágica e desconfortante pelos acontecimentos que acometeu toda esse fato histórico.
"Oppenheimer" é um filme longo, de 3h 01min, que se divide em duas partes: a primeira parte envolve toda a parte política do "Projeto Manhattan", junto com suas projeções, liberações e aceitações por parte governamental. Até aquele perfil "mulherengo" de Robert Oppenheimer está em um estado mais aflorado. Já na segunda parte: é onde temos o primeiro teste com a bomba, o filme muda de tom, muda de ritmo, deixa de lado aquele lado político e imperialista para mergulhar nos resultados do teste e afirmar tudo que o Oppenheimer programava com suas ideias e seus desejos. E aqui temos uma cena que por si só já se torna emblemática, que é a cena em que o Oppenheimer diz: "agora eu me tornei a morte. O destruidor de mundos." Logo após a explosão da bomba Oppenheimer é completamente ovacionado por todos, praticamente um ato de heroísmo, um reconhecimento de tudo que ele projetou e trabalhou. Até aquele momento o próprio Oppenheimer ainda não tinha sentido a proporção de tudo que ele havia causado. Ele ainda não tinha a dimensão de tudo que estava por vir, de carregar o título e o fardo de "pai da bomba atômica".
Robert Oppenheimer era um homem que preservava a sua ideologia, as suas crenças, as suas visões do mundo. Logo observamos que mesmo com a queda da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e com a morte de Hitler, os americanos junto com o próprio Oppenheimer queriam construir a bomba já com a intenção de atacar o Japão com ela. O próprio Oppenheimer afirma em seu discurso que o mundo nunca esquecerá daquele dia, e que a sua vontade era ter jogado a bomba na Alemanha. Logo após o discurso de Oppenheimer é que ele, assim como nós, vemos até onde vai a ambição do ser humano, a sua ganancia pelo poder, as duras consequências que a bomba nuclear trouxe para as pessoas, o que ela causa em contato com a célula humana. É bizarro na cena em que o Oppenheimer vai receber as considerações do Presidente americano, que logo diz que ele é o "pai da bomba atômica" e como é se sentir o homem mais famoso do mundo. É bizarro e doentio a forma como o Presidente comemora o lançamento da bomba em Hiroshima e Nagasaki, para que assim os americanos pudessem voltar para casa.
É nítido observar que Oppenheimer estava se sentindo culpado pelo ataque aos japoneses, tanto que durante essa conversa com o Presidente ele afirma que sente sangue em suas mãos, no momento que o Presidente oferece para ele um lenço para que ele pudesse limpar suas mãos (como uma forma simbólica), já que segundo o Presidente, ninguém dá a mínima para quem construiu a bomba mas sim que a lançou. O Presidente ainda diz: "não deixe mais esse bebê chorão voltar aqui." Esta cena é um dos maiores acontecimentos do filme.
O elenco de "Oppenheimer" é primoroso e genial!
Cillian Murphy (o astro de "Peaky Blinders") está no papel da sua vida. Ouso a dizer que Robert Oppenheimer já é considerado o seu melhor personagem da carreira e a sua melhor atuação. É realmente impressionante como Cillian Murphy estudou o personagem, entendeu o personagem, pegou todas as referências do personagem, conseguindo assim construir uma intepretação autêntica e visceral. Assistindo ao filme você consegue pegar todas as fases e todos os ritmos da atuação de Cillian Murphy, que vai desde a sua ambição e desejo pela construção do seu projeto, passando pelos seus relacionamentos amorosos conturbados e chegando até o seu estado psicologicamente degradante. Uma atuação genial de Cillian Murphy.
Robert Downey Jr. (eterno Tony Stark) me deixou completamente embasbacado com o nível da sua atuação no personagem Lewis Strauss. Strauss era o oficial da Marinha aposentado e membro de alto escalão da Comissão de Energia Atômica dos EUA. Strauss pode ser considerado como o grande rival de Oppenheimer, aquele que lutou para expor o físico como um espião comunista. Atuação magnífica de Robert Downey Jr., completamente irreconhecível, diga-se de passagem.
Matt Damon (recentemente esteve em "AIR: A História Por Trás do Logo") viveu Leslie Groves, oficial do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e diretor do Projeto Manhattan. Outro que também esteve excelente no personagem, e dividiu ótimas cenas de disputas de ideias com Oppenheimer.
Emily Blunt ("Um Lugar Silencioso") viveu Katherine "Kitty" Oppenheimer, esposa de Robert Oppenheimer e ex-membro do Partido Comunista dos EUA. Acredito que as participações femininas do filme do Nolan não teve assim um grande destaque, ou um destaque mais notável, ficando apenas como personagens limitadas e pouco exploradas. O mesmo vale para Florence Pugh ("Viúva Negra"), que viveu Jean Tatlock, psiquiatra, membro do Partido Comunista dos EUA e interesse romântico de Robert Oppenheimer.
O longa-metragem ainda contou com ótimas participações do elenco de apoio.
Tivemos Casey Affleck (campeão do Oscar por "Manchester à Beira-Mar") como Boris Pash, oficial de inteligência militar do Exército dos EUA e comandante da Missão Alsos.
Rami Malek (campeão do Oscar por "Bohemian Rhapsody") como David L. Hill, um físico nuclear do Met Lab, que ajudou a criar a Pilha de Chicago.
Kenneth Branagh (diretor de "Morte no Nilo") como Niels Bohr, físico, filósofo ganhador do Nobel e ídolo pessoal de Oppenheimer.
Jason Clarke ("Guerra Oculta") como Roger Robb, advogado e futuro juiz de circuito dos EUA que atuou como conselheiro especial da AEC (Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos).
E o destaque maior do elenco de apoio é sem dúvida o Gary Oldman ("Mank") como Harry S. Truman, o 33º presidente dos Estados Unidos que tomou a decisão de lançar as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Aquela cena em que ele recebe em seu gabinete o Robert Oppenheimer é uma cena absurda, uma atuação magnífica, do próprio nível do Gary Oldman.
Outra marca dos filmes do Nolan estão justamente em suas qualidades técnicas, e aqui não é diferente. Nolan Sempre consegue tirar o máximo de potencial de seu elenco, algo como ter o elenco em suas mãos. Em "Oppenheimer" isso fica muito claro, pois cada personagem está em sintonia em cena. A direção de Nolan é mais uma vez impecável e muito eficaz, alcançando aqueles seus famosos takes em anglos que sempre nos surpreende. Muito dos takes do Nolan em "Oppenheimer" me lembrou dos seus takes em "Interestelar". Vale lembrar que pela primeira vez, foi utilizado filtro preto e branco em uma câmera IMAX. A Kodak criou uma versão exclusiva de filmes para gravar algumas cenas do longa.
A trilha sonora de Ludwig Göransson (compositor de "Pantera Negra" que já trabalhou com Nolan em "Tenet") é muito bem destacada no filme, pois ela sempre consegue nos dar a dimensão dos acontecimentos em que o Oppenheimer está passando naquele momento de sua vida. Já a fotografia é outro casamento perfeito em cena, que assim como a trilha sonora, também consegue ditar o ritmo exato do efeito Oppenheimer no filme. A direção de arte é a nível de Oscar, sem nenhum exagero, pois aqui vemos um trabalho muito bem ajustado em cada detalhe de cena. Sem falar que o longa ainda conta com uma qualidade absurda na montagem, na mixagem e na edição. Realmente o Nolan nunca economizou nas qualidades técnicas dos seus filmes.
"Oppenheimer" arrecadou mais de US$ 954 milhões em todo o mundo, tornando-se o terceiro filme de maior bilheteria de 2023, o filme relacionado à Segunda Guerra Mundial de maior bilheteria, o filme biográfico de maior bilheteria e o segundo filme censurado de maior bilheteria. Recebeu indicações para oito Globos de Ouro, e foi eleito um dos dez melhores filmes de 2023 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute. O longa-metragem é o quarto filme de Nolan a receber classificação R nos Estados Unidos, precedido por "Following", "Amnésia" e "Insônia".
"Oppenheimer" foi extremamente aclamado pela crítica sendo considerado como um dos melhores filmes de 2023. No Rotten Tomatoes, "Oppenheimer" tem um índice de aprovação de 93% baseado em 458 resenhas, com uma nota média de 8,6 de 10. Já no Metacritic, que dá uma média ponderada, o filme tem uma nota de 88 de 100, baseado em 69 críticas. A recepção da audiência, segundo o CinemaScore foi muito positiva, dando uma nota "A" (numa escala de A+ a F), enquanto o PostTrak deu um índice de aprovação pelo público de 93%.
Por fim, temos aqui um Christopher Nolan de volta ao seu auge, de volta aos seus tempos áureos, que novamente soube nos entregar uma obra extremamente contundente, visceral, importante, cativante, inteligente, gloriosa, eficaz, que mescla com perfeição um drama biográfico histórico com um grande estudo de personagem, onde enfatiza principalmente o poder destrutivo da ambição humana pelo poder.
Sem nenhuma dúvida Nolan conseguiu atingir o seu principal objetivo, que era dar ao seu público a dimensão e a proporção da história e principalmente do legado deixado por Robert Oppenheimer, que vai desde o rótulo de "pai da bomba atômica", que pode ser algo grandioso e importante, como também um dos principais causadores do extermínio de vidas inocentes de Hiroshima e Nagasaki.
No fim, cada um que assistir "Oppenheimer" poderá tirar as suas próprias conclusões sobre a personalidade de Robert Oppenheimer e tudo que ele causou na história da humanidade. Acredito que este é o maior trunfo do filme, o poder da controvérsia.
Encerro afirmando que "Oppenheimer" é o melhor filme do Nolan desde "Interestelar"!
[30/12/2023]