Em um mercado saturado de animações que buscam repetir fórmulas já consagradas, Guerreiras do K-Pop surgiu como uma das maiores surpresas do ano. O longa não apenas conquistou números impressionantes na Netflix — ultrapassando títulos badalados como Alerta Vermelho e Projeto Adam — como também se consolidou como o filme original mais assistido da plataforma até hoje. Mas o fenômeno vai além da estatística: a produção dirigida por Chris Appelhans e Maggie Kang consegue unir técnica, carisma e identidade cultural em um espetáculo que dialoga com o público de diferentes formas, seja pelo entretenimento vibrante, seja pelo mergulho na cultura pop sul-coreana. A primeira grande força do filme está justamente em sua animação. Desde Homem-Aranha no Aranhaverso, tornou-se inevitável a comparação com qualquer obra que experimente hibridizações visuais entre 2D e 3D. Algumas produções caíram na armadilha da mera cópia; outras, como Guerreiras do K-Pop, buscaram transformar essa influência em algo com personalidade própria. Aqui, o visual não se limita ao impacto estético: cada cena utiliza cores saturadas, explosões de neon e movimentos fluidos que não só impressionam, como também dialogam diretamente com o universo do K-Pop, um gênero musical reconhecido por sua energia, plasticidade e intensidade visual. O resultado é uma obra que mistura espetáculo gráfico com assinatura cultural, transmitindo frescor até para quem não tem qualquer familiaridade com esse universo. O grande trunfo é que essa estética não se perde em excesso. A direção não se contenta em encher a tela de cores e brilhos; há uma lógica narrativa por trás da escolha de tons e estilos. Sequências de batalhas são intensificadas pelo neon, expressões caricatas evocam referências de animes e ilustrações tradicionais reforçam a identidade oriental que atravessa toda a obra. Essa mescla de influências constrói uma linguagem própria, capaz de se comunicar com públicos distintos e, principalmente, de se destacar em um cenário competitivo. É legítimo afirmar que estamos diante de um dos trabalhos visuais mais bem-acabados do ano. Mas o filme não se sustenta apenas pelo que se vê. O que surpreende é o modo como a música se torna parte essencial da narrativa. Em muitos musicais, as canções surgem como interrupções: momentos artificiais que, embora cativantes, pouco acrescentam à trama. Guerreiras do K-Pop subverte essa lógica. A trilha sonora — composta exclusivamente por três integrantes do grupo TWICE — não é mero adorno, mas a espinha dorsal da história. As músicas não só marcam ritmo e emoção, como se transformam em ferramentas narrativas, diálogos e até armas dentro da mitologia criada para o longa. A música aqui é literalmente protagonista. E é exatamente esse aspecto que torna o filme tão acessível. Mesmo quem torce o nariz para musicais ou não tem contato com o K-Pop consegue encontrar sentido nas canções, já que elas não estão ali como espetáculo isolado, mas como motor que faz a história avançar. O próprio conceito de “carta de amor ao K-Pop”, citado pela diretora Maggie Kang em entrevistas, ganha vida na tela: não é apenas homenagem, mas celebração orgânica de um fenômeno cultural. O espectador pode até sair da sessão cantarolando, mesmo sem ser fã do gênero. Claro que a estrutura narrativa não é perfeita. O roteiro de Danya Jimenez e Hannah McMechan acerta em criar uma mitologia envolvente, mas acaba tropeçando na distribuição do enredo. O primeiro ato despeja uma avalanche de informações, estabelecendo universo, regras e personagens em ritmo acelerado. Funciona para prender a atenção, mas deixa pouco espaço para aprofundar conflitos. Já o segundo ato, ao tentar abrir novas tramas paralelas, introduz subplots que não recebem o desenvolvimento necessário. Quando chega ao clímax, o filme sofre com a pressa: o embate final com os antagonistas parece atropelado, quando claramente havia material para estender a experiência em mais 20 ou 30 minutos. Essa sensação de aceleração acaba refletindo também nas personagens. Rumi, Mira e Zoey são apresentadas como um trio coeso, mas apenas uma delas se consolida como protagonista central, recebendo maior espaço dramático. As demais, por vezes, acabam relegadas ao papel de apoio emocional ou de alívio cômico. A química do grupo é inegável, mas a falta de equilíbrio no desenvolvimento narrativo gera uma pequena frustração, já que havia potencial para explorar cada uma delas de forma mais rica. Ainda assim, esses deslizes não diminuem o impacto do filme. Pelo contrário, apenas reforçam o quanto ele consegue se sustentar mesmo quando não atinge todo o seu potencial. Guerreiras do K-Pop é um exemplo de obra que sabe usar suas virtudes — visual vibrante, identidade cultural marcante e uso criativo da música — para envolver o público e fazer esquecer as imperfeições. É entretenimento puro, mas também é uma porta de entrada para um universo que muitos ainda desconhecem. Mais do que um sucesso de audiência, o filme é um marco simbólico. Mostra que animações musicais ainda podem conquistar multidões, mesmo em tempos em que há resistência a esse formato. Mostra também que o K-Pop, fenômeno que já ultrapassou fronteiras geográficas e linguísticas, ainda tem espaço para novas formas de representação cultural. Ao unir esses elementos em um pacote divertido e cativante, Guerreiras do K-Pop não só se justifica como fenômeno da Netflix, como também abre caminho para produções que ousam misturar música, cultura e espetáculo visual sem medo de parecer diferentes. Em resumo, Guerreiras do K-Pop é uma das grandes surpresas do ano. Uma animação que conquista pela ousadia estética, pela energia contagiante da música e pelo respeito com que trata a cultura que representa. Não é perfeita, mas é inesquecível. Um daqueles filmes que provam que entretenimento e autenticidade não precisam estar em lados opostos.