O Sobrevivente chega aos cinemas carregando um tipo raro de expectativa: a de um remake que o público realmente queria ver acontecer. A combinação de uma obra de Stephen King, um filme oitentista limitado por sua tecnologia da época e um diretor como Edgar Wright parecia perfeita para trazer frescor a essa história. Some a isso Glen Powell, atualmente um dos atores mais carismáticos de Hollywood, e tudo indicava um projeto pronto para entregar o melhor dos dois mundos: energia autoral e uma nova camada de relevância social. É por isso que o resultado final soa tão ambíguo. O filme está longe de ser uma decepção completa, mas também fica bem distante do potencial que carregava.
Edgar Wright ainda consegue imprimir parte de sua assinatura, e isso sustenta boa parte do ritmo da produção. Seu estilo vibrante, acelerado e cheio de ironia se encaixa naturalmente na proposta de transformar o jogo mortal dos anos 80 em algo mais amplo, mais caótico e com cara de reality show contemporâneo. Ao invés da estrutura de “fases” do filme original, Wright opta por um formato de road movie, acompanhando Ben Richards pelas ruas de uma cidade que mistura decadência urbana e elementos quase cyberpunk. Essa mudança funciona porque amplia a sensação de um país colapsado, onde cada esquina pode ser tanto um risco quanto um espetáculo comprado pelo público.
O problema é que, mesmo com boas ideias, Wright parece trabalhar aqui com o freio puxado. Seu estilo está presente, mas nunca explode de fato. Em vez de abraçar a liberdade criativa que uma nova adaptação permitiria, ele entrega algo mais comedido, quase como se estivesse preocupado em não se afastar demais do filme antigo, justamente o contrário do que este remake precisava. Há um conflito claro entre a vontade de modernizar a obra e o medo de parecer ousado demais, e esse embate enfraquece a identidade do filme.
Essa contenção aparece principalmente no roteiro. Logo no início, a trama apresenta Ben, sua família e sua motivação: salvar a filha doente e tirá-los da pobreza. Tudo isso é mostrado com rapidez, mas não com profundidade. A urgência do protagonista existe, mas não é construída emocionalmente; ela apenas é declarada e logo substituída pela correria do programa televisivo. O filme se apressa para chegar ao jogo, mas não dá tempo para que o público sinta o peso daquela escolha. Isso cria uma contradição narrativa: a história cobra empatia, porém não oferece base suficiente para que ela aconteça.
Ao longo do caminho, o roteiro apresenta novos personagens e núcleos que surgem e desaparecem sem acrescentar muito ao desenvolvimento de Ben ou ao mundo ao redor. Essas entradas e saídas constantes quebram o ritmo que deveria ser justamente o motor do filme. Em um projeto de Edgar Wright, onde o tempo e o movimento são peças fundamentais, esse vai-e-vem vira um obstáculo e não um recurso. É uma trama que quer parecer grande, mas que não utiliza sua expansão para enriquecer o protagonista ou as tensões do jogo.
Outra ideia promissora, mas mal explorada, é o período de 30 dias que Ben precisa sobreviver. A premissa cria um universo cheio de possibilidades: esconderijos, alianças, conflitos urbanos, diferentes tipos de caçada. No entanto, o filme menciona o cronômetro e o contador no pulso do protagonista apenas como elementos visuais, sem que o passar do tempo influencie a narrativa de forma real. A história até começa como um jogo, mas, sem aviso, se transforma em uma rebelião contra a Rede e esse salto, embora interessante, parece pouco preparado. O roteiro sugere regras, metas e obrigações que deveriam moldar o comportamento de Ben, mas abandona essas ideias antes que elas ganhem relevância.
As críticas sociais também sofrem com essa falta de aprofundamento. O filme mostra obsessão por audiência, exploração da miséria e violência transformada em entretenimento, mas raramente desenvolve essas discussões. A cidade é cheia de elementos visuais que reforçam o caos político e econômico dos Estados Unidos de 2025, porém essas referências servem mais como ambientação do que como reflexão. O espectador entende que há temas importantes ali, mas sente que nada é levado até o fim. Wright tenta apontar problemas reais, mas para no rascunho e isso torna a crítica menos impactante do que poderia ser.
Ainda assim, é impossível ignorar o grande trunfo do filme: Glen Powell. Ele é o motor emocional e energético da experiência. O ator entrega um desempenho cheio de raiva, desespero e humor, equilibrando exagero e carisma de um jeito que somente ele conseguiria. Mesmo quando o roteiro não ajuda, Powell encontra maneiras de tornar cenas medianas em momentos mais vivos. Ele domina tanto as sequências de ação, baseadas principalmente em fuga e improviso, quanto os instantes de comicidade, que surgem naturalmente dentro do caos. Quando Wright e Powell estão em sintonia, o filme brilha e é nessas cenas que o público lembra por que havia tanta expectativa.
No fim, O Sobrevivente é melhor do que o filme de 1987, especialmente por sua premissa atualizada e seu elenco afiado. Possui boas cenas, efeitos competentes e ideias que, isoladas, funcionam muito bem. O problema é o conjunto. A obra parece sempre à beira de se tornar algo maior, algo mais ousado, mas nunca assume esse passo. É um filme que acerta no estilo, mas derrapa no desenvolvimento; que apresenta temas fortes, mas os trata apenas na superfície; que tem criatividade disponível, mas a utiliza pela metade. O resultado é um remake que cumpre sua função básica, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido o grande filme que prometia ser.