Órfã 2: A Origem (Orphan: First Kill) - TEM SPOILERS -
"Órfã 2" é dirigido por William Brent Bell (do péssimo "Filha do Mal", de 2012), foi escrito por David Coggeshall (roteirista do bom "Evocando Espíritos 2", de 2013), baseado em uma história de David Leslie Johnson-McGoldrick (autor de "Invocação do Mal 3", de 2021) e Alex Mace (que escreveu o roteiro e a história do primeiro filme). O longa serve como uma prequela do filme de 2009 - "A Órfã".
Depois de planejar uma fuga de um hospital psiquiátrico na Estónia, Esther (Isabelle Fuhrman) viaja até os EUA passando-se pela filha desaparecida de uma família milionária. No entanto, após uma inesperada reviravolta, a mãe começa a desconfiar da criança e faz de tudo para proteger a sua família.
Temos aqui mais um caso de uma continuação (ou prequência) completamente desnecessária. Quando ouvi os rumores que estavam produzindo uma continuação do filme de 2009, o primeiro pensamento que veio em minha cabeça foi - qual a necessidade? Qual a finalidade? Obviamente o motivo é sempre o mesmo, lucrar em cima de um filme que ficou eternizado lá atrás, utilizando a força do seu nome, o amor dos fãs e a volta de Isabelle Fuhrman no papel que a consagrou. "A Órfã" é simplesmente um dos melhores filmes de terror/suspense da década de 2000, e conta um Plot twist excelente e inédito. Particularmente eu estava satisfeito com o que foi entregue no primeiro filme, teve um fechamento perfeito da história, que o deixou completamente imortalizado. Dessa forma eu não vejo a menor necessidade em nos trazer uma história que aconteceu antes do primeiro filme, até porque nem tudo na vida necessariamente precisa de uma explicação detalhada, ainda mais quando estamos nos referindo à um filme que já foi estabelecido em seu universo.
Parece uma regra, você lança um filme que dá certo e faz um enorme sucesso, e depois de alguns anos você decide lançar um segundo que contará a origem do primeiro. Realmente nos últimos anos Hollywood tem optado pelas prequelas e não por histórias originais e inéditas (está faltando ambição e inteligência por lá), ou seja, vamos continuar no campo do famoso "ambientado antes dos eventos de". Temos vários casos que nem sempre uma pré-sequência deu certo: como o exemplo do excelente "Um Lugar Silencioso" (2018) e sua continuação mediana "Um Lugar Silencioso - Parte II" (2020).
Um dos objetivos de "Órfã 2" como uma prequela era cobrir um buraco no enredo do primeiro filme, que era exatamente como Esther foi da Estônia para um orfanato americano sem ter sido deixada por ninguém, ou seja, mesmo com toda papelada forjada, Esther não poderia simplesmente aparecer com ela do nada. Até acho uma premissa válida, mas que não clamava por urgência, onde necessariamente precisamos cobrir este buraco deixado no enredo do primeiro filme. Se fosse tão urgente assim, porque esperaram 13 anos para cobrir o tal buraco nos entregando uma produção tardia e subaproveitada?
Se no primeiro filme tínhamos algumas partes inverossímeis, onde tínhamos que aplicar uma certa suspensão de descrença, nesse aqui você tem que desligar o cérebro e aplicar a famosa suspensão de descrença em 100% do filme. Tudo bem que estamos falando de uma produção fictícia, que necessariamente não podemos exigir uma coerência em tudo, mas o problema está justamente nesse ponto, quando temos o primeiro filme inspirado em uma história real, que ainda estava no terreno do aceitável.
"Órfã 2" é uma produção catastrófica, com um roteiro subaproveitado, histórias pífias e situações inverossímeis que beiram o ridículo. Partindo da premissa do subtítulo - 'A Origem' em português, ou 'First Kill' (primeira morte) no original, poderíamos imaginar que o roteiro fosse contar uma história de origem da Esther, algo como sua frustração em ter aquela doença rara e não ter crescido, e como isso a levou a se tornar uma psicopata. Porém, o subtítulo é usado apenas para chamar atenção do espectador, porque de fato o roteiro não narra as suas origens, pois já iniciamos o filme com Esther/Leena com 30 anos e já detida em um manicômio, ou seja, não temos as suas origens e não temos a sua primeira morte - bola fora.
Outro ponto: o roteiro quer nos vender a qualquer custo que Leena Klammer aparenta ser uma doce menina inocente a primeira vista, mas o fato de estar internada em uma clínica psiquiátrica a intitula como a paciente mais perigosa do local. Uma forma ridícula que encontraram de nos vender a ameaça e o perigo que está em volta de Leena, o que soou com uma artificialidade absurda. Outro furo: Leena não é a paciente mais perigosa do local, uma vez que no local existem pacientes extremamente mais perigosa que ela, como é o caso paciente que tem o gatilho dos doces. Leena pode até ser considerada a mais maquiavélica, a mais ardilosa e a mais inteligente daquele local.
O diretor e os roteiristas pouco se preocuparam com o tanto de situações ridículas e inverossímeis que o filme nos passa, realmente nos obrigando a aceitar tudo que eles quisessem nos enfiar goela abaixo. Vamos desligar o nosso cérebro, ativar o modo suspensão de descrença e mergulhar de cabeça no tanto de imbecilidade que o roteiro nos entrega - e vamos lá!
A cena inicial com Leena fugindo do manicômio é extremamente ridícula, ela encontra uma facilidade tão absurda que seria mais difícil fugir de uma tartaruga. A forma como Leena consegue encontrar uma criança americana desaparecida na internet (que se parece com ela), consegue despistar a polícia e ir para os EUA, é vexatória de horrível. A família americana aceitando a Leena como sua filha desaparecida é extremamente superficial, e digo mais - eles desconheciam a existência do exame de DNA.
Um dos principais pontos de discursão está em torno da atriz Isabelle Fuhrman, que antes tinha 12 ano e interpretava uma criança com 9, agora tem 23 (pois o filme foi filmado em 2020) e interpreta uma criança com 7, ainda mais nova que no primeiro filme. De fato a Isabelle é digitalmente rejuvenescida para fazê-la parecer semelhante a como ela faz no filme original. Utilizaram de bastante maquiagem, alguns truques de filmagens, como o fato das cenas de costas ser utilizado o uso de um dublê de corpo. Alguns atores do elenco que eram da mesma altura que Isabelle enquanto estavam em cena tiveram que usar sapatos altos de plataforma ao lado dela para fazê-la parecer mais baixa. Acho até válido toda essa tentativa em querer força a atriz a se parecer com uma criança utilizando apenas truques e maquiagem, e sem utilizar efeitos digitais extremamente caros. Mas por outro lado não me convenceu, não achei plausível, não achei aceitável, tudo não passou de uma tentativa em vão, agindo como uma perspectiva forçada e totalmente falha. Típico caso da continuação tardia. Se queriam desenvolver uma prequela porque não fizeram com a atriz mais nova, e não esperar 13 anos, onde fatalmente a atriz estaria mais velha.
Isabelle Fuhrman é a única atriz do elenco do filme original a retornar nessa prequela. Isabelle é a única que se salva do elenco, pois mesmo com todas as dificuldades e todos os incômodos causados pelo fato de ser obrigada a se parecer muito mais jovem, ela entrega o que sabe fazer de melhor na pele da icônica Esther. Seus trejeitos, suas expressões, seu comportamento, sua interpretação, seu sadismo, tudo condiz com sua personagem imortalizada lá em 2009 - apesar que lá ela estava ainda melhor.
O restante do elenco é deplorável, é superficial, é genérico. Como é o caso da Julia Stiles ("O Lado Bom da Vida", de 2012) que deu vida a Tricia Albright. A princípio ela tem um papel de mãe de uma filha teoricamente desconhecida até aceitável, mas depois ela se transforma em uma personagem fútil, rasa, muito canastrona, muito caricata, que exibe o tempo todo o seu ar de perigosa e letal - achei uma interpretação péssima. O resto do elenco de apoio não vale nem a pena citar, de tão ruins que são.
O roteiro até tenta estabelecer um Plot twist inovador e surpreendente, para nos impactar com a mesma proporção do excelente Plot do filme de 2009. Porém, pra mim ficou apenas na tentativa mesmo, pois o Plot que temos aqui é mediano e não convence no nível que foi esperado. No longa de 2009 tínhamos uma violência explícita muito bem pontuada nos momentos mais oportunos da trama, o que soava como uma necessidade do roteiro. Aqui temos violência gráfica, cenas sangrentas e gore, porém, me soou como uma tentativa desesperada do roteiro em tentar nos impactar pelas cenas sem pudor, algo como uma cortina de fumaça para mascarar toda falta de preparo e de inteligência.
O diretor William Brent Bell, recentemente revelou ao podcast Bloody Disgusting The Boo Crew a probabilidade de ter um terceiro filme, comentando que só produzirá a sequência para a trilogia se Isabelle Fuhrman quiser e se houver um roteiro muito legal. O que definitivamente torço fervorosamente para que não aconteça, ainda mais se tratando de um roteiro legal, sendo que nem aqui tivemos um roteiro decente, imagina em um terceiro filme. Nesse caso eu realmente espero que a Isabelle Fuhrman desista do projeto enquanto ainda há tempo, pois aqui definitivamente "menos é mais".
"Órfã 2" é um filme falho, deprimente, vexatório, uma pré-sequência infundada, desorganizada, inverossímil e completamente desnecessária. Para quem assistiu só o primeiro filme e esteja cogitando a ideia de assistir este, eu sinceramente não recomendo, pois não agregará em nada na ótima história que você já conhece, na verdade manchará tudo que você tem guardado do belíssimo filme de 2009.
"A Órfã" é um filme simplesmente memorável, icônico e inesquecível, já esse aqui é uma perda de tempo completamente passável e totalmente esquecível. [24/09/2022]