Com um elenco de peso e um diretor que já provou ter pulso firme para comandar a ação, Chefes de Estado prometia ser um dos destaques do ano no streaming. John Cena e Idris Elba, dois nomes com carisma de sobra e presença consolidada em filmes de ação e comédia, lideram o projeto que tem direção de Ilya Naishuller, responsável pelo surpreendente e elogiado Anônimo (2021). No papel, tudo indicava que seria um entretenimento certeiro — explosivo, divertido e cheio de ritmo. Mas a promessa acaba ficando no meio do caminho. O filme até tenta equilibrar ação, comédia e sátira política, mas tropeça em sua própria ambição e entrega um produto genérico, que luta para manter a atenção do público por suas quase duas horas de duração.
O que se percebe logo nos primeiros minutos é que Naishuller tenta fazer demais com um material que talvez pedisse menos pretensão e mais foco. A proposta de misturar espionagem, política internacional, ação desenfreada e humor escrachado não é nova, mas exige um roteiro afiado e personagens bem conduzidos. E é justamente aí que Chefes de Estado fraqueja. A sátira política que o filme tenta fazer com entidades como a OTAN, as alianças entre nações e os bastidores do poder até poderia render ótimos momentos, ainda mais com a liberdade criativa que a comédia permite. No entanto, tudo é tratado de forma superficial, como pano de fundo para cenas que dependem de explosões e piadas fáceis. O potencial para algo realmente ácido e inteligente está lá, mas nunca é desenvolvido com o devido cuidado.
A comédia, que deveria vir como respiro entre as sequências de ação, também não encontra firmeza. Apesar dos esforços de Cena e Elba — que têm uma química curiosa e sabem trabalhar bem o humor físico e o timing cômico —, o texto peca por piadas que muitas vezes soam extremamente localizadas. Muitas das referências e ganchos humorísticos fazem sentido quase exclusivamente dentro de contextos culturais britânicos ou norte-americanos. Isso faz com que uma parcela significativa do público global fique alheia ao que deveria ser o charme do roteiro. Há, sim, tentativas de trazer uma comédia mais universal, mas elas esbarram em diálogos óbvios, analogias infantis e um esforço visível demais para tentar parecer moderno ou “esperto”.
E se há um ponto onde o filme realmente deveria brilhar, é na ação. Com um diretor como Naishuller e dois protagonistas com histórico em produções explosivas — John Cena especialmente, com seu passado na WWE e um talento já comprovado para cenas de combate —, era de se esperar algo mais físico, mais direto, mais envolvente. Mas o que temos são cenas de ação grandiosas, com explosões, quedas de avião e tiroteios em larga escala, mas sem alma. Tudo soa artificial, quase automatizado, como se o filme tivesse sido construído por algoritmos que juntam fórmulas prontas do gênero. O mais curioso é ver que, nessas cenas, os verdadeiros protagonistas parecem ser os coadjuvantes. Priyanka Chopra Jonas e Jack Quaid, mesmo com pouco tempo de tela, acabam roubando o foco — especialmente Chopra, que domina suas cenas com uma presença que deveria ser atribuída aos personagens principais.
Cena e Elba são relegados, muitas vezes, à função de alívio cômico. Isso, por si só, não seria um problema, se o filme não se vendesse como uma aventura centrada neles e na força de sua parceria. Quando finalmente são colocados no centro da ação, a coreografia das cenas é genérica e sem criatividade — o que decepciona, vindo do mesmo diretor que entregou momentos de pura adrenalina em Anônimo. O ponto positivo, curiosamente, são os efeitos visuais. Para um filme lançado diretamente no streaming, há um cuidado técnico notável. Os efeitos são bem renderizados, e em alguns momentos, é possível notar o uso de efeitos práticos que ajudam a criar uma sensação mais realista nas sequências maiores.
No fim das contas, Chefes de Estado é um filme que tenta abraçar tudo e acaba não segurando nada. Ele almeja ser uma comédia de ação com sátira política, mas termina como um entretenimento raso, que depende exclusivamente do carisma de seu elenco — e mesmo esse carisma não é suficiente para segurar a trama durante todo o tempo de duração. Há bons momentos, principalmente no design de produção e em alguns efeitos visuais, mas o resultado geral é inconsistente. É um daqueles filmes que você assiste, até se distrai em certos pontos, mas que dificilmente vai lembrar depois de alguns dias.