Mike Flanagan já havia provado diversas vezes sua habilidade em adaptar o terror de Stephen King para as telas, mas em A Vida de Chuck ele toma uma decisão ousada: transformar uma obra de tons sombrios em uma experiência essencialmente emocional. Longe de se apoiar em sustos ou na atmosfera macabra que costuma marcar suas histórias, o diretor conduz o filme como uma reflexão sobre a vida, a morte e o valor dos pequenos momentos. Essa escolha, por si só, já torna o longa diferente dentro do universo das adaptações de King, mas também o expõe a riscos narrativos que ficam claros ao longo da projeção.
O longa estreou no Festival de Toronto em 2024, onde foi recebido com entusiasmo e venceu o prêmio do público — um feito que levantou expectativas quanto ao seu futuro na temporada de premiações. Porém, o entusiasmo inicial não encontrou eco no lançamento comercial. A NEON, responsável pela distribuição nos Estados Unidos, guardou o filme por um ano antes de levá-lo aos cinemas, desperdiçando a janela de prestígio pós-festival. O resultado foi uma estreia discreta, sem o impacto que se poderia imaginar para um projeto com esse potencial artístico e com um elenco encabeçado por Tom Hiddleston.
O ator, conhecido mundialmente pelo papel de Loki no MCU, finalmente encontra aqui um protagonismo fora da Marvel que lhe permite explorar novas camadas. E, embora o tempo de tela não seja tão extenso quanto poderia, Hiddleston prova mais uma vez ser um intérprete capaz de prender a atenção mesmo em silêncio, transmitindo emoções apenas com a presença. Dividindo espaço com ele, o jovem Benjamin Pajak entrega uma performance surpreendente, garantindo ao filme um equilíbrio entre a intensidade do adulto e a pureza da criança.
A estrutura narrativa, fiel à do conto original, apresenta a vida de Chuck de trás para frente, em três atos. O último capítulo de sua história é, na verdade, o primeiro a ser mostrado, e é nesse ponto que Flanagan atinge o auge de sua criatividade. O chamado “terceiro ato” se torna o segmento mais instigante, um início arrebatador que mistura caos, ficção científica e mistério. É quando o diretor mostra domínio absoluto, instigando a curiosidade do público e transformando o desconhecido em força motriz da trama. Nesse momento, a experiência se revela magnética: Flanagan cria um quebra-cabeça enigmático que promete recompensas emocionais para aqueles dispostos a embarcar no jogo.
O problema é que, ao estabelecer um ápice logo no começo, o filme precisa lidar com o peso de sustentar a magia pelos atos seguintes. O “segundo ato” aposta em um tom mais intimista e reflexivo, mostrando Chuck já adulto e imerso em sua vida aparentemente banal. Hiddleston brilha nesse segmento, mesmo limitado pelo roteiro que, muitas vezes, sacrifica a espontaneidade em nome de conexões forçadas com o início. Ainda assim, momentos isolados — como a cena em que Chuck dança no meio do trabalho, resgatando lembranças da infância — demonstram a sensibilidade de Flanagan em capturar o impacto dos instantes mais simples.
Quando o filme chega ao “primeiro ato” — o desfecho cronológico da trama —, a narrativa se transforma em uma longa explicação. A infância de Chuck, vivida por Benjamin Pajak, é explorada com carinho, mas também com um didatismo que quebra o encantamento construído antes. Tudo precisa ser justificado: por que Chuck virou contador e não dançarino, por que ele se agarra tanto à vida, por que suas escolhas parecem sempre guiadas pela consciência de um fim iminente. Essa necessidade de amarrar pontas enfraquece a naturalidade da experiência, entregando ao espectador respostas que soariam mais poderosas se fossem apenas sugeridas.
É nesse ponto que se encontra a grande contradição de A Vida de Chuck. Enquanto Flanagan brilha quando aposta no mistério, no silêncio e na sutileza, ele tropeça ao tentar explicar em excesso. O filme quer ser contemplativo e reflexivo, mas em vários momentos subestima a capacidade do público de interpretar. Esse didatismo contrasta com o impacto do primeiro segmento, que justamente se apoia no desconhecido para criar fascínio. A sensação final é de que o longa abre portas para a imaginação, mas fecha algumas delas rápido demais.
Ainda assim, não se pode negar o poder emocional do projeto. O simples fato de começar revelando o fim da vida de Chuck já carrega um peso simbólico que ecoa em todas as cenas seguintes. Saber de antemão o destino do personagem transforma cada escolha, cada gesto e cada lembrança em algo mais profundo. E é justamente essa estrutura invertida que sustenta o coração da narrativa: em vez de esperar por uma reviravolta, acompanhamos a inevitabilidade da morte e a beleza de se agarrar aos momentos que realmente importam.
Tecnicamente, o filme é impecável. A fotografia cria atmosferas distintas para cada ato, variando cores e tons de acordo com a fase da vida retratada. A trilha sonora reforça a carga emocional, especialmente nos segmentos mais sensíveis, e o design de produção transporta o espectador para diferentes épocas com naturalidade. Esses elementos reforçam a intenção de Flanagan em construir uma experiência mais sensorial do que lógica, mesmo quando o roteiro insiste em sobreexplicar.
A Vida de Chuck é, portanto, um filme de contrastes. Brilha intensamente em seu início, emociona em seu desenvolvimento e perde força na tentativa de amarrar tudo de forma clara demais. É uma obra que pede um segundo olhar — rever o primeiro ato depois de conhecer o restante traz novas camadas de significado e aumenta a força da mensagem. Se a magia não é constante, ela ao menos é marcante nos momentos em que aparece.
No fim, Flanagan entrega uma adaptação que foge do esperado e propõe um exercício de contemplação sobre o que realmente faz a vida valer a pena. Nem sempre acerta na forma de transmitir isso, mas alcança um resultado honesto e sensível, capaz de emocionar e provocar reflexões. A Vida de Chuck não é um filme perfeito, mas é um daqueles que permanecem na memória, justamente por suas fragilidades e pela coragem de se arriscar a contar uma história de maneira tão singular.