Alerta Apocalipse não era um dos filmes mais aguardados do início de 2026, mas acaba chamando atenção por alguns nomes envolvidos. Joe Keery, logo após o encerramento de Stranger Things, Liam Neeson, que já se tornou figura recorrente em produções de apelo duvidoso, e principalmente David Koepp, um dos roteiristas mais influentes de Hollywood, responsável por títulos como Jurassic Park, Missão: Impossível (1996) e Homem-Aranha (2002). Além disso, o próprio filme parte de um livro escrito por Koepp, o que naturalmente cria uma expectativa de maior controle narrativo e segurança dramática. No entanto, o que se vê em Alerta Apocalipse é um filme que desperdiça sua premissa, seus talentos e sua proposta, entregando uma experiência esquecível, sem impacto emocional, sem urgência e com problemas claros de tom, ritmo e identidade.
Baseado no romance homônimo de David Koepp, Alerta Apocalipse acompanha Robert Quinn (Liam Neeson), um agente bioterrorista do Pentágono que tenta conter a liberação de um organismo altamente mutante, mantido por anos em uma instalação governamental. Quando esse organismo escapa, inicia-se uma epidemia com potencial de extinção global. Quinn acaba se unindo a um grupo improvável de civis que lutam pela própria sobrevivência, enquanto o mundo caminha para o colapso. A narrativa tenta equilibrar suspense, terror, ação e humor, explorando temas como sacrifício, sobrevivência e coragem em meio ao caos.
Jonny Campbell, com vasta experiência em séries de televisão, assume aqui seu projeto mais ambicioso no cinema, tanto em escala quanto em elenco. A expectativa era que sua familiaridade com narrativas seriadas ajudasse a construir tensão e ritmo. Porém, o resultado aponta para o contrário: um filme que parece nunca encontrar sua forma definitiva, oscilando entre gêneros sem conseguir sustentar nenhum deles de maneira consistente.
O ponto de partida de Alerta Apocalipse até apresenta um conceito curioso: um microrganismo que veio do espaço e se comporta de maneira semelhante a um fungo conhecido na Terra, lembrando diretamente o Cordyceps popularizado recentemente por The Last of Us. A semelhança, no entanto, não se limita à inspiração, mas também à superficialidade com que a ameaça é tratada. O filme não demonstra interesse real em desenvolver esse organismo ou integrá-lo de forma orgânica ao conflito. Ele existe mais como um atalho narrativo do que como uma força dramática consistente. As poucas explicações oferecidas, como a adaptação do vírus ao longo dos anos e sua relação com mudanças climáticas, surgem como comentários soltos, nunca totalmente incorporados à progressão da história.
Esse uso raso da ameaça compromete diretamente o envolvimento do espectador. O vírus está ali, mas não se sente sua presença como algo constante ou opressivo. Para agravar, a direção opta por repetir excessivamente a mesma representação visual da infecção. O que deveria causar impacto acaba sendo banalizado pela insistência, chegando ao ponto de o mesmo efeito ser mostrado duas vezes em menos de cinco minutos, como se fosse necessário reforçar algo que o filme já deixou claro.
Narrativamente, os problemas se acumulam. O roteiro apresenta decisões centrais movidas por motivações frágeis. Personagens arriscam a própria vida não por desespero humano ou laços emocionais, mas por razões pouco convincentes, como o medo de perder um emprego que sequer parece significativo para eles. Conveniências também se multiplicam: galpões com áreas secretas nunca questionadas, infectados que atacam apenas quando convém ao roteiro e situações em que a ameaça simplesmente deixa de agir quando teria todas as condições de causar um desastre maior. Esses problemas poderiam ser amenizados por uma direção que soubesse conduzir melhor a narrativa, mas Jonny Campbell acaba escancarando cada fragilidade do texto.
O maior erro do filme, no entanto, está em sua indefinição tonal. Alerta Apocalipse parece querer ser muitas coisas ao mesmo tempo: terror, comédia, ficção científica e ação. No fim, nenhuma delas se impõe de verdade. A comédia acaba se sobrepondo aos outros gêneros, mas não de forma consciente ou bem dosada. Em vários momentos, o filme parece flertar com a sátira, mas sem assumir isso por completo. Em outros, tenta resgatar uma seriedade que nunca se sustenta. Essa falta de decisão cria um filme que não se leva a sério, mas também não consegue rir de si mesmo de maneira inteligente.
Essa confusão se reflete diretamente na estrutura e no ritmo. O longa passa a sensação de estar dividido apenas em dois grandes blocos. O primeiro, excessivamente lento, dedica-se a apresentar personagens e situações sem conseguir fisgar o interesse. O espectador espera que o vírus finalmente entre em cena para movimentar a narrativa, enquanto o que se vê são diálogos leves e tentativas de humor que não criam tensão. Quando o filme finalmente chega ao que deveria ser seu desenvolvimento mais intenso, a transição é abrupta. Saímos desse longo preparo direto para o confronto final, seguido rapidamente pelo desfecho, sem qualquer construção gradual de perigo ou urgência.
E falando em urgência, este talvez seja o elemento mais ausente do filme. Em histórias de infectados ou zumbis, o senso de ameaça costuma nascer da proximidade do perigo e do vínculo com os personagens. Aqui, nada disso funciona. O risco é sempre tratado em uma escala global e abstrata, o medo de o vírus se espalhar pelo mundo, enquanto os protagonistas permanecem distantes emocionalmente. Soma-se a isso o fato de que o personagem de Liam Neeson, um ex-agente do Pentágono, enfrenta sozinho uma ameaça dessa magnitude, sem qualquer apoio militar plausível, o que enfraquece ainda mais a lógica interna do filme.
Tecnicamente, escolhas como o uso excessivo de animais em CGI também prejudicam a imersão. Em vez de reforçar o horror, esses momentos soam artificiais e quase reforçam a sensação de que o filme caminha para uma sátira involuntária dos próprios clichês do gênero.
No fim das contas, Alerta Apocalipse provoca talvez a pior reação que um filme pode gerar: a indiferença. Não funciona como terror, não se sustenta como comédia e tampouco entrega algo relevante dentro do já saturado subgênero de infectados. O interesse se mantém apenas pelos rostos conhecidos do elenco e pelo nome de David Koepp nos créditos, mas nada disso se traduz em envolvimento real. Falta clímax, falta construção de urgência e, principalmente, falta identidade. Se 2026 começou de forma promissora para o cinema, Alerta Apocalipse se estabelece rapidamente como um dos primeiros grandes tropeços do ano, um filme que passa sem deixar marcas e que dificilmente será lembrado quando os créditos finais surgirem.