Coração de Lutador chega aos cinemas como um marco em diferentes frentes. Não apenas marca a guinada na carreira de Dwayne Johnson, que finalmente se arrisca em um papel mais denso e dramático, mas também representa um momento de ruptura para Benny Safdie. O diretor, até então inseparável do irmão Josh em projetos como Bom Comportamento e Joias Brutas, agora assume sozinho a direção de uma obra que já lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Veneza. E o que ele entrega é um filme que, ao mesmo tempo em que pulsa de energia e autenticidade, também sofre com escolhas narrativas que enfraquecem parte de seu impacto.
A proposta de Safdie é clara: evitar o tradicional “pacote biográfico” que tenta condensar décadas de vida em duas horas. Em vez disso, ele recorta apenas quatro anos fundamentais da trajetória de Mark Kerr, lutador lendário do vale-tudo que viveu a transição para o UFC nos anos 1990. Esse recorte é inteligente e permite ao diretor mergulhar em um momento-chave da história do esporte. O filme mostra a ascensão meteórica de Kerr, seus problemas pessoais e a forma como o ambiente caótico das lutas moldava não só carreiras, mas também vidas inteiras.
Um dos grandes acertos está na recriação dos anos 1990. O design de produção, os figurinos com marcas icônicas da época, como Bad Boy, e até mesmo a recriação dos ringues transportam o espectador para aquela era. Safdie usa o recurso de filmar algumas lutas como se fossem transmissões televisivas da época, o que dá dinamismo e uma sensação de realismo rara no cinema esportivo. Nesses momentos, o público não apenas acompanha um espetáculo de luta, mas também se sente parte do ambiente que ajudou a consolidar o UFC como fenômeno mundial.
Porém, o mesmo cuidado que Safdie dedica ao retratar os bastidores do esporte não aparece com igual intensidade ao lidar com a vida pessoal de Mark Kerr. O filme oscila entre a brutalidade dos ringues e os dilemas íntimos do lutador, mas essa transição nem sempre é bem equilibrada. A dependência química de Kerr e sua relação conturbada com Dawn (Emily Blunt) aparecem mais como pano de fundo do que como elementos centrais da narrativa. Safdie insere passagens que sugerem esses conflitos, como momentos de reabilitação ou brigas de casal, mas nunca os desenvolve com profundidade. O resultado é um ciclo de repetições: Dawn surge em cena quase sempre para discutir com Kerr, sem espaço para construir camadas próprias. Ainda assim, Emily Blunt entrega uma atuação sólida, capaz de dar alguma dignidade a uma personagem escrita de maneira limitada.
Essa falta de densidade contrasta com a força do retrato esportivo. Se de um lado Safdie é preciso ao mostrar como era viver em um mundo de lutas marcado por riscos, pouca visibilidade e baixas recompensas financeiras, de outro ele perde a oportunidade de explorar as consequências psicológicas e emocionais desse universo sobre Kerr. O espectador entende que o lutador sofre com o vício e com a pressão, mas não sente plenamente o peso disso, já que a narrativa se contenta em sugerir, sem aprofundar.
No entanto, há um elemento que mantém o filme vivo: Dwayne Johnson. Conhecido por seu carisma em blockbusters, Johnson surpreende ao se entregar a um papel mais complexo. É verdade que sua atuação ainda carrega limitações, especialmente nos momentos de maior carga dramática, mas o esforço é visível. Ele encontra em Kerr uma oportunidade de romper com sua própria imagem e, em muitos momentos, sustenta o filme apenas com sua presença. Nos ringues, é claro, Johnson se mostra à vontade, aproveitando sua experiência prévia no universo da luta livre. Já nos dramas íntimos, ele oscila: ora convence pela entrega, ora deixa transparecer certa superficialidade. Mesmo assim, é inegável que esta é sua melhor atuação até agora, justamente porque exige dele mais do que músculos e frases de efeito.
Curiosamente, as lutas, que poderiam ser o ponto alto absoluto, acabam se tornando repetitivas. Safdie opta por uma câmera muito próxima, que busca capturar expressões e impactos de forma quase documental. Essa escolha traz autenticidade, mas limita a variedade das cenas. Depois de algumas sequências, a fórmula se repete: empurrões, quedas no corner, trocas de socos e joelhadas. A intensidade se mantém, mas a novidade se perde, deixando a sensação de que todas as lutas são parecidas.
O que impede o filme de alcançar todo o seu potencial é justamente essa contradição: ele acerta quando aposta nos bastidores do esporte e na reconstrução histórica, mas tropeça ao tentar equilibrar o drama íntimo do protagonista. Há ali uma história riquíssima sobre vício, amor, fama e queda, mas que acaba diluída em repetições e falta de contexto. Ainda assim, Safdie consegue entregar uma mensagem poderosa sobre o legado de Mark Kerr. O filme lembra ao público que, em uma época em que lutadores recebiam muito pouco, Kerr foi um dos nomes que ajudaram a abrir caminho para que o UFC se tornasse a potência que é hoje, onde atletas recebem milhões.
Coração de Lutador não é perfeito, mas é relevante. É um filme que se divide entre a ousadia de mostrar um retrato cru do esporte e as fragilidades de um drama pessoal pouco explorado. Se por um lado Johnson ainda não alcança a excelência dramática, por outro mostra disposição para romper com a própria imagem e arriscar novos caminhos. Se Safdie ainda não domina totalmente o equilíbrio entre ação e emoção, já demonstra coragem em assumir sozinho um projeto dessa dimensão.
No fim, Coração de Lutador é um filme que vibra com autenticidade, que celebra o legado de Mark Kerr e que mostra um Dwayne Johnson em busca de um novo patamar em sua carreira. É uma obra que merece ser vista tanto pelo valor esportivo quanto pelo interesse humano, mesmo que fique a sensação de que poderia ter sido ainda maior.