Dono de uma das trilhas sonoras mais icônicas de todos os tempos, O exorcista, ainda provoca tensão e medo mesmo tendo sido realizado a mais de quarenta anos atrás, e é a prova viva de que terror bem feito é constituído por uma série de elementos bem construídos e não só uma colagem de sustos baratos como a maioria dos filmes atuais deste gênero apontam.
O filme acompanha Chris MacNeil ( Ellen Burstyn ), uma famosa atriz de cinema, enquanto a sua filha começa a ser possuída por um tipo de entidade. Após tentar levar Regan ( Linda Blair ) a médicos e psicólogos e não conseguir nenhum resultado, Ellen decide realizar um exorcismo na menina, com a ajuda do pastor Karras ( Jason Miller ) e do pastor Merrin ( Max von Sydow ).
Logo no primeiro plano do filme, um sol ocupando boa parte da tela, Uma imagem mística que remete a relação do homem com o sol e o endeusamento histórico deste astro. Vemos o quão forte, jovem e cru era aquele cinema do final dos anos 60 e inicio dos anos 70 e quão destemida era a geração encabeçada por Scorsese, Friedkin, Coppola e tantos outros
E essa personalidade forte e distinta do cinema desta época me fez refletir sobre os filmes que são realizados atualmente. Filmes como Insurgente, produzido mais de quarenta anos depois de O Exorcista e que se recusa a exibir sangue em brigas ou uma cena de sexo. Não sabemos que as pessoas sangram ? Ainda temos vergonha de falar sobre sexo ? ...
A obra de William Friedkin é de uma riqueza temática enorme. No filme, vê-se uma mulher forte que cria sua filha sozinha e administra a casa. Não há uma figura masculina para “tomar conta” da família, além disso, um padre que está perdendo a sua fé que é recuperada pela possessão, por alguma entidade, de uma menina de doze anos. E essa entidade, vem de um deserto remoto do iraque.
Estes aspectos demonstram pensamentos presentes no inconsciente coletivo americano. O que pautava suas discussões, seus medos e angústias naquela época. A ameaça que vem de “fora”, mais precisamente do iraque, denota um medo crescente contra atentados e a segurança, bem como a aversão a imigrantes. Já a descrença corresponde a própria perda da fé católica e a concepção de que “Deus” é ruim. Um ser que se manifesta apenas em adversidades e nunca em ações benéficas. Deus, em O Exorcista assiste calado ao internamento e morte da mãe do padre Karras e a possessão de uma menina de doze anos é o que faz com que o padre volte a acreditar em “Deus”.
O Exorcista se assemelha bastante a Bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968 ) e Psicose ( Alfred Hitchcock, 1960 ) criando uma atmosfera única que perdura durante o filme inteiro. E não só isso tem em comum com esses filmes, mas o próprio desenvolvimento do gênero terror deve, especialmente, a eles. A esta obra o aspecto sobrenatural, que tem em comum com Bebê de Rosemary, prevalece como o aspecto que é mais explorado pelo diretor.
Esse ponto é realçado pela direção fantástica de Friedkin. Por rimas visuais, o diretor recorre, brilhantemente, ao simbolismo de cruzes e imagens de santos, bem como objetos específicos como o pingente de Chris e o amuleto do padre Merrin. Em uma cena, a personagem de Ellen Burstyn caminha pela rua quando avista duas freiras caminhando. Suas roupas brancas balançam com o vento, remetendo-nos a fantasmas. Ajudado pela monumental trilha sonora, este consegue ser um dos momentos mais estranhos e místicos do filme.
Os enquadramentos e a composição de Friedkin são de uma beleza enorme. Em alguns planos abertos o diretor destaca a bela direção de arte, bem como os movimentos corporais dos excelentes atores. Chris MacNeil e Jason Miller trazem uma profundidade enorme aos seus personagens ao retrata-los com complexidade. Destaco a cena em que a entidade reproduz a voz da mãe, que acabara de falecer, do padre Karras. Percebe-se ali uma construção consciente e complexa de um personagem que se encontra divido em ajudar a garotinha, odiar o demônio e a saudade da mãe.
E Chris, ao mesmo tempo em que é uma mãe forte e independente, veste sempre cores claras que demonstram o seu carinho e afeto com sua filha. E é talvez dai que venha uma curiosa interpretação que tive enquanto assisti a esta obra. Por ser a chefe da casa, algo que vai de encontro a sociedade patriarcal, a possessão de Regan, seja a punição. Para o imaginário coletivo daquela época ( ainda hoje ! ) uma mãe ser a chefe de família é errado e os acontecimentos aquela família são consequência disso.
“ Um filme de terror não é feito de sustos baratos por aparições súbitas na tela ou aumento repentino de volume, mas sim de uma atmosfera misteriosa, uma história bem construída e personagens bem estruturados” Talvez seja essa a maior lição de O Exorcista e, ao mesmo tempo, a mais desrespeitada. Disso podemos, e devemos, refletir sobre como fazer terror e como está sendo feito terror.
Nota – 5,0