É uma regra quase não dita em Hollywood: se um filme faz sucesso, a sequência é inevitável. Mas até que ponto adicionar um número ao título e reciclar uma vilã icônica justifica a existência de uma obra? Quando me sentei para revisitar o universo canino da Disney, a expectativa era reencontrar o charme que tornou o primeiro filme um clássico instantâneo. No entanto, o que encontrei foi uma produção que late muito, mas não morde, tentando desesperadamente equilibrar nostalgia com ideias requentadas. Será que um guarda-roupa fabuloso e um punhado de filhotes adoráveis são suficientes para sustentar quase duas horas de filme? A resposta, infelizmente, é mais complexa e decepcionante do que parece.
Se há algo que impede este filme de ser um desastre total, é o domínio absoluto de Glenn Close. Eu não posso deixar de aplaudir como ela rouba a cena completamente com uma performance fabulosa e deliciosamente perversa. Ela não sai do personagem por um segundo sequer. Aliado a isso, temos o seu guarda-roupa. As peças intrincadas, elegantes e cheias de texturas criadas por Anthony Powell não apenas complementam o prestígio da vilã, mas convencem o público de que ela se sente verdadeiramente superior aos "meros mortais". O problema é que o brilho de Close acaba evidenciando o quão ofuscado e sem graça é o resto do filme.
Na minha visão, a capacidade do diretor Kevin Lima de criar um filme em live-action onde os cães projetam inteligência e emoção quase humanas é notável e traz o conforto clássico da Disney. Porém, o mesmo não pode ser dito sobre o elenco humano de apoio. A ausência da maior parte do elenco original gera uma decepção imediata. Para substituí-los, temos Ioan Gruffudd e Alice Evans. Embora cumpram a função básica de trazer uma bondade genuína para contrabalançar a maldade de Cruella, eles são rostos apáticos na tela. O romance entre os dois é mal desenvolvido, superficial e facilmente esquecível diante das peripécias dos cachorros.
Outro ponto que salta aos olhos — nem sempre pelos melhores motivos — é a escalação de Gérard Depardieu como o estilista francês Jean-Pierre Le Pelt. Se no filme original tínhamos a dinâmica clássica e trapalhona de Gaspar e Horácio, aqui temos um vilão secundário que beira o cartunesco. A atuação de Depardieu é tão exagerada que muitas vezes ultrapassa a linha do humor e cai no constrangimento. Embora funcione em momentos isolados para arrancar algumas risadas fáceis das crianças com seu sotaque carregado e trejeitos bizarros, no geral, sua presença soa como uma tentativa desesperada de preencher a lacuna deixada pela falta de antagonistas mais carismáticos.
É inegável que os filhotes de dálmata são o coração da franquia, especialmente a simpática filhote sem manchas, Oddball (Albina). No entanto, o roteiro tenta injetar mais energia introduzindo novos animais como alívio cômico, destacando-se o papagaio Tagarela (Waddlesworth), que acredita firmemente ser um rottweiler. Embora a ideia de um pássaro com crise de identidade seja criativa no papel, na tela ela acaba se tornando uma distração barulhenta. Esse excesso de personagens não-caninos rouba um tempo precioso de tela dos verdadeiros protagonistas, diluindo o foco da narrativa e testando a paciência do espectador mais velho.
No aspecto técnico, a obra é um produto claro de sua época, marcando uma transição visual incômoda. Por um lado, a direção de arte entrega cenários práticos que são visualmente interessantes e vibrantes — a exemplo do covil industrial e do apartamento estiloso de Cruella. Por outro, os efeitos visuais gerados por computador (CGI) não envelheceram bem. A tecnologia usada para apagar as manchas de Oddball e para animar as sequências de ação mais absurdas destoa do charme tátil e realista do live-action de 1996. É um ponto mediano na produção: a cenografia encanta, mas o abuso de um CGI embrionário quebra frequentemente a imersão na magia do filme.
O grande pecado de 102 Dálmatas é a sua completa falta de originalidade. A principal crítica que faço ao roteiro é que ele é uma repetição cansativa da fórmula do primeiro filme, o que faz a continuação soar puramente como uma tentativa corporativa do estúdio de lucrar com a franquia. O enredo é raso e pouco inspirado. Para o público adulto que acompanha as crianças, a história se torna arrastada e, em muitos momentos, um teste de paciência frente a uma narrativa previsível.
A direção falha gravemente ao tentar encontrar o tom do filme, resultando em uma verdadeira montanha-russa desconfortável. Por um lado, há um excesso de comédia pastelão extrema — pessoas caindo em banheiros, sendo jogadas em bolos gigantes — que subestima a inteligência do espectador. Por outro lado, o filme flerta com um tom surpreendentemente sádico em seu terceiro ato. Cenas envolvendo fornos industriais e máquinas de cortar são intensas e sombrias demais para a classificação indicativa livre, podendo assustar o público infantil mais jovem. Essa bipolaridade narrativa impede que a obra atinja perfeitamente qualquer um de seus públicos-alvo.
102 Dálmatas é um filme que se sustenta unicamente no visual extravagante de sua vilã e na fofura de seus animais, falhando em entregar uma história que justifique sua existência. É uma obra de roteiro fraco, tom desequilibrado e personagens humanos descartáveis, servindo apenas como um entretenimento passageiro e esquecível. Contudo, a experiência cinematográfica é sempre subjetiva. Recomendo que você assista ao filme, tire suas próprias conclusões e veja se a genialidade caricata de Glenn Close é suficiente para compensar as derrapadas da direção. Afinal, a melhor crítica é aquela que você mesmo constrói após a sessão.