Desde o anúncio de Capitão América 4, o filme já carregava uma série de incertezas e polêmicas. As comparações com a icônica interpretação de Chris Evans eram inevitáveis, mas as turbulências nos bastidores também ajudaram a aumentar as dúvidas sobre o projeto. Refilmagens extensas, mudanças significativas no roteiro, substituição de antagonistas e uma estratégia de marketing que destacou o Hulk Vermelho como peça central na trama, apenas para frustrar aqueles que esperavam vê-lo como grande vilão, contribuíram para uma recepção inicialmente negativa. A crítica não poupou ataques ao longa, classificando-o como um dos piores filmes do MCU. Mas seria Capitão América 4 realmente essa grande decepção? A verdade é que, embora esteja longe de ser uma catástrofe, o filme também não se esforça o suficiente para se destacar, resultando em um produto que, no fim das contas, se contenta em ser apenas funcional.
A Marvel continua sua tendência de contratar diretores menos conhecidos para comandar projetos cruciais dentro do MCU, e aqui não foi diferente com Julius Onah. O cineasta demonstra pouca margem de autoria, funcionando mais como uma peça dentro do controle criativo dos estúdios do que como alguém capaz de imprimir uma identidade própria à narrativa. Essa escolha parece intencional, já que Capitão América 4 tem a missão de estabelecer bases para o futuro do MCU e, em especial, preparar o terreno para Thunderbolts, o próximo grande evento cinematográfico da franquia. O resultado é um filme que prioriza conexões e pistas para o futuro, em detrimento de um desenvolvimento mais profundo de personagens e tramas.
O longa se esforça para consolidar Anthony Mackie como o novo Capitão América, buscando distanciar seu personagem de Steve Rogers. Isso fica evidente em diálogos que praticamente declaram ao público que os dois não são a mesma pessoa. Paralelamente, a introdução do Hulk Vermelho, interpretado pelo excelente Harrison Ford, parece ser a principal aposta do filme para gerar interesse. Ford, como esperado, brilha em cena e traz um carisma que eleva sua participação, sendo um dos pontos altos da narrativa. Sua presença, no entanto, muitas vezes acaba ofuscando Mackie, que, apesar do esforço, ainda não possui o mesmo peso dramático de seu antecessor.
O filme passa a sensação de ser dividido em duas partes bem distintas. No primeiro ato, há uma abordagem mais próxima de um thriller político, remetendo ao aclamado Capitão América: O Soldado Invernal. Com um tom mais investigativo, a trama envolve disputas internas dentro do governo, com o novo Capitão América entrando em conflito com o recém-empossado Presidente dos EUA. No entanto, essa atmosfera dá lugar a uma segunda metade repleta de ação frenética, com lutas aéreas e sequências visuais impressionantes. O problema é que a transição entre esses dois tons não é conduzida com a fluidez necessária, criando uma sensação abrupta de mudança de foco. Esse descompasso é um reflexo claro das refilmagens e alterações que o projeto sofreu ao longo do tempo.
Mesmo com seus problemas estruturais, Capitão América 4 ainda possui momentos de brilho. Algumas sequências de ação são bem coreografadas e criativas, ainda que o CGI, em certos momentos, deixe a desejar. Além disso, o longa amarra algumas pontas soltas do MCU, especialmente relacionadas ao filme O Incrível Hulk (2008), trazendo respostas sobre O Líder, as consequências da luta entre Hulk e Abominável e, finalmente, fazendo referências aos eventos de Eternos. Ainda assim, algumas dessas conexões soam artificiais e inseridas de forma apressada, sem grande impacto narrativo.
O grande problema do filme reside na abordagem atual da Marvel, que vem priorizando a construção de futuras histórias em detrimento do desenvolvimento individual de seus heróis. No passado, os filmes do MCU se dedicavam a aprofundar seus protagonistas, criando laços com o público enquanto avançavam a narrativa geral do universo compartilhado. Hoje, a estratégia parece ter se invertido: Capitão América 4, assim como outras produções recentes do estúdio, foca mais em preparar o terreno para eventos futuros do que em consolidar o novo Capitão América como um personagem independente e carismático.
Em resumo, Capitão América 4 se sustenta pelo carisma de Harrison Ford e Anthony Mackie, além de contar com boas cenas de ação que entregam o entretenimento esperado dentro do padrão Marvel. No entanto, para um filme que carrega o nome de Capitão América, a sensação é de que faltou ambição e desenvolvimento mais sólido para seu protagonista. No fim das contas, o longa se esforça muito para ser apenas “ok” e divertir dentro de uma margem segura, sem riscos ou grandes inovações. Isso pode ser suficiente para alguns, mas para outros, será apenas mais um filme esquecível dentro de um universo cinematográfico que já foi sinônimo de inovação e impacto.