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    O Último Amor de Casanova
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    O Último Amor de Casanova

    A notável exceção

    por Barbara Demerov
    Apesar de ser foco de inúmeros filmes com interpretações de Heath LedgerMarcello Mastroianni e Alain Delon, a natureza libertina de Giacomo Casanova não ganha os holofotes no longa de Benoît Jacquot. O que há para ser narrado aqui justamente é o reverso de seus tempos áureos, quando a personalidade sedutora do italiano ganhava os corações de diversas mulheres pela Europa. Jacquot nos apresenta um Casanova já no fim de sua vida relembrando o único caso de amor que o marcou de forma tão profunda quanto negativa. "Eu era amigo de todas elas, menos de uma", diz o protagonista a uma jovem que o visita para ouvir suas histórias.

    Desta forma, o filme volta 30 anos na narrativa para contar qual foi a exceção à regra. É no mínimo curioso imaginar um sujeito como Casanova sofrendo por amor, principalmente quando a cultura em termos gerais o classifica como um mulherengo cujo caráter soa duvidoso por muitas vezes. Mas é exatamente isso o que vemos em O Último Amor de Casanova: um jogo que mais parece ser entre gato e rato, sendo Casanova (Vincent Lindon) o gato que persegue uma presa que nunca consegue ver de forma clara. La Charpillon (Stacy Martin), de certa forma, toma o lugar do protagonista no que se diz respeito ao charme emanado. É ela quem comanda as ações e espera as reações exatas de sua vítima.

    Ambientada em Londres, aproximadamente em 1770, a narrativa toma como base as mudanças que a cidade encara no sentido social. Nem mesmo o jeito boêmio de Casanova exclui sua surpresa ao ver o que acontece nos parques londrinos, ou o comportamento das mulheres que o rodeiam. É dessa forma surpreendente e intrigante que Charpillon entra em sua vida e logo o faz sentir na pele o que é um amor não correspondido. No entanto, esse "jogo" que se inicia entre ambos durante vários meses vai perdendo sua força à medida que nada ali consegue evoluir para algo mais contemplativo ou até mesmo abrupto. As longas cenas silenciosas entre Casanova e Charpillon, que tentam de qualquer maneira elevar a tensão sexual, perdem até mesmo o seu sentido por estarem diante de um roteiro que não prioriza a reflexão sobre o que acontece de fato com o casal.



    Não dá para saber ao certo quais são as verdadeiras intenções da moça, que ora parece ingênua, ora parece saber muito bem quais passos tomar. Ao longo da história descobrimos que ela trabalha como prostituta e, por mais que Casanova saiba quais são os riscos perante a aristocracia, deixa tudo de lado para vislumbrar qualquer tipo de relacionamento com Charpillon - que, por sua vez, não quer se relacionar sexualmente com seu "alvo" para não perdê-lo facilmente. Também é interessante ver como o filme mostra os dois lados da corte de maneira sutil, mas com consequências bem demarcadas.

    Contudo, o roteiro entra numa espécie de ciclo de redundâncias quando passa a focar inteiramente na dependência de Casanova perante a um amor proibido e improvável. São nos momentos em que o protagonista sofre com a solidão que a estagnação da narrativa torna-se gritante - mesmo em meio a um capítulo inédito de sua vida. Em O Último Amor de Casanova, a falta de expressividade (tanto na paleta de cores quanto na própria atuação de Lindon) fala mais alto que a intenção de se inverter papéis e sentimentos.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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