O Dia da Castração marca a estreia da Sony Animation no universo das animações voltadas para adultos. O projeto também retoma a parceria com a Netflix, que já havia rendido títulos como A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas e Guerreiras do K-Pop. Curiosamente, o longa originalmente seria lançado pela Warner Bros nos cinemas, mas cortes orçamentários fizeram com que fosse parar no streaming. Para comandar essa proposta mais ousada, o estúdio trouxe Genndy Tartakovsky, conhecido por trabalhos marcantes como O Laboratório de Dexter, Samurai Jack, Primal e a trilogia Hotel Transilvânia. A ideia aqui é clara: buscar um público diferente do habitual da animação tradicional, apostando em um humor mais ácido e temáticas mais explícitas — algo que lembra Festa da Salsicha, produção que não tinha medo de abraçar o absurdo para falar com adultos.
O problema é que, enquanto Festa da Salsicha criava um universo próprio e completamente desconectado da realidade — onde alimentos falantes viviam suas aventuras e metáforas sexuais —, O Dia da Castração tenta aplicar essa lógica a um contexto bem mais próximo do espectador: cachorros domésticos. E aqui está a primeira barreira. Quando o humor explícito é colocado em cima de personagens que representam animais de estimação, que fazem parte da vida cotidiana das pessoas, a sensação de estranhamento se sobrepõe à graça. O filme até começa com um certo charme ao apresentar a rotina dos cães e o tabu que eles têm em relação à castração, mas rapidamente se prende a piadas sexuais e escatológicas repetidas à exaustão.
Se no início algumas dessas piadas podem até arrancar uma risada — muito mais pelo talento dos dubladores do que pelo texto em si —, logo elas se tornam previsíveis e desgastadas. O roteiro levanta questões interessantes, como a objetificação do corpo, a masculinidade frágil e a forma como esses animais enxergam sua própria sexualidade. Mas essas ideias são abandonadas no meio do caminho, substituídas por um festival de gags que parecem existir apenas para chocar. Fica a impressão de que havia material para algo mais inteligente e inventivo, mas a produção preferiu o caminho mais fácil, apostando em um humor datado que não evolui.
E esse é talvez o maior desperdício do filme: a premissa tinha espaço para explorar metáforas afiadas e um comentário social afiado — ainda mais em um formato animado, que permite exageros e estilizações sem limites. A visão canina sobre a castração poderia render um olhar irônico sobre como lidamos com tabus e controle do corpo, mas a narrativa opta por uma sequência interminável de piadas previsíveis. Assim, o que poderia ser uma comédia provocadora acaba se tornando monótona.
Visualmente, há acertos. Tartakovsky traz um traço cartunesco que remete às animações dos anos 2000, com personalidade e estilo próprio. Em um cenário onde a maioria das animações modernas aposta no 3D hiperpolido ou no híbrido estilizado popularizado por Aranhaverso e Arcane, é refrescante ver um longa em 2D com esse espírito mais “clássico”. Não é algo que vá revolucionar o gênero, mas confere identidade à obra. Outro ponto positivo está no elenco de vozes originais, que inclui Adam Devine, Idris Elba e Kathryn Hahn. Eles injetam energia nos personagens, dando vida a diálogos que, no papel, provavelmente soariam ainda mais fracos.
Apesar desses méritos pontuais, é difícil ignorar o desconforto que o filme provoca em determinados momentos. Não pela ousadia de falar sobre sexualidade — assunto que ainda é tratado como tabu por muitos —, mas pela forma pouco criativa com que isso é feito. Quando a proposta se limita a um encadeamento de piadas sexuais envolvendo animais, sem um subtexto consistente ou uma narrativa bem amarrada, a sensação é de que estamos assistindo a um esboço de ideia, e não a um projeto finalizado com clareza artística.
No fim, O Dia da Castração se perde no próprio conceito. Tinha potencial para ser uma sátira bem-humorada e provocadora, algo que desafiasse os padrões e explorasse o formato animado de forma inventiva. Ao invés disso, entrega um humor repetitivo, piadas previsíveis e um roteiro que não sabe aproveitar os temas que ele mesmo levanta. É uma obra que, mesmo com uma estética interessante e um elenco competente, acaba mais constrangendo do que divertindo — e que dificilmente vai conquistar um público que não esteja completamente alinhado ao seu estilo de comédia.