Uma Ode à Liberdade e à Arte de Ney Matogrosso
Homem com H (2025), dirigido e roteirizado por Esmir Filho, é muito mais do que uma simples cinebiografia—é uma celebração da vida, da arte e da resistência de um dos artistas mais transgressores da música brasileira: Ney Matogrosso. Baseado no livro Ney Matogrosso: A biografia, de Julio Maria, o filme mergulha na trajetória do cantor, desde sua infância marcada por conflitos familiares até sua ascensão como ícone da contracultura e da liberdade sexual em um Brasil ainda dominado por conservadorismos. Com uma produção cuidadosa, atuações impressionantes e uma direção sensível, o longa se consolida como uma das melhores biografias cinematográficas já feitas no país, equiparando-se a obras internacionais como Bohemian Rhapsody (2018) e Rocketman (2019) .
A Narrativa: Entre a Dor e a Revolução
O filme estrutura-se como uma jornada temporal, começando pela infância de Ney em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, onde enfrenta a repressão de um pai militar (interpretado por Rômulo Braga) e a descoberta de sua identidade queer em um ambiente hostil. A narrativa alterna entre momentos cruciais de sua vida, como sua entrada no grupo Secos & Molhados—que o projetou nacionalmente—e sua carreira solo, marcada por performances ousadas e uma estética que desafiava os padrões de gênero da época .
Um dos grandes méritos do roteiro é evitar a linearidade convencional das biografias. Em vez de simplesmente listar eventos, o filme constrói uma trama emocionalmente coesa, onde cada música, cada performance e cada conflito pessoal contribuem para a formação do artista. A relação conturbada com o pai, por exemplo, é um fio condutor que ecoa em várias fases da vida de Ney, culminando em uma cena poderosa em que o cantor se apresenta no palco enquanto o pai, na plateia, tenta reconciliar-se com o filho que nunca conseguiu entender.
No entanto, alguns críticos apontam que o filme perde um pouco de fôlego nos últimos vinte minutos, quando acelera sua cronologia para abarcar décadas mais recentes da vida do artista, tornando-se um tanto episódico . Ainda assim, essa escolha não diminui o impacto geral da obra, que prioriza a essência da mensagem de Ney: a busca incansável pela liberdade.
A Direção e a Estética: Um Espetáculo Sinestésico
Esmir Filho, conhecido por suas obras que exploram vivências queer (como Boca a Boca e Os Famosos e os Duendes da Morte), traz uma sensibilidade única para Homem com H. Sua direção evita clichês do gênero biográfico, optando por sequências oníricas e uma fotografia luxuriante (assinada por Azul Serra) que capturam a teatralidade e a intensidade das performances de Ney.
As cenas musicais são um dos grandes trunfos do filme. Diferentemente de outras biografias, em que as canções são meramente inseridas como hits nostálgicos, aqui elas funcionam como extensões narrativas. "Homem com H", "Bandido Corazón" e "Rosa de Hiroshima" não só marcam momentos-chave da carreira do artista, mas também refletem seu estado emocional e sua evolução como ser humano.
A reconstituição de época é impecável, com figurinos exuberantes e cenografias que recriam com fidelidade os palcos dos anos 1970 e 1980. O investimento de R$ 18 milhões na produção é visível em cada frame, mas o filme nunca cai no excesso estilístico—tudo serve à narrativa e à personalidade multifacetada de Ney.
As Atuações: Jesuíta Barbosa e a Encarnação de um Ícone
Sem dúvida, o coração do filme é a atuação de Jesuíta Barbosa como Ney Matogrosso. Mais do que uma imitação, Barbosa entrega uma encarnação do artista, capturando não apenas seus trejeitos e sua voz, mas também sua vulnerabilidade, sua ferocidade e sua sensualidade. Como destacam várias críticas, há momentos em que o ator desaparece e só resta Ney na tela.
A preparação física e emocional de Barbosa é evidente—desde a postura andrógina até os olhares penetrantes que alternam entre desafio e dor. Em cenas como a apresentação de "Homem de Neanderthal", onde Ney confronta simbolicamente o fantasma do pai, ou nos momentos íntimos com seus amantes (interpretados por Bruno Montaleone e Jullio Reis), o ator demonstra uma gama impressionante de nuances.
O elenco de apoio também merece destaque:
- Rômulo Braga, como o pai militar, traz uma complexidade rara ao antagonista, evitando a caricatura do homem rígido e mostrando um conflito interno genuíno.
- Jullio Reis, no papel de Cazuza, equilibra carisma e melancolia, em cenas que tratam da amizade e das perdas causadas pela AIDS com dignidade, sem cair no melodrama .
- Hermila Guedes, como a mãe de Ney, oferece um contraponto emocional essencial, representando o afeto que o cantor buscou a vida toda.
A Sensualidade e a Quebra de Tabus
Homem com H não tem pudor em explorar a sexualidade de Ney Matogrosso—algo raro em biografias brasileiras, que costumam romantizar ou omitir a vida íntima de seus protagonistas. As cenas de sexo, embora explícitas, não são gratuitas; elas reforçam a temática central do filme: a liberdade do corpo e do desejo em uma sociedade repressiva.
A direção de Esmir Filho lida com essas sequências de forma artística, quase coreográfica, transformando-as em celebrações de autonomia e prazer. Em um país onde a homofobia ainda é estrutural, essa representação sem censura é, por si só, um ato político.
Homem com H não é apenas um filme sobre Ney Matogrosso—é um filme sobre resistência, arte e a coragem de existir fora dos padrões. Com uma direção ousada, atuações memoráveis e um roteiro que equilibra drama e celebração, a obra consolida-se como um marco do cinema brasileiro contemporâneo.
Como bem resume a dedicatória final: "Para Ney Matogrosso, por ousar ser livre", o filme é um tributo àqueles que, mesmo diante da repressão, escolhem viver com autenticidade. E, nesse sentido, Homem com H cumpre sua missão com maestria—não apenas contando uma história, mas imortalizando um legado.
Uma obra imperdível, tanto para fãs de Ney quanto para quem aprecia cinema de qualidade.