É interessante o fato de O Escândalo chegar aos nossos cinemas justamente agora. Em meio aos protestos contra o Oscar, pelas não indicações de obras dirigidas por mulheres, é curioso constatarmos que esse não é o caso deste longa, afinal, ele não é dirigido por uma mulher – enfim, seria um pouco de presunção da minha parte dizer que parte dos problemas deste filme de Jay Roach viriam pelo fato de não ter uma mulher sob seu comando – mas podemos supor que a visão feminina aqui realmente poderia ter feito alguma diferença – e diferença é uma palavra que O Escândalo pouco faz, mesmo sendo um filme corajoso em sua proposta, acaba sendo lamentavelmente comum e convencional em sua realização.
O drama, baseado em fatos reais, se passa em 2016, contando a polêmica história de Roger Ailes (Lithgow), ex-diretor da rede de noticias televisiva norte-americana, Fox News, que foi acusado de assedio sexual por várias de suas ancoras dos jornais – inicialmente por Gretchen Carlson (Kidman), que deseja que outras mulheres “despertem” e também denunciem o idoso diretor da emissora – algo que começa deixar a experiente Megyn Kelly (Theron) e a novata Kayla (Robbie) apreensivas – além da tirania do influente chefe, as três precisarão enfrentar o ambiente conservador tanto da empresa, quanto da sociedade norte-americana.
As intenções de Roach são boas para expor esse lastimável caso de abusos contra mulheres. Mas sua mão pesa pela maneira obvia e expositiva com que apresenta tudo – há um detalhismo de situações que soa cansativo muitas vezes – enquanto ele acerta em nos apresentar de um jeito até obvio como é a composição do prédio da Fox, para vermos onde ficam os andares de chefia e empregados, ele erra em insistir em inserir na tela legendas mostrando o nome de personagens que, em sua maioria, nem sequer aparecem por mais de 10 segundos – o que, evidentemente, conduz tudo para uma confusão narrativa.
Algo que se estende para o roteiro, que parece não saber situar bem o protagonismo do filme – tentando dividi-lo entre Gretchen e Megyn – algo que torna, mais uma vez, alguns momentos em confusões – sem falar de decisões estéticas enfadonhas – como querer movimentar a câmera o tempo todo, como se isso servisse para tornar ágil passagens com diálogos longos – e, convenhamos, muito repetitivos e sem inspiração – creio eu que a ideia de fidelidade a história real não foi bem transposta para as telas, soando didática demais.
Entretanto, Roach se sobressai ao dar uma atenção ao psicológico de suas personagens femininas – e admito que achei respeitoso o fato dele jamais mostrar as cenas de abuso – preferindo apenas descreve-las (usando, inclusive, depoimentos reais, em uma certa passagem), ou quando uma personagem desaba quando confessa o abuso que sofreu a outra – o diretor tem, evidentemente, uma sorte grande em contar com três atrizes estelares: representando o lado mais ingênuo e novato das repórteres, Margot Robbie faz sua Keyla com um olhar de quem está descobrindo novas coisas na vida, demonstrando uma ingenuidade que provem de sua criação religiosa e conservadora; já Nicole Kidman tem a oportunidade de expor as pressões de beleza impostas as mulheres, além da objetificação delas na tv – o fato de serem obrigadas a usarem vestidos curtos, para exibir as pernas durante os programas – além da frustração em se sentir trocada, simplesmente por estar envelhecendo – escancarando estes injustos requisitos para ser aceita na empresa; e temos Charlize Theron, como sempre, brilhando na sua composição de Megyn, uma mulher obstinada com o trabalho, inconformada por dentro com os casos de abuso, mas ainda precisando forçar uma lealdade à Roger – vivido pelo veterano John Lithgow, expressando bem o lado falso e paranoico do ex-chefão da Fox News.
Ainda sobre os coadjuvantes, também temos a boa participação de Alisson Janney como a advogada de Roger – algo que provoca uma estranha sensação, afinal, temos um homem acusado de assediar mulheres sendo defendido por uma mulher – creio que isso foi algo que Roach deixou no filme de forma proposital, tendo em vista que a advogada parece estar mais interessada em saber se o cliente está mentindo ou não – e ainda a personagem da eficiente Kate McKinnon, que tem um rápido romance com Keyla – e serve para mostrar a dificuldade de uma pessoa homossexual em conviver em um ambiente conservador e preconceituoso – inclusive, o filme tem sua parte politica, em demonstrar como a eleição de Donald Trump (e, com o uso de uma edição, ele acaba sendo um personagem aqui) ajudou a estimular um discurso de ódio contra minorias – algo que a própria Fox News também estimulou.
Apesar de ser atrapalhado por decisões estéticas e narrativas convencionais, consegue ainda passar a indignação de inúmeras mulheres humilhadas por homens nefastos, todos os dias no mundo. E o filme deixa bem claro que isto é algo que não acabou, infelizmente – afinal, enquanto homens sem escrúpulos como Roger Ailes forem apenas substituídos por outros homens sem escrúpulos – podem não ser assediadores, mas tentam justificar coisas assim – as lutas de mulheres como Gretchen, Megyn e Kayla ainda não estão longe de acabarem.