Geralmente as pessoas querem saber com antecedência se um filme é bom ou não. Um dos meios para satisfazer tal curiosidade é ler a crítica sobre esse filme em questão. Antes de entrar em grande circulação, os críticos vão compor plateia a fim de escrever quais são suas impressões. Depois, é só botar nos meios de comunicação (preferencialmente a Internet e as publicações especializadas em cinema). Particularmente, não sei se este fenômeno aconteceu com “Ainda Estou Aqui”, dirigido pelo aclamado diretor brasileiro Walter Salles Jr. – o mesmo que já dirigiu outras belas películas como “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”.
Em vez de achar a causa ou o efeito sobre o sucesso acerca de “
Ainda Estou Aqui”, vamos nos ater aos aspectos técnicos e de narrativa dessa nova sensação Brasil afora. Sim, não há como negar os fatos de que “Ainda Estou Aqui” anda atraindo holofotes e luzes: é a película de produção nacional mais assistida nos últimos anos, recebeu o prêmio “Globo de Ouro” por Fernanda Torres e, mais recentemente (notícia fresquinha) ganhou como melhor filme na Espanha – ele conseguiu o Prêmio Goya. Isso depois de ser indicado três vezes ao Oscar, a cereja do bolo, o cume da premiação cinematográfica.
Detalhes relatados pelos participantes das filmagens (incluindo o elenco) revelam que o desenvolvimento e a feitura da película foram sendo costurados em conjunto com os descendentes da família Paiva. A cada desenrolar, era preciso checar tudo nos mínimos detalhes, desde os momentos cotidianos até o contexto social e político daqueles adolescentes dos anos 60, rodeados e cercados por uma ditatura militar severa, em seu limiar mais obscuro e cruel mostrado na telona.
Primeiramente vale ressaltar a semelhança física entre o casal Rubens e Eunice Paiva com os atores Selton Mello e Fernanda Torres. Uma preciosidade que não dá para passar despercebido.
O filme começa com a diversão na praia, típica de uma família comum do Rio de Janeiro nos anos 70. Os cinco filhos mais os pais levam a vida normal, ao passo que no escritório de Rubens, há uma movimentação e a circulação de correspondência que chamaria a atenção daqueles que estão no Poder ou os representam.
O engenheiro que antes fora deputado federal é “convidado” certo dia por “companheiros” que o levam para um interrogatório. O propósito é obter mais informações e esclarecimentos sobre a movimentação das pessoas em sua casa. Até mesmo Rubens acreditaria que voltaria para casa no dia seguinte. Eis o gancho para contar a história verídica de um dos casos mais emblemáticos e lembrados quando se trata de Direitos Humanos, violação de direitos, coação e uso de tortura e da máquina governamental.
A cena de adeus feita na porta da casa e a troca de olhares entre Eunice e Rubens são um belo exemplo do que se verá nas sequências. Poucas falas, muito gestual e uso da câmera concentrada nas expressões faciais dos artistas. Talvez um paralelo entre a mordaça imposta pela censura e restrição de liberdade de expressão com os gestos indisfarçáveis do corpo?
Simultaneamente à angústia do sumiço do marido, a Eunice real encarnada por Fernanda Torres se depara com problemas criados pela ausência de uma peça-chave da família. Cuidar dos filhos, procurar informações sobre seu marido, ser vigiada e ainda lidar com o medo geral e a recusa de pessoas próximas em dizer o que sabem.
A intensidade da película fica mais sombria, quando Eunice é interrogada sob pressão e sem consequências previsíveis quanto ao seu futuro. Corajosa, persiste em saber a respeito do paradeiro do marido. É na delegacia repressora que chega a encontrar uma de suas filhas. Outro ponto que dá para sentir frio na espinha. Mais ainda quando se revela que a matriarca passou quase 2 semanas trancada num ambiente que lembra bem o Holocausto Judaico.
Sem ser dramático ou querer fazer apologia de temas mais democráticos (o que era impossível naquele começo dos anos 70), o filme não descamba ou cai na tentação de algo panfletário ou de levantar a bandeira da liberdade.
Ele possui a sabedoria de se concentrar na figura de Eunice Paiva. Aliás, essa concentração na personagem se torna um desafio para Fernanda Torres. Por meio do gestual, dos contatos sociais com amigos e conhecidos e a convivência com seus filhos, a película se mantém consistente e consegue se sustentar até o final, num ritmo que mistura comoção, fé e união de toda a família Paiva. É inegável que Eunice busque blindar e proteger a qualquer custo seus filhos da crueza de tempos difíceis e opressores. Fernanda transmite isso muito bem a todo instante. Um trunfo não só para a atriz, como ela deseja transparecer a fibra das coisas vividas na pele pela própria Eunice.
A película pula alguns anos, sob justificativa de mostrar alguém com força interior suficiente para se formar em Direito pouco antes dos 50 anos. Além de defender causas ligadas às atrocidades da Ditadura Militar, Eunice se destacou em causas indígenas.
Ao invés de escolher uma militante combativa e lutadora, Walter Salles Jr. prefere mostrar ao público sentado na poltrona, alguém mais plácido, engajado em sua profissão de advogada, cuidadoso e preocupado com seus filhos. Companheiro. Ainda assim, permeado pelas sensações de tensão de um passado traumático, enigmático e sem reparação.
Mesmo com esses elementos presentes, é revigorante reencontrar uma Fernanda Montenegro interpretando Eunice Paiva em seus últimos anos. Apesar de ela não proferir nenhuma palavra, isso é um reforço na aposta da direção do filme em se concentrar nos gestos ou no silêncio forçado de uma época conturbada. Época que encontra eco bem vivo em Eunice e no seu silêncio – uma espécie de censura inconsciente?
O livro base de Marcelo Rubens Paiva tem o mérito de ser o fio condutor para alertar os mais jovens sobre a real existência dos “anos de chumbo”. Prática que tem sido contestada e sob ameaça de ser derrubada pelo negacionismo e falta de informação, sintomas vívidos de uma praga que invade e deturpa a atual sociedade brasileira.
Dizem que os filmes nem sempre obedecem às narrativas dos livros originais. Não dá para saber se “Ainda Estou Aqui “ se encaixa nessa condução. O melhor é que não! História viva precisa ser contada e recontada. “Ainda Estou Aqui” tem essa virtude e não se esgota em si. Pelo contrário, é mais uma oportunidade para não repetir erros cometidos na História real do Brasil e de vários países latino-americanos.
Com certeza, a curiosidade das pessoas e a checagem daquelas que viveram o período turbulento impulsionam tanto a realidade que passa na sétima arte, bem como o estímulo a refletir se não estamos à mercê de um outro tipo de ditadura: a pós-verdade, a negação das big techs em fazer um papel mais digno nas democracias mundiais, a manipulação da informação e a desconfiança em relação a tudo e a todos. Só que de modo mais sutil, mas não menos presente e preocupante.
Por fim, o título do filme, o qual se baseia no título do livro de Marcelo Rubens Paiva, nos instiga e faz uma chacota conosco. Insiste, persiste, teima seja lá o que for. Com certeza, conquistou e permanecerá nas listas das produções nacionais por um bom tempo. Ou quem sabe por muito tempo, pois ele “ainda está aqui” diante dos nossos olhos.