Depois de conhecermos um filme tão desastroso quanto Esquadrão Suicida, é meio difícil se sentir empolgado em acompanhar alguma sequência dentro deste universo – e, aliás, tudo fica ainda mais obscuro quando nos lembramos que este mundo de adaptações de quadrinhos da DC/Warner Bros. nos cinemas se encontra um tanto indefinido – seja por trocas de diretores (Zack Snyder saindo), atores (novo Batman; não sabemos quem será o próximo Coringa deste universo) e mudanças em tons de suas histórias e visuais – essa inconstância fere imensamente a fluência da franquia – mesmo que não seja composta por filmes perfeitos, o Universo Cinematográfico da Marvel foi uma coisa extremamente bem planejada, o que culminou ano passado na maior bilheteria da história do cinema, Vingadores: Ultimato.
É claro que o universo DC nos cinemas teve seus acertos – Mulher-Maravilha da Petty Jenkins; O Homem de Aço, de Snyder – mas é triste saber que o melhor filme do estúdio é um que não tem relação com esta linha de tempo – o Coringa de Todd Phillips – portanto, veja o que a diretora chinesa – e estreante em longa-metragem de ficção – Cathy Yan tem que enfrentar: o desafio de conciliar um segmento de filmes bagunçados e com ligações não muito bem elaboradas; além da pressão de agradar os fãs das HQs, sempre fiscalizando freneticamente a fidelidade as histórias originais – e, claro, o preconceito que alguns grupos militantes na internet tem com obras estreladas por protagonistas femininas – estes sim, mais perigosos do que qualquer vilão que Arlequina e sua novas companheiras tem que enfrentar em Gotham City.
A noticia boa é que Cathy se sai bem nessas três questões: primeiro que Aves de Rapina é, realmente, MUITO superior à bomba que David Ayer dirigiu em 2016; segundo que ela consegue inserir muitos elementos que realmente existem nos quadrinhos da DC e, terceiro, o roteiro que ela tem em mãos, escrito por Christina Hodson, não soa como um mero pretexto para inserir personagens femininas em uma trama convencional – erro que Elizabeth Banks cometeu com sua versão de As Panteras ano passado – a construção da história é realmente caprichada em vários aspectos – acertando por preservar uma das poucas coisas boas de Esquadrão Suicida: a Arlequina de Margot Robbie.
Confesso que não tenho muito conhecimento da história original das Aves de Rapina nos quadrinhos – mas conheço um pouco a personalidade de Arlequina pela clássica série animada do Batman dos anos 90 – aliás, onde ela foi criada, já que só depois foi para as HQs – e, com isso, posso dizer que o trabalho de Margot Robbie no papel é realmente acertado – e, desta vez, de uma forma muito melhor – se David Ayer insistia em retratar Arlequina como uma maluca completa que sofria pelo amor não correspondido do Coringa de Jared Leto – chegando a insinuar que Harley só conseguia se imaginar feliz se estivesse com o Príncipe Palhaço do Crime – a abordagem de Cathy Yan foge desse tom machista, sendo muito mais emblemática e justa aqui: desde o inicio do longa, através de uma narração em off de Margot e letreiros explicativos, o filme deixa bem claro que Arlequina está se libertando de uma relação tóxica e sem futuro – o que soa como um belo paralelo com a própria tentativa de evolução deste universo da Warner – como se fosse uma reparação (merecida) pelo resultado precário do longa de Ayer.
A história aqui é quase um tipo de crossover entre Arlequina e as Aves de Rapina, já que, até então, elas não se encontram nas HQs – portanto, agora o foco é como o titulo indica: Arlequina está em busca de emancipação – solteira, mas, claro, ainda no mundo do crime em Gotham City, ela se vê prejudicada quando o termino de seu relacionamento com o Coringa lhe faz perder a imunidade que tinha por ser companheira de um criminoso tão perigoso – como ela parece ter feito coisas erradas com todos na cidade, sua vida fica em risco, principalmente quando destrói o local onde iniciou sua relação com o Sr. C no passado, a Ace Chemicals, que ela não hesita em destruir no impulso da raiva – mas, para azar dela, um dos donos da empresa é o milionário e chefe do crime Roman Sionis (McGregor), que quer a cabeça de Harley – além de estar atrás de um misterioso diamante roubado por uma pequena ladra das ruas de Gotham, a menina Cassandra Cain (Basco) – algo que vai envolver a cantora Dinah Lance (Bell), a misteriosa Caçadora (Winstead) e a detetive policial Renee Montoya (Perez).
Cathy Yan toma a boa decisão de dedicar todo o primeiro ato da história para explicar com mais detalhes a personalidade e passado de cada uma das protagonistas – utilizando-se aqui de uma narrativa não linear, que levemente atrapalha o ritmo desta parte, mas, ainda assim, é funcional o suficiente para envolver no restante da trama – o cuidado com as criações das personagens é realmente promissor – começando por Arlequina, que, como muitas pessoas que passam por um termino de relacionamento, procura tentar se divertir em festas, exagerar na alimentação e ficar chorando em casa no sofá – e, a decisão de levar esses momentos com um toque de humor, faz Margot demonstrar perfeitamente a confusão que faz de sua personagem ser algo tão complexo em termos de moralidade quanto seu ex-namorado famoso – muito além do que apenas uma “versão feminina” do Coringa, a talentosa atriz consegue traduzir os motivos que a levam a ser uma pessoa fora da lei e com um comportamento justificável pelos traumas pelo qual passou na vida (a intro do longa é uma pequena animação contando isso – sem falar que ela chega a romper a quarta parede, ao falar diretamente para a câmera em alguns momentos, como acontecia em Deadpool); tal cuidado ainda permanece nas performances de Rosie Perez como Renee Montoya, passando o ar de como sua personagem se sente infeliz por não receber o crédito pelo talento que tem para investigação criminal – uma leve critica ao machismo no trabalho, além de ser uma personagem assumidamente homossexual, algo novo (e muito bem-vindo como uma inserção de diversidade na obra)para filmes de super-herói; e com a Dinah Lance (a Canário Negro) de Jurnee Smollett-Bell, que compõe o lado de alguém que se vê em um ambiente perigoso e opressor, como o de seu chefe, Roman; e a jovem Ella Jay Basco demonstra sua vida difícil sem ter seus país por perto e vendo nas atitudes de Harley um tipo de opção de futuro para seguir – e merece destaque, é claro, a Caçadora de Mary Elizabeth Winstead, com motivações fortes em seu passado – justificando o comportamento violento e impulsivo de sua personagem, que procura vingança – sem falar que é divertido vê-la tentando soar ameaçadora, no momento em que treina em frente ao espelho, aos moldes do “está falando comigo?” de Robert De Niro em Taxi Driver.
Além das ótimas composições destas protagonistas, Aves de Rapina ainda conta com o ótimo trabalho de Ewan McGregor vivendo o temível Roman Sionis, identidade do vilão Máscara Negra – a atuação do ator britânico se sobressai aos clichês do estilo “mafioso espalhafatoso” pelo fato dele tentar agir feito uma criança mimada – e, realmente, o personagem, é isso mesmo – tentando tornar sua crueldade como resposta a sua insegurança – como na cena que pensa que uma mulher em sua boate riu dele e a faz passar por algo humilhante – sua raiva e vontade implacável de se vingar de Arlequina acabam por convencer – e há ainda o capanga dele, Victor Zsasz, do Chris Messina, como o braço direito ameaçador de Roman.
Aves de Rapina se mostra muito superior à Esquadrão Suicida também em termos visuais – como citei antes, existem letreiros explicativos para vários pequenos personagens que surgem na trama confrontando Harley – que funcionam desta vez pelo simples fato de serem diretos e simples, ajudando na inserção do humor – a direção de arte se mostra apropriada, criando um visual colorido, principalmente na concepção de seus cenários e dos inteligentes figurinos das personagens principais – o destaque fica para as roupas de Arlequina – e como é bom não ter um diretor sexista que insiste em colocar a moça em shorts curtos o tempo todo – as vestes da personagem de Robbie (além de sua maquiagem e corte e cor de seus cabelos) traduzem perfeitamente seus sentimentos e momentos – isso é notório, por exemplo, quando ela, após ser libertada por alguns criminosos e voltar a ativa, usa uma camiseta toda estampada com seu nome, reafirmando sua essência ou o que ela é de verdade, digamos assim.
E, para as cenas de ação, as angulações são extremamente bem feitas, dando distanciamentos adequados das lutas, sem jamais soarem confusas – aliada a montagem que não exagera em cortes – é notória a luta dentro de um grande parque de diversões abandonado próximo ao fim, com pouquíssimos cortes – assim como a primeira aparição da Caçadora em um pequeno restaurante – mesmo que tais momentos movimentados não sejam tão grandiosos como outros filmes da franquia, algumas decisões visuais são realmente muito boas e divertidas – como quando Harley acaba cheirando acidentalmente cocaína e utiliza vários saquinhos desta droga para atacar seus inimigos – além dos ataques dela com armas, que mais parecem saídos da mente da personagem do que feitos na realidade – o filme ainda confere uma violência mais gráfica, como ao sugerir pernas e braços quebrados durante as bem coreografadas lutas – e ainda sobra espaço para um momento de alucinação que a diretora insere enquanto Arlequina é ameaçada pelos capangas de Roman, fazendo uma citação ao clássico dos anos 50, Os Homens Preferem as Loiras, estrelado por Marylin Monroe.
De fato, Aves de Rapina, acerta mais do que erra – mas existem alguns pontos fracos, infelizmente – como em sua trilha-sonora – que, assim como aconteceu em Esquadrão Suicida, tenta inserir muita música pop para ilustrar as situações – a única, que realmente tem alguma função é justamente a que toca na homenagem a Marylin Monroe – “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, e não é um pop – porque o resto é um misto de dubstep ou chill out, sem muita função por trás – e a conclusão da relação de amizade entre Harley e Cassandra parece um tanto inapropriada, considerando certas atitudes de Arlequina antes – além de uma suposta lição que Harley aprende com o dono do local onde mora, o Doc, de Dana Lee – outro problema vem, na verdade, de um acerto: como a narrativa é muito ágil, principalmente em inserir os flashbacks explicativos das origens das personagens principais, quando o filme chega no último ato, é impossível não deixar de sentir uma certa queda de fluência, que prejudica o inicio da ação nesta parte – embora tais momentos justifiquem, de fato, a formação das Aves de Rapina.
Mas convenhamos: vindo de um filme de uma diretora que faz sua estreia nesta máquina fria e cruel que é a indústria do cinema de Hollywood, o resultado do longa se mostra tão grandioso quanto o quilométrico subtítulo – uma eficiente mistura de elementos clássicos das histórias em que se baseia, mesclando humor e toques de filmes de mafiosos – é evidente que é um trabalho que pode desagradar os fãs das histórias em quadrinho originais pelas suas soluções diferentes – além de irritar aqueles militantes que citei mais no inicio – a verdade é que Aves de Rapina funciona quase como um pedido de desculpas da DC e da Warner pelos erros de Esquadrão Suicida – afinal, seus personagens deixam no chinelo o Sr. C daquele trabalho enfadonho de quatro anos atrás – mostrando que criatividade e desenvolvimento de personagens são elementos que qualquer filme, de qualquer gênero, devem manter.
Talvez agora seja o inicio da emancipação do universo da DC/Warner.
Obs.: existe algo que talvez possa ser chamado de “cena pós-crédito”... espere por sua conta e risco!
(e uma critica agora, não ao filme, mas ao departamento de marketing da Warner, que, mais uma vez, revelou nos trailers momentos chaves do filme – novamente dando spoilers em seus teasers, como aconteceu em Batman v Superman e Aquaman).