Com frequência, existe a noção, nos universos distópicos, da completa falta de confiança das pessoas ou, quando não muito, das barreiras postas à confiança. Em cenários distópicos desoladores onde a esperança é um luxo e a fome é uma constante, onde a escassez de recursos é onipresente e incontornável, as pessoas naturalmente se viram umas contra às outras e pensam duas vezes antes de formar alianças e colaborar (para dizer o mínimo). Em Finch, esse dilema é abordado muito bem, delineado de maneira tocante e envolvente, visando passar a mensagem de que, de um jeito ou de outro, e até nos cenários distópicos, a confiança é necessária, porque ela pode salvar você.
O roteiro retrata um protagonista que evita contato com as pessoas, porque as teme e as desaprova e que, portanto, foge delas. “A fome transformou homens em assassinos”. Mas, à medida que o filme transcorre, vemos um propósito muito claro nessa aventura: propor uma reflexão sobre a importância de se unir a outras pessoas para garantir a sua sobrevivência. É nessa perspectiva singular que somos apresentados à ideia de que explorar o mundo e percorrer o desconhecido não é algo negativo. Confiar nas pessoas não é algo mortal.
O roteiro de Finch é inusitado e engenhoso, delineando sutilezas dramáticas profundas em meio a um cenário devastador (muito bem abordado por uma direção equilibrada e lúcida), cidades inabitadas cheias de perigos onde o protagonista reflete sobre nossos dilemas sociais e comunitários mais fundamentais, possivelmente sabendo que deve romper o medo da violência e se aliar a outros, mesmo que relute em fazê-lo devido a uma espécie de “trauma” do fim do mundo.
Encantador em todos os aspectos, Finch firma uma ponte com a sociedade em função de uma mensagem que, ainda que simples, reverbera em nosso pensamento muito depois da última tomada, nos impactando e fazendo dessa jornada uma experiência construtiva.