Chegando ao seu nono filme, Quentin Tarantino, talvez o mais promissor diretor Hollywoodiano desde os anos 90, poderia demonstrar mazelas de um egocentrismo ou maneirismos estéticos e narrativos repetitivos – apenas reciclados por novos personagens e seus diálogos espertos e cativantes, além de sua habitual sanguinolência explicita, que faz com que alguns o considerem quase como um “poeta da violência”. Mas não. Não é apenas isso que Era Uma Vez em... Hollywood quer oferecer – embora tenha isso tudo que citei, o novo filme de Tarantino consegue ser quase que surpreendentemente diferente de seus demais longas, sem jamais deixar de exibir a personalidade de seu cineasta.
Culpa de uma quase desconcertante sensibilidade do diretor, ao lidar com o desenvolvimento de todos os seus personagens – em especial de um deles, que comentarei mais a frente. Embora também sempre faça isso com louvor, sua criação de personalidade para cada papel da história torna-se mais importante aqui, porque demonstra de forma paralela como sonhos e ambições são características cruciais estabelecidas pela sociedade para que alguém possa ser chamado de “bem sucedido” – e, naturalmente, isso ganha peso na própria Hollywood que Tarantino retrata e na que temos na vida real. Ou seja: muito do que sonhamos pode acontecer de fato; mas também existe aquilo que não podemos fazer ou mudar – e nesse tipo de “imaginação”, o cinema tem poder para conseguir faze-lo – afinal, através da arte cinematográfica podemos imaginar um mundo diferente – ou, também, imagina-lo de outra maneira – na maioria das vezes, por boa parte do grande público, de uma forma mais feliz. O tal do escapismo.
Isso não significa que Era Uma Vez em Hollywood seja somente um escapismo – nem de longe: Tarantino monta aqui seu painel sobre uma fase de ouro da indústria do cinema norte-americano, afetada pelo comportamento da contra-cultura do fim dos anos 60 – mais precisamente em 1969, que é onde o diretor nos apresenta aos dois personagens principais: o ator Rick Dalton (DiCaprio) e seu dublê, Cliff Booth (Pitt). O primeiro lutando para manter sua carreira como ator de seriados de TV e o segundo lutando para sobreviver como dublê e ajudante do outro; em meio a isso, o cotidiano dos dois é afetado pelos hippies que perambulam por Los Angeles e outras estrelas e nomes do mundo do cinema da época, como o casal formado pela atriz Sharon Tate (Robbie) e o diretor Roman Polanski (Zawierucha), produtores importantes como Marvin Schwarz (Pacino) e até mesmo o temível Charles Manson (Damon Herriman, que também interpreta Manson no seriado Mindhunter), líder de uma perigosa seita.
Mesclando acontecimentos e personagens reais e fictícios (como também havia feito em Bastardos Inglórios) – Tarantino atinge um resultado que impressiona pela sua leveza, embora seja recheado com altas doses de ironia, sarcasmo, criticas a indústria cinematográfica e violência (curiosamente, este último recurso menos explorado do que anteriormente, mas nada “leve”, como o terceiro ato comprovará) – o diretor abandona suas criticas contra o racismo, por exemplo – preferindo retratar um outro lado perverso da sociedade – no caso, o fanatismo, que ajuda a distorcer certas causas, levando indivíduos a atos lamentáveis. Mas, ainda assim, este não é o foco principal.
O que Quentin pretende fazer aqui é uma homenagem a indústria do cinema – sim, ele já fez isso anteriormente – praticamente em todos os seus filmes – mas aqui ele também deixa sua critica ao lado obscuro deste ramo – seja pela atriz mirim (Julia Butters, incrível) que quer se manter “no personagem” o tempo todo (critica a atores como Jared Leto e seu Coringa, talvez), ou pela arrogância de alguns quando sabem de seu talento para algo – evidentemente com a pequena (e particularmente divertida) participação de Bruce Lee (Moh) – ou por algo refletido brilhantemente na performance de Leonardo DiCaprio, que demonstra perfeitamente a angustia de seu Rick Dalton, quando nota que está ficando para trás por não conseguir papeis de mais destaque – fadado a interpretar apenas vilões na TV (curiosamente, DiCaprio é considerado hoje um dos últimos atores específicos de cinema, afinal, o sucesso e importância de seriados hoje mudou muito este conceito), Rick almeja o cinema, principalmente quando o produtor Marvin Schwarz de Al Pacino (em uma participação que inclusive faz referência a sua clássica cena final de Scarface) lhe dá conselhos sobre sua carreira – “se você continuar sempre apanhando no final dos episódios dos seriados, logo o público não lembrará de você”, diz ele à Dalton – em obvia referencia de que o público (no geral) se simpatiza mais com os “bonzinhos” do que com os vilões – exatamente onde o filme quer chegar: o cinema (e a TV também), tem o poder de “suavizar” a vida real, de tentar transformar o mundo em lugar mais acessível – mesmo que nós já saibamos que não é verdade.
Tudo isso vai se desenrolando pelo longa, em torno de personalidades sempre marcantes e exploradas habilmente pelo diretor – o Cliff Booth de Brad Pitt torna-se simpático, mesmo que truculento as vezes, por mostrar sua lealdade ao amigo Dalton e até mesmo pelo modo como lida com sua cadela de estimação – sem falar que até mesmo a forma como retrata os integrantes da seita de Manson está longe de ser unidimensional – é visível a boa construção e motivações das personagens de Margaret Qualley e de Dakota Johnson, além do Tex de Austin Butler – mas o resultado mais surpreendente desta abordagem de Tarantino reside sobre a personagem de Margot Robbie, Sharon Tate – a atriz falecida é a personagem chave deste longa, e o diretor a conduz de forma absurdamente sensível e respeitosa – ainda mais sabendo do trágico fim da atriz na vida real – a forma como Robbie ressalta a espontaneidade e uma certa timidez e ingenuidade de Tate é algo contagiante – em especial porque se utiliza de pouquíssimos diálogos para ela, compensados pelo olhar expressivo da atriz, como quando ela dança sozinha em seu quarto ou quando vai em uma sessão de cinema ver um filme em que ela tinha participado – momento que traduz perfeitamente o tom de homenagem do filme, além da maneira esperta e digna que o diretor mescla realidade e ficção.
Contando com participações especiais de atores como Kurt Russell e Michael Madsen, além de estrelas já falecidas – como é o caso de Sam Wanamaker (Hammond) e Steve McQueen (vivido por Damian Lewis) – que gera até uma brincadeira imaginando Rick no lugar deste último no clássico Fugindo do Inferno – e embalado por uma trilha-sonora com inúmeros hits da época, uma fotografia bonita, que lembra os filmes coloridos por technicolor, com cores bastante vivas, sem uso de filtros falsos, o filme tem ainda o mérito de ser visualmente dinâmico pela mise-en-scène incorrigível de Tarantino, dando um dinamismo que somente ele consegue dar a cenas de diálogos longas, mas jamais cansativas ou desinteressantes – Era Uma Vez em... Hollywood pode não ser o melhor trabalho do diretor, mas está longe de ser um filme comum – consegue ser diferente de seus demais longas, mas sem perder suas virtudes – é uma obra de um apaixonado por cinema para apaixonados por cinema – que deixa explicito em seu final que a arte é o que nos ajuda a aliviar a vida em meio a um mundo cheio de selvagerias e maldade. Sem dúvidas, o único filme de Tarantino que pode gerar lágrimas ao seu final – tamanho seu amor pelos personagens reais e fictícios envolvidos na história.