Quem me conhece minimamente sabe que Tarantino é um dos cineastas que mais admiro pela miscelânea cinematográfica que atestam seu padrão de qualidade. Seus filmes são sempre surpreendentes na forma com que ele narra suas histórias rocambolescas. Todos seus filmes são excepcionais ao seu modo, o que é algo plenamente admirável e raro na indústria do cinema. Claro que filmes tidos como menores e mais “modestos” como À Prova de Morte e Jackie Brown, que me parecem mais despretensiosos que os demais de sua filmografia, estão ali para mostrar o talento de Tarantino ao dirigir seus atores e mostrar seu talento como roteirista e mestre de cenas violentas. Agora, seus filmes mais famosos e, invariavelmente mais pretensiosos, têm em sua companhia Era Uma Vez Em... Hollywood. Trata-se de uma fábula tarantinesca que demonstra mais uma vez o amor do cineasta por filmes. Ele homenageia e, com seu cinismo habitual, também ri de si mesmo numa ode a Hollywood, mostrando seu lado cruel e lúdico em quase três horas de duração. Além de prezar pela técnica impecável, que desde Kill Bill sobressai aos olhos, ele aqui nos brinda com uma narrativa um tanto irregular, mas ainda assim bem construída devido ao seu talento em contar histórias e prender a atenção mesmo quando não há muita ação envolvida. Seus diálogos até me pareceram mais brandos, embora sempre ácidos e bem pensados. Há cenas extremamente bem construídas que valorizam o trio de protagonistas: Leonardo DiCaprio está mais uma vez excelente, em um personagem bem complexo e difícil, onde retrata um astro em decadência, mas sensível e humanizado, sem o glamour de celebridade que povoa o imaginário da maioria das pessoas; Brad Pitt, com sua canastrice corriqueira, interpretando um dublê eficiente e amigo, que acaba se metendo numa história paralela bem intrigante; e a excepcional Margot Robbie, que além de hipnotizar por sua beleza estonteante, tem um talento extraordinário, e aqui interpreta a atriz Sharon Tate, em franca ascensão em Hollywood, e se torna vizinha do personagem do DiCaprio, ao lado de seu então marido, o famoso cineasta Roman Polanski, com evidente delicadeza e ingenuidade. No demais, participações interessantes de atores meio sumidos como Emile Hirsch, Damian Lewis, Dakota Fanning, o recentemente falecido Luke Perry, Timothy Olyphant, Kurt Russel, Bruce Dern e Al Pacino. Aliás, vale ressaltar que há cenas incrivelmente bem filmadas, mas não darei nenhum spoiler. Embora seja um filme meio lento, e que poderia ser mais enxuto, trata-se de um filme de alta qualidade, que entretém e deixa um final poético, mudando a realidade como ele fez em Bastardos Inglórios, mas de maneira bem mais humana e bonita. Vale muito a conferida.