UM FILME PARA REVISITAR MOMENTOS DE FAMÍLIA
Steven Spielberg é daqueles diretores e cineastas que vira e mexe, gosta de vir com alguma surpresa. E isso aparece em cada filme que dirigiu. Seja na temática das aventuras ou do drama, ele se mostra um craque.
Depois dos costumeiros ‘trailers’ de filmes recomendados para se assistir no grande circuito, Spielberg vem à telona como ele mesmo. Na mensagem, uma importante reflexão de frequentar os cinemas tradicionais – uma senha para o congraçamento e reunião de pessoas para bate-papo?
Com boa bagagem de vida, já é muito manjado o mundo das celebridades lançarem livros ou exibirem suas memórias no rolo do projetor. Spielberg sucumbiu a esta tentação.
“Os Fabelmans” é a materialização dos momentos vividos pelo diretor e sua família numa época que, ainda hoje, traz saudade a várias gerações: os anos 1950.
Sammy é o protagonista e se encanta (ou melhor, fica impactado) com a beleza que o cinema traz nas salas – aliás as grandes salas luxuosas com carpete e muitas cadeiras. Mas, particularmente, uma cena de acidente ferroviário não sai de sua cabeça.
Com o mote de que a vida imita a arte, Sammy procura recriar a mesma cena que viu na sala de cinema em casa. Ele tem um trem de brinquedo. E também uma pequena câmera nas suas mãos.
Inconscientemente, ele une o útil ao agradável. Tem o apoio da mãe, uma pianista que guarda um segredo que será revelado nas edições/cortes dos filmes caseiros de Sammy. Já o pai é ligado ao que hoje se consideraria os primórdios da informática.
Justamente será por motivo de assumir novos cargos que o pai e a família vão se mudar mais de uma vez. De New Jersey para a ensolarada Arizona. E, um pouco mais adiante, para a Califórnia.
Nesse salto, Sammy e todos vivem momentos felizes no primeiro pulo, em Phoenix. Porém, a Califórnia se traduzirá em desafios, superações, descobertas e, claro, mais quilos e quilos de celulose produzidos.
Aos poucos, temas como o antissemitismo, o avanço tecnológico nos equipamentos para se produzir filmes e relações estáveis (outras nem tanto) ganham forma.
Ah! Aliás uma dica: tente achar uma cena em que o sucesso “E.T – o Extraterrestre” é lembrado em “Os Fabelmans”.
Spielberg derrama seu diário íntimo e o compartilha com o espectador da poltrona em mais de duas horas. Ao contrário do que se imagina, não é um dramalhão carregado. A cada evolução de cena, mais surge a vontade do que vai acontecer em seguida.
Há trechos em que um filme está dentro de outro filme: coisas que poucos, como Spielberg, dominam. Isso beira a um milagre. Tecnicamente seria a sobreposição de realidades?!
Só fica a expectativa de quando o garoto formado no colegial e convidado para fazer o filme de sua turma vai tomar seu destino em suas mãos.
Mesmo numa aparição relâmpago, o colega de profissão de Steven Spielberg, David Lynch, faz uma atuação de John Ford firme e decisiva nos rumos de um garoto que sofreu “bullying”, quando não existia nem a palavra e nem o conceito.
Se Michelle Williams nunca ganhou o Oscar, seria um bom momento para tal. O mesmo seria válido para Spielberg, pois é uma vergonha que a Academia nunca o reconheceu como cineasta que tem talento para dar e vender. Ao menos, um gesto pelo conjunto da obra, já que “Os Fabelmans” não seria a justificativa ideal para arrebatar a estatueta. Não quer dizer também que não deixa de ter qualidade (ótima, por sinal). Coisas de “bullying” moderno e direcionado para adultos.