Por trás de manchetes de jornais, noticias de telejornais e as tradicionais fofocas entre as pessoas, geralmente, sempre existe um lado que ninguém conhece ou entenda – o intimo e o pessoal de uma pessoa é algo que talvez apenas ela compreenda – sendo assim, fui assistir este novo filme do diretor Craig Gillespie (A Hora do Espanto, Horas Decisivas) sem saber muito bem quem era Tonya Harding – e, à medida que a narrativa prosseguia, comecei a me lembrar (alguns “flashs” na memória) sobre o escândalo em que a ex-patinadora de gelo olímpica se envolveu em 1994 – sua história repercutiu no mundo todo, mas a única coisa que eu me lembrava (vagamente, porque eu tinha apenas seis anos de idade na época) eram as noticias e manchetes nos telejornais, sempre acusando a esportista.
Pois Eu, Tonya vem agora para mostrar o lado supostamente mais real e humano da história – que, ao contrário das abordagens televisivas e jornalísticas, realmente tenta explicar quem é a Tonya verdadeira, aqui interpretada por Margot Robbie (também produtora), na fase adolescente e adulta. Através de flashbacks, vários personagens envolvidos na história toda vão dando seus pontos de vistas e contando o que aconteceu, desde a infância de Tonya (interpretada aqui pela pequena McKenna Grace), quando sua mãe, LaVona (Janney), a coloca para treinar patinação no gelo – mesmo a menina tendo apenas quatro anos de idade – exigindo muito, em treinamentos exaustivos e realmente pesados – que vão remeter, obviamente, a um treinamento de lutador de boxe (há uma leve brincadeira com esse tipo de cena nos filmes do Rocky Balboa); sendo assim, Tonya se torna, com apenas quinze anos, uma das melhores patinadoras dos Estados Unidos, participando de vários campeonatos – mas ao iniciar um romance (que culminaria em um relacionamento mais sério futuramente) com Jeff (Stan) sua relação com sua mãe piora – as brigas entre mãe e filha começam a ficar mais violentas – verbal e fisicamente – mas, ao ir morar com Jeff, mal sabe Tonya que tudo ficaria ainda pior – fazendo com o que o comportamento e psicológico dela fiquem desestabilizados, principalmente quando uma concorrente surge e ameaça o lugar dela na equipe norte-americana que iria entrar nas olimpíadas de inverno.
Acertando em mostrar a narrativa como um documentário – reproduzindo entrevistas reais de forma muito parecidas com as originais, o diretor ainda se dá bem em usar em alguns momentos o recurso da metalinguagem, com os atores parando de atuar para explicar certos pontos de vista – isso é importantíssimo, principalmente nas discussões sobre os abusos que Tonya sofria de seu companheiro Jeff, se revelando um homem bastante inseguro, impulsivo e agressivo pela atuação fechada e contida de Sebastian Stan (o Buck dos filmes do Capitão América) – existem coadjuvantes que ainda impressionam, como amigo de Jeff, interpretado por Paul Water Hauser, que sofre por seu impulso em contar mentiras a respeito de seu passado e profissão – ele é um típico nerd que não sai de casa, mas diz a todos que trabalhou nas forças armadas – mesmo que seja um recurso manjado, é interessante ver como algumas caracterizações são idênticas aos originais através da inserção de imagens de arquivo televisivo ao final.
Mas, ao mesmo modo como Greta Gerwig faz em Lady Bird, o que movimenta e prende o arco dramático em Eu, Tonya se dá com a relação tempestuosa entre mãe e filha – enquanto Margot Robbie demonstra uma compenetração absurda e realista da evolução física e mental de Tonya – ajudada por maquiagens sutis, mudanças no penteado e até o uso de aparelho dental, em usos acertados da equipe de maquiagem e figurinos, também – temos também a atuação incrivelmente áspera e cínica de Allison Janney como LaVona, demonstrando a rigidez de uma mãe que pensa estar criando sua filha de uma forma que a faça forte no futuro, porém, sem ter um consentimento de que a falta da demonstração de amor poderia afetar negativamente Tonya – basta citar que o único momento em que realmente a relação das duas parece envolver algum sentimento bonito e emocionante, é cortado instantes após com uma revelação decepcionante – tal cena é realmente de cortar o coração, principalmente pela forma calorosa como Margot demonstra seus sentimentos – revelando como ela é um talento verdadeiro.
Tecnicamente muito bem criado, o visual do longa ganha pontos por uma fotografia clara e objetiva, revelando angulações fechadas nos momentos íntimos e movimentos de câmera muito bem ensaiados para as cenas de patinação, servindo para mostrar como Tonya se esforçava ao máximo em suas manobras no gelo – algo que lembra muito a maneira visceral que Darren Aronovsky mostrava os ensaios de ballet em O Cisne Negro – perdendo ponto aqui pelo fato de que, em certos pontos, fica evidente como Margot Robbie é substituída por alguma dublê, entre um take ou um movimento de câmera e outro – mas, ainda assim, servindo para mostrar toda a energia e fúria de sua protagonista – ajudada por uma montagem ágil para os momentos dialogados e tais cenas de competição – existe ainda um bom uso de músicas dos anos 80 e 90 para ajudar na exemplificação das passagens dos anos, auxiliando narrativa e montagem.
Dando uma visão bastante subjetiva para o incidente em que Tonya se envolveu (como ela mesma ressalta, “a parte que vocês vieram aqui ver”), o filme não é maniqueísta a ponto de julgar os certos e errados, fugindo desse moralismo barato e insistindo em apresentar os fatos para que o espectador possa (ou não) julgar sua personagem principal – assim como dos demais personagens que se envolveram no suposto atentado de atrapalhar a rival de Tonya.
Essa ênfase em mostrar um lado humano e verossímil de sua protagonista, transforma Eu, Tonya em um belo exemplo de biografia, que funciona exatamente por evitar o sensacionalismo barato que a impressa colocou em cima da ex-esportista – fazendo aquelas leves memórias minhas ganharem um novo sentido – um sentido, creio eu, mais justo e real do que a língua de jornalistas e noticiários interessados apenas em julgar a vida de alguém, com seus esforços e desavenças, que somente essas vidas poderiam entender ao certo o que as motivou, por atitudes impensadas e irracionais que qualquer ser humano poderia ter.