Ducournau transforma a Universidade do seu filme em um palco para discussão de tudo o que considera de problemático na sociedade. O grande problema disso é como essas recorrentes abordagens ao longo do filme vão dissipando a potência do body horror no tema central de sua narrativa.
Parece evidente uma alegoria presente nessa relação da protagonista com a carne. Sua "libertação" de uma alimentação até então restrita dialoga diretamente com o processo de descoberta que é característico da entrada no meio universitário. A libertação do âmbito familiar se dá pelo mundo de novidades presente nessa nova etapa da vida de Justine. Contudo, essa carga sugestiva não recebe o devido tratamento cênico, muito pela maneira breve em que o filme aborda o horror explícito. Além das resoluções das cenas serem insuficientes, o que se segue na narrativa é geralmente alguma discussão mal desenvolvida acerca dos temas que concernem esse ambiente criado pela diretora.
A única cena que realmente funciona bem no body horror é da protagonista comendo o dedo da irmã. Ducournau consegue explorar efetivamente aqui o pavor do acontecimento e o conflito interno de Justine que, gradualmente na cena, dão lugar à obsessão descontrolada perante a carne. Já, no restante da obra, essas cenas não possuem a mesma condução. A diretora gosta de mostrar os ferimentos, o corpo dilacerado, mas os atos em si dessa violência animalesca são, em muitos momentos, suprimidos ou resolvidos de maneira muito vaga.
Chama a atenção como o filme se inicia numa cena de emboscada, algo que se repetirá em um contexto diferente mais adiante, mas a sugestão de importância desse episódio não passa mesmo do recurso de montagem. Quando a irmã de Justine força novamente um acidente na estrada, a resolução da cena é breve e pouco importante dentro de tudo o que o filme tenta abordar antes e depois desse acontecido.
Alguns recursos soam utilitaristas em demasia. A própria cena em que é revelado a Justine, via vídeo, o que havia acontecido na noite anterior, soa muito mais como uma necessidade do filme em estabelecer o conflito da cena seguinte do que realmente algo que funcione dramaticamente em cena. Além disso, a maneira como a diretora lida com as cenas de multidão, alternando uma decupagem deslocalizadora com uma câmera lenta que tenta ser lírica, soa didática e mal resolvida pela montagem.
O ponto mais interessante mesmo está na construção dessa personagem que tenta ser muito amigável (aquele sorrisinho de boca fechada vira o maior indicativo de sua personalidade), em face a um mundo de pessoas embrutecidas. O que já se inicia na sua relação de frieza com os pais, recebe uma ampliação que alça o filme a um nível absurdo nesse sentido nas cenas envolvendo o seu professor (quase um Caligari na sua caracterização) e o velho no hospital com a dentadura. É como se Ducournau exagerasse deliberadamente esse mundo externo à protagonista, de modo a ampliar os seus conflitos internos. Infelizmente, quando a narrativa dá progressivamente maior espaço à dinâmica entre as duas irmãs, Raw renega boa parte de seu potencial em prol de uma alternância pouco articulada entre o body horror e a crítica social.