Mãe! é um filme difícil de se acompanhar. Mas também é um filme fácil de acompanhar. Tanto quanto em outros de seus trabalhos – como Réquiem para Um Sonho, O Lutador, Cisne Negro ou Noé – este novo longa do renomado cineasta e roteirista Darren Aronofsky consegue ser um filme ao mesmo tempo simples e ao mesmo tempo complexo, profundo e lotado de simbolismos e metáforas sobre temas comuns a todos os seres humanos. Mas o melhor de tudo é que o espectador conseguirá aprecia-lo mesmo que não compreenda todos os seus pontos e ideias expressas em suas quase duas horas de projeção – dado o imenso talento do diretor em conferir uma dinâmica quase absurda em sua câmera – com movimentos, cortes e ritmos precisos – aos moldes do perfeccionismo que o cineasta havia exibido em Cisne Negro.
Não é a toa que Mãe! tem um trabalho de som que beira a perfeição – seja por ruídos de madeiras rangendo, portas se mexendo, o vento balançando a vegetação próxima a casa dos personagens principais – enfim, até o silêncio tem sua função dentro de um filme que não tem uma trilha-sonora musical – na verdade, a trilha – da mesma forma que o mestre Alfred Hitchcock fez em Os Pássaros – são os próprios efeitos sonoros. Além de um visual incrivelmente bem dosado de cores e tons em sua fotografia – a casa em que se passa toda a história realmente parece ser um ser vivo. E esse domínio completo da sétima arte, possibilita que Afonofsky conte uma trama tão simples de um jeito tão espetacular e visceral – como poucos diretores conseguem.
Antes de qualquer coisa: Mãe! é um filme de arte. Se você procura um filme de suspense comum ou propenso ao gênero terror, é melhor procurar outro longa para assistir. Mesmo que estruturalmente lembre muito o clássico do terror O Bebê de Rosemary, de Roman Polansky (que, inclusive, também nos faz lembrar da famosa trilogia do apartamento deste veterano cineasta), o novo trabalho de Aronofsky é um grande drama psicológico sobre um casal que vive em uma casa no campo. Composto por uma jovem (vivida por Jennifer Lawrence, e apenas mencionada como Mãe nos créditos) e um poeta (interpretado por Javier Bardem, e apenas citado como Ele), o casal tem sua paz dissipada com a chegada de um visitante, um Homem (Harris) misterioso, que, logo depois, trás para casa uma Mulher (Pfeiffer) – fazendo com que a Mãe fique desconfiada das intenções do casal visitante e da mudança de comportamento de seu marido – que passa por uma crise criativa para escrever seus poemas – principalmente por estar se recuperando de um terrível incêndio que enfrentou na casa anteriormente.
Com atuações excelentes de todo o elenco, principalmente de Jennifer, que consegue passar a inquietação e incomodo pelas visitas cada vez mais inesperadas a casa e de uma absurdamente irônica e quase insuportável (e talvez por isso marcante) Michelle Pfeiffer, os atores conseguem ir muito além do que seus personagens representam – sendo muito mais do que meros símbolos e metáforas (que discutirei mais a frente) – como é o caso do sempre intenso Javier Bardem e o veterano Ed Harris – passando ainda pela presença rápida, mas extremamente interessante (e importante) dos irmãos (dentro e fora do filme)Brian e Domhnall Gleeson.
ALERTA! SPOILERS à frente! Não é recomendável ler os próximos parágrafos caso você ainda não tenha assistido o filme
Os atores poderiam ser meros bonecos na mão de um diretor que não tivesse experiência ou estilo visual e narrativo para conduzir uma trama tão cheia de possibilidades e mensagens iguais as de Mãe! Através deste plot simples, Aronofsky traça toda a história da humanidade, desde seu nascimento, passando por inúmeros conflitos que o ser humano criou, até chegar ao apocalipse. Obviamente, trata-se de um fundo extremamente religioso ou critico ao religioso – pois não precisamos ser nenhum Sherlock Holmes para notarmos que os personagens de Jennifer e Bardem representam, respectivamente, a Mãe Natureza (e/ou a Virgem Maria) e Deus.
Sendo assim, o filme começa mostrando uma mulher (que não é a Jennifer Lawrence) morrendo em meio às chamas – para, logo em seguida, mostrar a casa (que representa a terra ou a própria natureza, também) sendo reconstruída, através de um cristal que representa o “fruto do conhecimento”, após um incêndio. Desta maneira, o filme indica que Deus acabou de criar o mundo, despertando a Mãe Natureza, que, convenientemente, desperta e levanta da cama, caminhando até a porta da casa, mas sem sair – afinal, ali é o paraíso e ela não consegue sair – com Deus logo chegando e a impedindo de terminar de passar pela porta.
Presa na casa e sem intenção de sair dali, a Mãe Natureza parece apenas trabalhar para Deus – pintando a casa e ajudando o “criador” com seus planos – ainda que sinta algo errado acontecendo – mostrado através da forma como ela toca as paredes e visualiza um coração (de bebê?) batendo – cada vez mais lentamente à medida que o filme avança – representando, possivelmente, o estado da natureza e da terra mesmo.
Com a chegada do Homem e da Mulher – que fazem a metáfora mais obvia do filme, ao representarem, respectivamente, Adão e Eva – com direito a passagem onde Deus parece ter tirado a costela de Adão, para criar Eva/Lilith, já que a personagem de Michelle Pfeiffer aparece após isso – algo que Aronofsky já havia “brincado” em Noé – as coisas começam a perder o controle e a Mãe passa a sofrer por isso – oras, e os homens sempre incomodaram a natureza, não é mesmo? Principalmente ao notar que Deus está mais interessado em dar atenção à família do Homem do que a ela – que, ainda sim, quer cooperar com Ele e tenta impedir que os visitantes adentrem no quarto do personagem de Bardem – quarto este que representa o Jardim do Éden, onde Adão e Eva consomem o fruto proibido – aqui representado pelo fato de quebrarem o cristal que Ele havia guardado no quarto – fazendo com que Adão e Eva sejam expulsos da casa/paraíso.
Pensando que agora as coisas voltariam ao normal, a Mãe é surpreendida pela visita dos irmãos que representam os filhos de Adão e Eva, Abel e Caim, que acabam por brigar e fazendo Abel ser morto por Caim – em uma cena onde o sangue de Abel escorre pelo piso do quarto e entra até o subsolo, onde a Mãe, posteriormente, irá encontrar o instrumento para o apocalipse – representado aqui pela enorme fornalha no solo da casa - e sendo uma alusão clara ao fato de que o homem matar seu semelhante nos leva a um caminho de destruição – que vai contra nossa inteligência – demonstrado pelo sangue escorrendo sobre uma lâmpada (sabedoria), que acaba explodindo (deixando de existir) graças ao choque que leva com o sangue gerado pela violência no mundo.
A partir daí, Deus começa a tentar dar mais atenção à Mãe – momento no qual Aronofsky parece soar uma critica quanto a divindade que o catolicismo dá a genitora de Jesus Cristo – escarado na hora em que a Mãe diz a Ele: “Você quer que eu seja uma mãe mas nem transa comigo”. Eis o amago do filme: Deus precisa do amor da Mãe para existir. Sem a natureza ao seu lado ele não pode concretizar seus planos – mas, como o diretor insinuou em Noé também, Deus aparenta ser uma figura vaidosa – que necessita de “plateia” ou atenção – e, logo após saber que a Mãe estava gravida, consegue inspiração para escrever um poema maravilhoso – que nem sequer é mostrado, na intenção de refletir o conforto das palavras do evangelho sobre as pessoas – que passam a querer entrar na casa para seguir Deus – mesmo que viole o ambiente (natureza) da forma que bem queiram e sabem que estão prejudicando – passado pela forma como a personagem de Lawrence pede inúmeras vezes para os seguidores/visitantes não se apoiarem na pia de cozinha, que não está chumbada, sendo fácil de quebrar.
A partir daí que o filme pode parecer uma loucura – ou melhor, um pesadelo – e está é claramente a intenção do diretor – especialmente através do trabalho de som inquietante e barulhento aqui – ao mostrar a casa tomada pelos homens – representando o fanatismo religioso e as interpretações erradas que a bíblia teve através da história da humanidade – gerando guerras e conflitos entre os seres humanos – a personagem de Kristen Wiig (a editora que publica os poemas dEle), representa muito bem isso, assim como os soldados que invadem a casa – alguns maltratando a Mãe (aqueles que não acreditam na Virgem Maria) e outros defendendo (católicos).
Enfim, a Mãe concebe seu filho – sob o olhar onipresente de Deus – que não hesitará em mostrar seu filho como um salvador/herói – que o povo interpretará da forma que bem entender – revelando aqui o momento mais chocante de todo o filme, onde o bebê recém-nascido acaba tendo o pescoço cruelmente quebrado pela multidão – através de um efeito sonoro angustiante – e, antes ainda, urinando sobre as pessoas – expressando algum tipo de doutrinação errada sobre os homens, talvez? E, ao mostrar as pessoas devorando a carne da criança, o diretor representa de forma pitoresca o fanatismo religioso mundo a fora.
Finalmente, a Mãe se revolta – pois em algum ponto (através do aquecimento global, poluição, queimadas, etc) a natureza se voltará contra o homem – e ela acaba por matar e ferir as pessoas, consumida pela raiva por ter perdido seu filho – mas o ser humano não deixa de se defender e, violentamente, agride a Mãe – através de uma trucagem intensa, onde Jennifer Lawrence parece realmente levar chutes e socos no rosto. Deus, ainda assim, quer que ela perdoe os humanos por seus erros – mas já seria tarde e a Mãe acaba causando o apocalipse, matando todos dentro da casa e se ferindo gravemente – mas, antes de morrer, acaba dando seu amor (coração) a Deus – algo que possibilita que o criador se motive a continuar e comece um novo plano – conforme mostrado pela reconstituição da casa e o despertar de uma outra mulher – da mesma forma que a Mãe abre o longa – e indicando que se inicia mais um plano de Deus – que parece ser algo continuo.
fim dos SPOILERS
Em meio a tudo isso, o filme vai além de ser uma mera critica a bíblia ou a crença em Deus – ele também pode ser interpretado como uma visão sobre a submissão impostas as mulheres – que ainda sofrem por ficarem a mercê dos homens – consumidas e abaladas pelo machismo, onde homens parecem colocar as mulheres como meros objetivos para se motivarem ou ficarem felizes na vida. A verdade é que Aronofsky apenas expõe alguns de seus questionamentos e pensamentos sobre o assunto e tema, deixando o espectador captar a mensagem da melhor forma que puder e, ainda assim, poder também apreciar o filme como entretenimento apenas – e, assim como o cineasta brasileiro Glauber Rocha dizia sobre seus longas, Mãe! acaba sendo mais um filme para ser visto do que comentado – afinal, poderá gerar diversas interpretações – como a desta humilde pessoa que vós escreve.
Dentre os filmes lançados em circuito comercial este ano, com certeza é o melhor e mais criativo até o momento.