*Atenção! O texto contém spoilers! Se não assistiu ao filme, aconselho a não ler a resenha crítica.
De uma coisa é certa: fazia tempo que o cinema não via um filme ser tão discutido quanto Mãe!, obra dirigida e escrita por Darren Aronofsky. Ao mesmo tempo em que a discussão é muito bem-vinda, uma vez que faz parte do papel do cinema, como forma artística, incentivar a discussão e a reflexão sobre os temas que trata; ao mesmo tempo, fica aquela pulga atrás na orelha: será que Aronofsky planejou esse filme intencionalmente, de maneira a que Mãe! ficasse totalmente no centro das discussões?
Tentar vislumbrar qualquer um desses planos é justamente entrar no jogo do diretor. A verdade é que Aronofsky fez Mãe! para que cada um pudesse interpretá-lo da sua própria maneira. Fugindo, então, dos preceitos comuns, que ligam a obra aos conceitos bíblicos e à relação com a mãe natureza, eis aqui a maneira como enxergamos Mãe!
O filme se centra na figura de um casal (Jennifer Lawrence e Javier Bardem), que mora numa casa isolada em uma área bastante arborizada e, aparentemente, calma e pacífica. A rotina deles é bastante simples: enquanto ela vive para os afazeres domésticos, ele se dedica aos escritos – a obra deixa subentendida que ele é um poeta que passa por uma crise de criação, após um trabalho muito bem-sucedido.
A história de Mãe! nos é contada do ponto de vista da mulher/esposa. Neste sentido, acredito que o filme trata do relacionamento que ela possui com o homem/marido, especialmente o papel dela como inspiradora da criação dele. Não como musa, mas sim, como a facilitadora de todo um ambiente para que ele tenha a tranquilidade necessária para criar e compor uma nova – e linda – poesia. A mulher/esposa é retratada como o alicerce emocional de seu esposo, não à toa ela é a responsável por cuidar e cultivar da casa deles com muito amor, cuidado e carinho (vejo a casa como um terceiro personagem principal, que representa o relacionamento que homem e mulher possuem).
Talvez, por isso mesmo, surpreenda a visão um tanto machista de Aronofsky sobre a personagem interpretada por Jennifer Lawrence. A mulher/esposa é retratada como alguém que vive para o homem/marido, sendo quase uma prisioneira do local onde eles vivem (prestem atenção que, no decorrer de Mãe!, em nenhum momento, ela se ausenta daquele ambiente); e, pior, tendo as suas vontades totalmente relegadas pelo marido – que nunca ouve a sua opinião, principalmente, quando estranhos invadem a casa e movimentam a rotina pacífica que os dois dividem. Enquanto isso, o homem/marido submete a sua esposa a todo tipo de transtorno emocional e abusos psicológicos, abandonando-a nos momentos em que ela mais precisava dele.
Em consequência disso, quando tudo se resume às cinzas, enxergo isso como uma metáfora sobre os desgastes que vão minando pouco a pouco até levarem ao fim de um relacionamento amoroso. Essa visão ganha ainda mais sentido quando percebemos que, após todos os cacos serem juntados, e o que restou do coração for recuperado, há uma reconstrução de tudo aquilo que foi destruído e uma nova história, com uma nova mulher/esposa/musa, é reiniciada. Ou seja, apesar de Mãe! retratar o quão doentio um relacionamento pode ser, existe uma visão final bastante otimista do amor, uma vez que se é dada uma nova chance ao sentimento.
Devemos, então, analisar Mãe! sob dois princípios diferentes. O primeiro deles, é o estético. Nesse ponto, Aronosfky foi quase perfeito, uma vez que o filme é muito bem feito, especialmente quando observamos o trabalho desenvolvido com a atuação sensacional de Jennifer Lawrence, pela direção de fotografia de Matthew Libatique, pela trilha sonora composta por Jóhan Jóhannsson e Clint Mansell e pelos efeitos sonoros da obra. O segundo deles leva em consideração a história e, aqui, é onde Aronofsky mais peca: durante boa parte de Mãe!, o filme perde totalmente o contato com a realidade e, pior, com a sua identidade – sem saber a que gênero pertence. Isso fica ainda mais claro quando o diretor passa totalmente a bola para a plateia tentar juntar as pistas e fazer com que a trama do filme ganhe sentido. Aronofsky pode mais – e ficou devendo – e muito – neste longa!