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Nelson J
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1.983 críticas
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2,5
Enviada em 14 de maio de 2017
Rapaz após 11 anos longe vai visitar sua família para dizer que irá morrer, mas a sua personalidade evasiva, dispersiva e sua atitude de evitar confrontos impedem o seu intento, trazendo a luz toda a dificuldade de comunicação da família. Boa interpretação do protagonista em filme repleto de estrelas, mas que não flui.
Este filme é um estudo de personagem. E o personagem em questão é a família. Qualquer família. Ao mostrar os rancores gerados pela volta do filho pródigo, Xavier Dolan expõe mais uma vez seu lado pessoal, mas também o universaliza, em um trabalho simples, mas eficaz. Um tiro certeiro nas emoções humanas.
Xavier Dolan é considerado um menino prodígio na indústria cinematográfica. O canadense de apenas 27 anos, já fez 7 filmes como diretor (a maioria estrelado pelo próprio), além de roteirizar e produzir seus filmes. Em 2009 já lançou de cara um filmaço, chamado Eu Matei Minha Mãe (sendo premiado em Cannes), e no ano seguinte lançou o também interessantíssimo Amores Imaginários. Ele ainda dirigiu o famoso clipe de Hello, interpretado pela Adele. Esse é o terceiro filme dele que vejo, e agora ele não aparece em cena, mas em compensação, o elenco é extraordinário. Ele conseguiu reunir alguns dos atores mais relevantes do cinema francês atual: Marion Cotillard (atriz que eu adoro!), Léa Seydoux, Vincent Cassel, Nathalie Baye e Gaspard Ulliel. O filme conta uma história bem simples: Louis (Ulliel, excepcional em cena) é um escritor na casa dos 30 anos de idade, que volta para a casa depois de 12 anos afastado. Lá ele reencontra a mãe (Baye), a irmã mais nova (Seydoux), o irmão mais velho (Cassel) e a cunhada (Cotillard). O propósito de Louis é contar a todos que está doente e não terá muito tempo de vida, mas esse encontro familiar trará à tona várias recordações do passado e discussões sobre a vida. O plot pode não ser dos melhores, mas Dolan sabe como poucos tratar de dramas familiares. Os diálogos são muito bem desenvolvidos (baseado numa peça de teatro) e os personagens são intensos e bem delineados. Talvez a que menos tem chance de brilhar é Cotillard, já que a ganhadora do Oscar tem a personagem mais intimista do longa. Os outros atores têm cenas bem marcantes, e chamam a atenção. O personagem de Cassel é muito chato e irritante, embora cabível no desenvolvimento da história. Seydoux e Bahe estão estupendas, no limiar de loucura e doçura, mas é mesmo Ulliel quem rouba a cena com seu protagonista. Um homem marcado por suas escolhas e que tem no ator uma interpretação irretocável. Trata-se de um filme de atores e de direção, que pode não agradar muita gente. Muitos closes nos atores – que chegam a causar um ar intencional de claustrofobia – podem cansar um pouco depois de um tempo. A narrativa pode parecer também um pouco lenta, e o final é questionável, embora plausível. Houve um casal que estava ao meu lado que se questionava reciprocamente: “Você entendeu?”, depois que os créditos surgiram na tela. Apesar de alguns momentos aparentemente desnecessários, o filme tem muito mais aspectos positivos que negativos, tornando-se um belo exemplar para aqueles que curtem um cenário mais alternativo.
Vou para o lado dos que não gostaram do filme, o problema não é o conflito familiar em si, mas a forma que é conduzido. Os diálogos são demorados, arrastados e meio desconexos. A impressão é que todos estão chapados e vivendo um pesadelo. É um filme exaustivo, curto mas parece interminável. Acho que esse não ganha o Oscar nem com reza brava.
Xavier Dolan continua sabendo como inserir uma música em uma cena, e como aproveitar a trilha-sonora a favor de um filme, de modo que ela acrescente e consiga fazer cenas belíssimas ao mesmo tempo. Mas, em diversos momentos do filme eu me peguei divagando sobre como ele ainda não conseguiu abandonar os maneirismos que fizeram sua fama, e lhe trouxeram haters na mesma medida. Há cenas e sequências bem desnecessárias mesmo, como aquela em que Louis olha uma série de cartões postais enviados por ele que sua irmã guardava: o diretor acelera a cena, sem mais nem menos, para dar um efeito de urgência que é completamente desnecessário, e, também sem mais nem menos, termina com o recurso. Escolhas como essa resultando numa montagem um tanto quanto bagunçada, em um filme que é, essencial e claramente, redescoberto na montagem.
No mais, os atores não estão em estado de graça, e mesmo os destaques, como Ulliel e Cotillard, estão apenas corretos em seus papeis. Seydoux, por exemplo, eu achei um belo de um miscast: ela jamais me convenceu fazendo uma personagem bem mais nova que ela. Apesar dessas coisas todas, Dolan é muito bem sucedido em sua própria intenção de afastar o filme do estigma de teatro filmado ao concentrar quase todos os seus esforços como diretor em focar os personagens, mas focar muito mesmo, de modo que quase toda a ação do filme seja passada por meio de planos fechadíssimos no rosto dos atores. Isso, além do óbvio, expõe os personagens (os atores têm, além de tudo, pouquíssima maquiagem) e suas idiossincrasias, fazendo um dança orquestrada com o roteiro, e aquelas personalidades todas, tão contraditórias.
Entretanto, o roteiro é fraco demais. E se esse filme é fiel à peça de Jean-Luc Lagarce, o texto, sinceramente, é muito ruim! Os personagens são rasos e seus problemas e diferenças são porcamente aproveitados. É impossível se sentir próximo de qualquer um deles, pelo bem e pelo mal, e tem alguns dos personagens mais irritantes do ano, encabeçado pelo Antoine, do Vincent Cassel, que é absolutamente insuportável. E não de um jeito bom. Os personagens, mesmo em seus diálogos sozinhos com o protagonista - todos eles têm -, não dizem muito além de divagações inuteis sobre a vida e sobre o quanto a presença de Louis lhes afeta. É inacreditável que ninguém reaja de maneira realmente incisiva à figura sempre intragável de Antoine. E o Dolan até se esforça em "É Apenas o Fim do Mundo", com uma bela fotografia, as escolhas de enquadramento, mise en scene e tudo o mais, mas seria muito difícil fazer algo com um material tão fraco em mãos. Por mais que seja um material pelo qual você é apaixonado.
Xavier Dolan - um dos melhores diretores do mundo, juntamente com Wim Wenders e Woody Allen - faz um ótimo filme sobre a densidade trágica da dinâmica neurótica de uma família (sua temática preferida). Excelentes diálogos e atuações, além de sua já tradicional câmera esteticamente singular. Lembra o peso de "Sonata de Outono" (Bergman), especialmente nas cenas protagonizadas por Vincent Cassel ("Irreversível", "O Apartamento"), sempre brilhante. Exaure o espectador pela claustrofobia bergmaniana, apesar de suas colorações almodovarianas.
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