A franquia Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado está de volta aos cinemas, após o seu surgimento em 1997, uma sequência em 1998 e uma tentativa de reboot em 2006, que foi tão fraca que acabou lançada diretamente em DVD. Além disso, tivemos uma série produzida pelo Prime Video em 2021, cancelada após uma única temporada. Eis que chegamos à terceira tentativa de um reboot — se é que podemos chamar assim, já que nem o próprio filme sabe o que quer ser. Para comandar o projeto, foi chamada a diretora Jennifer Kaytin Robinson, que não tem muitas produções de renome em seu currículo, com Justiceiras como seu título de maior destaque, além de ter trabalhado no roteiro de Thor: Amor e Trovão — o filme que praticamente decretou o fim do prestígio de Taika Waititi, tanto no MCU quanto em sua carreira, após alguns bons trabalhos.
A intenção aqui era trazer um novo elenco, mais carismático, mais jovem e mais alinhado aos padrões atuais. Madelyn Cline, Chase Sui Wonders, Jonah Hauer-King, Tyriq Withers e Sarah Pidgeon compõem esse novo núcleo. E temos também os retornos de Freddie Prinze Jr., Jennifer Love Hewitt e até mesmo Sarah Michelle Gellar. E é aqui que surge o primeiro grande problema do filme: Jennifer Kaytin Robinson tenta fazer deste longa um reboot, tentando trazer um novo fôlego para a franquia — algo necessário —, mas ao mesmo tempo tenta prestar homenagens aos dois primeiros filmes dos anos 90. E essa proposta, na minha visão, é a mais prejudicial ao resultado final.
Enquanto ela recria cenas e diálogos idênticos aos do filme de 1997, também tenta inovar e adaptar a franquia para a nova geração. Isso gera um contraste artificial na narrativa, perceptível até mesmo para os espectadores menos atentos. É como se ela quisesse inovar, mas não tivesse coragem o suficiente para se desprender do passado — seja por insegurança, por ainda não ter respaldo como diretora, ou por pressões criativas do estúdio.
Quando se tenta prestar homenagem a uma franquia que teve, sim, certa relevância para a consolidação do gênero slasher em Hollywood, é preciso lembrar que essa mesma franquia já carecia, desde o início, de uma construção sólida — principalmente no que diz respeito à mitologia do Homem do Gancho. O filme de 1997 entrega uma história com início, meio e fim. Já a sequência de 1998 enfraquece essa figura ao trazer o antagonista de volta sem uma justificativa bem desenvolvida. O mesmo erro se repete aqui. Ao tentar estabelecer uma nova história com um novo elenco, mas ao mesmo tempo se apoiar na nostalgia e nos personagens antigos — sem reforçar a mitologia que já era frágil —, o filme recorre a elementos e conceitos que nunca tiveram profundidade.
Esses retornos tentam, de forma forçada, ganhar algum significado. E até acredito que um deles poderia ser usado de maneira mais natural e bem desenvolvida. No entanto, todos estão ali, claramente, para atrair os fãs dos anos 90. O roteiro até tenta encaixar esses personagens de forma coesa, mas o resultado soa truncado e puramente nostálgico.
Como mencionei, o roteiro segue a mesma estrutura do filme de 1997, quase sendo uma cópia — apenas com alterações no elenco e algumas atualizações para o público atual. As mortes, por outro lado, são mais criativas e melhor executadas, o que é um ponto positivo. No entanto, o impacto delas é superficial. Isso se deve, em grande parte, à falta de desenvolvimento da amizade entre o grupo. No início, o filme até apresenta essas relações, mas nunca as aprofunda — tudo é feito por meio de diálogos forçados e expositivos. Há, sim, momentos em que o senso de urgência aparece, mas ele se dilui rapidamente. O elenco é mais numeroso do que o grupo de amigos dos filmes originais, o que dificulta o envolvimento do espectador com qualquer personagem.
Falando em desenvolvimento, o desfecho repete, mais uma vez, o primeiro filme — inclusive na revelação do Assassino do Gancho. Em 1997, a surpresa estava em descobrir que o vilão não era quem o grupo pensava. Já aqui, a reviravolta está mais no “porquê” do que no “quem”, seguindo uma lógica semelhante à da franquia Pânico. E aqui mora uma das maiores contradições e descaracterizações da franquia. Ao mesmo tempo em que tenta abraçar toda a mitologia criada anteriormente, o filme opta por um novo caminho ao apresentar um novo antagonista, com motivações questionáveis, e sem o mínimo de coerência com o que foi estabelecido nos dois primeiros filmes.
O roteiro até tenta sustentar esse plot twist, mas ele se mostra frágil e inconsistente. Se a ideia era acabar com a mitologia de Ben Willis — que sempre voltava quase como uma entidade — e transformar o "manto" do Assassino do Gancho em algo transferível de pessoa para pessoa, o filme até faz isso, mas ao mesmo tempo isso soa contraditório, já que o filme não esconde em querer ser uma homenagem a franquia, mas quando lhe convém acaba deixando esse própria mitologia de lado e indo por um outro caminho.
Em resumo, Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (2025) é uma clara tentativa do estúdio de reviver uma franquia que já foi ressuscitada três vezes sem sucesso, tentando seguir os moldes de Pânico. O problema é que, quando se parte de uma mitologia frágil e mal desenvolvida, não há material suficiente para construir algo consistente. Resta apenas recorrer ao passado e tentar reproduzir um modelo que já deu certo antes. Mas, ao fazer isso com ares de homenagem, recriando a mesma história e trazendo personagens antigos sem propósito claro, o que deveria ser uma carta de amor à franquia acaba soando como um caça-níquel — e, no fim, nem mesmo o filme parece saber se é um reboot, uma sequência ou o começo de uma nova saga.