"QUE HORAS ELA VOLTA ?"///
Muito sorvete, uma garrafa térmica e uma obra-prima///
Em entrevista à "Globo News", a atriz Regina Casé declarou que "sua atriz" está de volta; que após este filme é isso que ela quer (voltar a) fazer: atuar. Ótima notícia, pois é inegável a força de suas performances e presença na tela grande. Em "Eu, tu, eles"(2000), Regina já havia entregue uma das melhores interpretações da história do cinema brasileiro.
"Que horas ela volta ?" recebeu diversos tratamentos de roteiro(inclusive com participação não creditada de Casé), até chegar ao que a diretora e roteirista Anna Muylaert considerou perfeito para filmagem. Ela estava certa; a costura de seu texto é primorosa. Começa como uma crônica de costumes com ecos de batalha de classes, mostrando a fragilidade da relação de "amizade" entre patroa e empregada. Toda a sequência da garrafa térmica só pode ser definida como "fantástica"; pela habilidade do texto da Sra. Muylaert. Foram poucas as vezes em que uma sequência de filme, foi tão clara em seu objetivo, sem expor abertamente do que estava falando. Esses 5, 7 minutos de filme são tão perfeitos que renderiam um curta metragem, por si só ... e dos bons. E o filme, mostrando extrema inteligência e de que trata-se de "cinema de gente grande"; arma esta cena conduzindo para um final melodramático e ... a encerra numa piada : "- Pelo amor de Deus !!! essa não ...essa eu já disse que vai pro Guarujá !"... BRILHANTE !!!!!!!
Após esta magistral introdução, a harmonia (se não de fato, ao menos "à força") é abalada com a chegada da filha. Está estabelecido o conflito. Um conflito legítimo, verdadeiro e tão bem narrado que leva o expectador para a beira da cadeira. Impossível resistir ao filme a partir daí. incrível a importância de "conflito" em um filme; e parece que o cinema americano esqueceu desta vertente em suas histórias. Na verdade, o cinema americano (o cito pela gigantesca influência que sempre teve sobre nós) abandonou "conflito", "reviravolta" e "clímax"; é tudo mediocremente linear. Quando digo "conflito", me refiro aquele momento dos filmes em que dizemos : "ferrou !"(para não usar o palavrão).
O precioso roteiro do filme tem a honra de encontrar o elenco perfeito para trazê-lo a vida. O elenco central é formado por um quarteto: Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles e Lourenço Mutarelli (Luci Pereira, Michel Joelsas e Helena Albergaria formam o eficiente apoio). Curiosamente, o quarteto se divide em 2 formas de atuar : Márdila e Mutarelli são ultra naturalistas, intuitivos; às vezes parecem ótimos atores improvisando ( a cena do "pedido de casamento" é tão "viva" que parece que foi criada pelos dois ali, já com a câmera rodando). Já Casé e Teles são pura técnica interpretativa. As interpretações das duas mostram o quanto essas duas atrizes sabem o que estão fazendo. Cada palavra, cada movimento, cada respiro, cada olhar das duas são fruto de conhecerem seus personagens e em que momento do ciclo da história eles estão. De tirar o fôlego e dar vontade de aplaudir em cena aberta.
Outro ponto a se destacar no roteiro e na direção de Anna Muylaert e no magnifico elenco, é o fato de driblarem uma cilada da própria história. Dos 4 pilares centrais, 3 poderiam se tornar "vilões" esteriotipados : a filha chata e pedante, o velho tarado e a bruxa da Disney; no entanto, passam muito longe disso, com muita elegância.
"Que horas ela volta ?" foi o filme brasileiro inscrito para concorrer ao Oscar. Não aconteceu. A diretora Anna Muylaert deu uma declaração demonstrando estar "sentida" pela Academia de Hollywood não ter selecionado seu filme. Precisava do prêmio ? Respondo daqui a pouco. Regina Casé, OBRIGATORIAMENTE, tinha de estar na lista das 5 finalistas na categoria de "Melhor atriz" no Oscar ( se o filme fosse indicado, essa com certeza seria uma possibilidade).
Quanto ao filme ... seria lindo vê-lo na lista dos 5 indicados a melhor filme estrangeiro ... mas não, não precisa; "Que horas ela volta ?" já está numa outra lista mais importante : "Obras-primas inquestionáveis".
André Belarmino