“Que horas que ela volta?”. O questionamento pressupõe a partida de alguém que, talvez, nunca esteve em presença de fato, mas cuja espera de seu retorno, por quem fora abandonado, é sustentada sempre pela fantasia da ilusão.
A proposta compreende o que a película fílmica, de Anna Muylaert, propõe, como uma metáfora: “Que horas que ela volta?”, questiona o filho da patroa de Val, “Que horas que ela volta?”, questionava a filha da empregada de Beatriz. Os personagens questinadores se aproximam pelo compartilhamento da experiência do desamparo, mesmo entre a evidente diferença sociocultural que tende a afastá-los. Essas são questões muito bem construídas e desenvolvidas em seu roteiro, na disposição dos diálogos, nos ângulos e planos de câmera, sempre sugestivos, na construção dos personagens pelos atores em cena, em vezes caricaturados, mas contraditoriamente desenvolvidos sobre uma suprema autenticidade quase que neo-realista. As temáticas sobre essas problemáticas abarcam conflitos de ordem pública, irrompem com as conjunturas canônicas do setor privado: o privativo ambiente familiar, que na atualidade, repassaria a competência de “cuidar” para outro, seja este qual for, sempre quando externo as delimitações de seu entendimento de prole. Os filhos desamparados, como Fabinho e Jessica, buscam os próprios escapes dessa realidade difusa, sem “pai”, quando possíveis dentro de suas experiências, vivências. É quando conhecemos Val, a empregada que desenvolve um vínculo afetivo materno com Fabinho, o filho da patroa Beatriz, mas que em contrapartida também é figura ausente da vida de sua filha, Jessica, residente em outra cidade. Em determinado momento, Jessica vai morar um tempo com Val, na casa dos seus patrões, o que acaba provocando algumas alterações nesse cenário. A proposta vai além dos discursos das diferenças financeiras e sociais, trazendo também para o centro da discussão uma problemática que está aproximando cada vez mais as conjunturas familiares brasileiras: a ideia de eximição da responsabilidade para com o cuidado de seus filhos. Dessa forma, suas crianças, buscam um lugar para guardar seus sonhos, desejos, fantasias, um imaginário corrompido pela imaturidade para lhe dar com as adversidades da vida, sustentado na carência de afeto e na ausência da lei. Nesse percurso encontramos estruturas familiares aleijadas, em que o “pai ” não tem lugar enquanto patriarca, e a “mãe” é apenas a trabalhadora atualizada, aprisionada pelos limites do mercado de trabalho e da sociedade de consumo. Nesse cenário, surge a incapacidade que seus personagens têm em se relacionar com o outro, providos de ações mecânicas, simuladas, quando sujeitados, alienados, alheios de si e de certa sensibilidade, aprisionados aos seus medos mais primitivos, em prol de uma ordem social que reverbera sucesso/ retorno profissional enquanto ordem primeira.
Com isso, a função da personagem de Jessica é central no desenvolvimento dessa temática: ela olha por cima, como metaforiza o ângulo da câmera subjetiva, “nivela” as suas condições sociais, enquanto simbólicas, representativas. Em uma avaliação da relação de sua mãe com os seus patrões, ela afirma: “eles não são os meus patrões”. Isso como uma referência não apenas das diferenças, mas das semelhanças dessas famílias que teimam em delimitar suas diferenças sociais, culturais e econômicas, em relação as outras, mas que nunca foram tão parecidas como nos tempos atuais, quando consideradas em sua estrutura sentimental. Jessica desvia a narrativa desse previsível discurso das diferenças socioculturais, dando espaço à discussão de suas semelhanças: um novo padrão de relacionamentos familiares.
Dessa forma, o filme expressa com maestria as questões dessas famílias, que esqueceram de amparar seus filhos, tendo como foco central o papel das mães da atualidade: trabalhadoras exemplares que esqueceram da sensibilidade, que se fazem esquecer, que nunca voltam, mesmo que sempre aguardadas.