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Hugo D.
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4,5
Enviada em 2 de outubro de 2015
Um filme que retrata o que acontece em mais da metade das famílias de classe média no Brasil. A relação família e empregada é muito bem abordada no longa e a atuação de Regina Casé está impecável, ela é muito melhor atriz do que apresentadora. A proximidade da empregada com o filho da patroa e a distância dela com sua própria filha é mostrada, graças as atuações de todos, de forma perfeita.
O filme "Que horas ela volta?" é uma grande surpresa ao cenário brasileiro, uma dramédia crua e real da relação patrão - empregado ainda vigente em muitos lares do país. O longa foi dirigido e roteirizado pela excelente Anna Muylaert, que através de excepcionais enquadramentos consegue perpassar a opressão vivida pelas empregadas domésticas. Em sua sinopse temos a vida de Val (Regina Casé), uma "secretária do lar" que saiu do nordeste em busca de um sonho, passou a cuidar de Fabinho (Michel Joelsas) e trabalhar na casa de Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), uma família de Classe média alta de São Paulo. Val sempre acreditou que era tratada de forma correta por Bárbara e Carlos, mas essa ótica muda com a chegada de sua filha Jéssica (Camila Márdila), que passa a questionar a forma de tratamento dos patrões. A narrativa consegue abordar várias temáticas de forma brilhante, além de metaforizar outras. O filho dos patrões criado pela empregada, devido a falta de tempo dos mesmos; a filha da empregada criada pela irmã; a falta de diálogos da família de classe média, sendo representada pela interação dos smartphones na sala de jantar... Vale destacar a cena da chegada de Jéssica e seu deslumbramento da Metrópole, visto por nós através do reflexo na janela do carro, foi de uma execução brilhante de Muylaert, além dos ângulos inusitados que exprimem o isolamento de Val naquele corredor ou o olhar, sempre projetado da cozinha para a sala de jantar. Excelente! As metáforas pontuais aliadas com a boa fotografia de Barbara Alvarez, contribuem e muito para o desenrolar da história. A analogia feita entre a vida simples e um "conjunto de xícaras de café" foi maravilhoso, sintetiza claramente a relação de Val com os seus empregadores. Que Horas ela volta? É sem dúvidas o melhor filme brasileiro de 2015, um belo trabalho de Muylaert, aliado com uma atuação natural de Regina Casé. O longa foi premiado no Festival de Sundance de 2015 e merece sua atenção. Filmaço brazuca!
A sequência inicial é perfeita, notadamente porque retrata os dois temas que serão desenvolvidos: o hipócrita apartheid social entre patrões e empregados domésticos (simbolizado no "não tenho maiô" com que a empregada se nega a entrar na piscina, espaço nobre frequentado apenas por quem é da casa grande) e o abandono afetivo sofrido pelos filhos de pais cada vez mais ausentes de casa (simbolizado na pergunta do título feita pelo garoto à babá em relação à mãe). Se, por um lado, a metáfora da piscina, no decorrer da narrativa, vai ficando mais óbvia e explícita - e, portanto, mais frágil -, por outro, essa obviedade torna possível ao grande público absorver a diminuição (ainda que tímida) dos abismos sociais promovida no Brasil pós-Lula. De todo modo, tem-se aqui uma bela obra de linguagem cinematográfica sofisticada, seja no aparecimento constante do corredor escuro que dá para os quartos da casa (a demonstrar a incomunicabilidade e o distanciamento afetivo dos que nela habitam), seja no uso do "quarto dos fundos da arte" do marido dominado pela esposa (o que faz uma rima interessante com o "quarto dos fundos" da empregada), seja na sutil representação de outras formas de dominação (vale reparar na cena em que a personagem de Regina Casé serve outros empregados da casa, que, embora sejam tão empregados quanto ela, são homens). O desfecho, por sua vez, é um dos mais emocionantes vistos no cinema nacional dos últimos anos, ao aliar a temática do abandono afetivo com a ruptura social provocada pelo "novo" Brasil: se Casé largou a filha no Nordeste para ser vassala em São Paulo, a filha vai morar na capital paulista para cursar uma universidade. E vai trazer o filho de Recife. E de avião.
“Que horas ela volta?” tocou-me impetuosamente, principalmente por sua sociologia da violência estrutural que desfaz ou, melhor dizendo, refaz os laços entro o centro e o nordeste do País. Fala de dois "nordestes", um que encontra a sua prisão doméstica no Sul e de outro que se exime da compaixão; exime-se do Senhor, do homem modular, que encaixa e nos encaixa nos pequenos quartos de suas casas grandes... O filme trata de um desencaixe e do fim – ainda longe de terminar – de uma duradoura dependência. O fim de um mundo e o começo de outro. A arrogância e as razões pelas quais nós fomos nos misturar com essa violência não estão tão claramente expostas nesse filme, exceto para quem ainda é nordestino. Um filme sobre a vida. Saí da sala de cinema com a minha hipocrisia à amostra, mas aliviado e alegre ... muito alegre... “Que horas ela volta?” ocupará um lugar seleto na sociologia cinematográfica do nordeste, onde já se encontram obras como Cabra Marcado Para Morrer (Dirigido por Eduardo Coutinho, 1985), O Pagador de Promessas (Dirigido por Anselmo Duarte), Abril despedaçado (Direção: Walter Salles, 2001) e Baixio das Bestas (2007, Dirigido por Cláudio Assis, sobre marginalidade na zona canavieira do Nordeste), entre tantas outros. É, enfim, uma mistura entre Histórias Cruzadas (Dirigido por Tate Taylor, 2012) e o Invasor (nacional, dirigido por Beto Brant). Inacreditável esse encontrar com as mensagens subliminares de uma engrenagem que dá seus últimos movimentos de moinho. Em Histórias Cruzadas (2012) há uma cena em que a mãe tem que expulsar a velha empregada... Às lágrimas, vi a empregada nordestina pedindo demissão... Incrível!
"Que Horas Ela Volta? é um ótimo filme, um dos melhores brasileiros nos últimos anos, e prova de que os cineastas brasileiros podem fazer bons filmes, sem necessitar de recorrer nem aos pastelões globais idiotizantes nem aos chatos filmes exploradores da miséria. Tem minha torcida pro Oscar 2016."
Não é um filme ruim nem bom, não acontece nada do inicio ao fim, só mostra a vida de uma empregada na casa dos patrões, não vejo nada de fantástico como dizem!
O trabalho aqui feito é bastante simples, mas o resultado final é excelente. Uma dinâmica cativante, situações reais, uma boa transição pelas camadas dramáticas, o que causa um misto de emoções a quem acompanha. Nossa, e o que dizer da brilhante construção da personagem de Regina Casél?! Simplesmente arrepiante!
Filme muito humano, sem vilão ou mocinho. Regina Casé Incrível como Val. Fazia tempos que o cinema brasileiro nos devia filmes tão bons quanto este. Vale a pena assistir.
Um filme incrível! Merece reconhecimento por tratar de forma clara as relações das classes sociais no Brasil bem como os avanços com as políticas públicas nesse entremeio. Me emocionei e repensei o quanto devemos avançar em termos nacionais. É o momento do Brasil e do brasileiro repensar seus conceitos, seu modo de ver a vida e seu modo de viver. Recomendo fortemente.
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