“Que horas ela volta?” é um tapa de luva em cada um dos espectadores. Ana Muylaert não recorre a clichês e obviedades. Constrói a narrativa com sutileza precisa, que mostra de forma natural e transparente o “apartheid” nosso de cada dia.
Um filme atualíssimo e necessário, que com simplicidade genuína, apresenta uma trama socialmente complexa, que nos faz refletir sobre diversos temas, desde as relações entre mães e filhos, até questões de cunho sociopolítico, como o feminismo, a imigração, os direitos sociais e a tão propalada meritocracia. Pequenos fatos cotidianos, aparentemente sem importância, constroem uma narrativa rica, com diversos símbolos pinçados de forma certeira, que reforçam as diferenças e agudizam a distância entre as classes sociais ali retratadas.
Todo o elenco está de parabéns, com personagens coerentes em termos dramatúrgicos, enriquecidos pela linguagem, sotaques e gestuais assertivos, que reforçam o caráter realista do filme.
Regina Casé surpreende positivamente. Não há qualquer associação entre Val e Regina. Na tela, o que se assiste é Valdirene de corpo e alma.
“Val” é a figura central da história e isso por si só já é uma quebra de paradigma: um roteiro idealmente pensado para que uma empregada doméstica seja de fato a protagonista. Ela não rouba a cena, como acontece em algumas obras. Aqui a cena é dela, do início ao fim.
Quem rouba a cena em alguns momentos é sua filha Jéssica (brilhantemente interpretada por Camila Márdila) que, ao contrário da mãe resignada, trata todos de igual para igual e, curiosa e crítica, questiona tudo o que vê pela frente.
Com uma postura tida como incomum para uma jovem de origem humilde, a chegada de Jéssica quebra a suposta harmonia da casa, fazendo com que todos encarem as contradições e hipocrisias que sustentam as relações.
Porém, o filme não faz pensar apenas sobre a história ali retratada, e sim sobre como as disparidades sociais e a hipocrisia nas relações interpessoais estão em nós normalizadas e internalizadas ao ponto de convivermos com isso diariamente, sem dar-nos conta ou questionar as injustiças e incoerências praticadas cotidianamente, por agentes diversos e próximos e até mesmo por cada um de nós.
Ingenuidade, saudade, carinho, conformidade, invisibilidade, preconceito, hipocrisia, independência, libertação e, sobretudo, reflexão e questionamento é o que nos traz “Que horas ela volta?”, que já se configura como um dos títulos indispensáveis da cinematografia brasileira.