Não é uma novidade filmes que dividem o Brasil em dois e expõem as diferenças sociais ainda existentes num país que passou, nos últimos anos, por uma transformação de classes tão evidente. Os exemplos são enormes. Que Horas Ela Volta? veio para integrar essa lista e acrescentar um pouco mais de substância à ela, e não só por focar em um lado que é bem marginalizado no cinema que costuma chamar aqueles conhecidos como "O público", mas também por ser um filme feito por mulheres, e cercado delas, de todos os lados, e todas elas competentíssimas. Na mesma via, é certo que esse filme não existiria, e se existisse, não seria visto da mesma forma, 15/16 anos atrás.
Muyalert, nossa querida diretora E roteirista, encabeça um trabalho cheio de sutilezas e pontos cruciais para entendermos uma relação arcaica entre o empregado e o patrão, colocando como protagonista uma personagem que representa muitas. Val é sábia por ter vivido e é inocente por também ter vivido, na mesma medida. Uma mulher que foi criada de uma forma, e cresceu num mundo em que lhe foi muito bem explicado qual o seu papel: inferior, feita para servir aos patrões e cumprir sua função sem jamais questionar. Daí que o roteiro, depois de introduzi-la com brilhantismo, insere um terceiro elemento na trama, Jéssica, sua filha que vem do interior para estudar para o vestibular, e tem que ficar com ela na casa dos patrões, cuja personalidade petulante e questionadora coloca sempre em cheque os limites da relação empregado-patrão.
Regina Casé está de outro mundo no papel da protagonista. Ela incorpora regionalismos e mais regionalismos nos quais podemos perceber em diversos momentos que trata-se de um improviso, e não roteiro. E não arrasa só na comédia, mas pega forte no drama, e principalmente naquilo que ela consegue fazer melhor: expressar-se, seja de forma verbal ou não-verbal, uma vez que as caras que a mãe acaba fazendo para cada atitude, segundo ela, impensada, da filha diz não só uma coisa, mas várias. Aliás, me surpreende o sucesso internacional do filme diante do número de piadas genuinamente brasileiras que me deparei aqui. Mas ainda bem que foi compreendido à sua maneira por eles.
Talvez esse ambiente não seja familiar a todos os espectadores, mas a habilidade com que Muyalert nos insere nele, fazendo com que recobremos diversas cenas observadas no nosso próprio dia-a-dia que fazem a situação-mãe do filme se tornar absolutamente real, é de se aplaudir. E parece fácil, como na cena em que, enquanto Jéssica come um sorvete com o patrão, Val se retorce de medo e aversão àquilo na cozinha; ou quando Bárbara manda esvaziar a piscina depois de ver a filha da empregada usufruindo de um luxo que pertence a ela; ou mesmo quando Val compra um presente para a patroa, que na verdade é para ela própria utilizar - e a forma com que o presente ecoa no ato de "roubo" de Val no final do filme é lindamente dolorosa. Talvez more nesse ponto o único grande defeito do filme pra mim: a figura dos patrões, mais especificamente de Bárbara, cujas atitudes são tão levadas ao limite que acabam por vilanizar demais a personagem, tornando-a um tanto quanto unidimensional.
Coisa que nem Val, nem Jéssica são. A primeira, simbolizada numa cena linda em que ela, após confortar Fabinho pelo fracasso do menino, recebe um telefonema da filha e apenas faz comemorar, cheia de si e completamente sem noção do ambiente ao redor, o sucesso da garota. A segunda, nas sequencias em que, assustada com o assédio do patrão da mãe, se desespera com a ideia de voltar para aquela casa, mesmo perdendo todo aquele luxo, demonstrando o tamanho de ego e personalidade de "presidente da república" (sic) que carrega em si. E são dois perfis que dizem muito sobre um conflito de gerações que cada vez mais se manifesta no país. Dá pra aprender muito olhando mais a fundo por aqui. Ou do lado de lá da cozinha. Ou do lado de cá da cozinha.
"- Você se acha superior a todos eles, anda por aí se sentindo melhor que todo mundo!
- Eu não me acho superior, eu só não me acho inferior a ninguém."