Parece que adaptar videogames para o cinema é uma coisa meio complexa, já que geralmente os resultados (em quase toda a maioria) se saem muito fracos e, várias vezes, tirando até a essência do material original – que, embora seja de uma mídia bem diferente, acabam ficando bem distorcidos – como o caso das franquias Resident Evil, Tomb Raider, Mortal Kombat ou filmes que nem conseguiram sair do primeiro, como o caso de Street Fighter ou Mario Bros. – o único que consigo me lembrar que veio com qualidade foi Terror em Silent Hill, realmente fiel e bem feito.
Tendo essas poucas lembranças de qualidade sobre obras assim, é evidente que não era de se esperar muito de Sonic: O Filme – mas, sob um olhar geral, esta versão do ouriço azul super veloz da Sega acaba sendo um filme divertido, que simplesmente entrega o que promete: risadas dentre uma aventura bem realizada – e, de fato, nada mais além disso – mas é preciso considerar que o roteiro de Patrick Casey e Josh Miller tenta dar mais personalidade ao personagem principal – algo que compensa até mesmo uma certa falta de capricho por parte dos animadores digitais – e é válido lembrar que a Paramount tomou a sensata decisão de acatar as reclamações dos fãs e ter corrigido o visual de Sonic – de fato, bem melhor do que estava no trailer – mas, ainda assim, a dinâmica que o estreante diretor em longas, Jeff Fowler, estabelece não é 100% funcional: as discrepâncias entre os movimentos do ouriço interagindo com os atores nem sempre é bem realizada – em alguns momentos fica bem claro que James Madden está encarando um boneco verde, que seria substituído pela animação do azulão mais tarde – mostrando que o diretor não tem a mesma boa condução de atores com animações, como Robert Zemeckis fez no clássico Uma Cilada para Roger Rabbit, por exemplo.
Esse estranhamento, de fazer parecer que o elenco está interagindo com um desenho da Pixar – foi a sensação que tive algumas vezes – pode ser esquecido se considerarmos que os roteiristas criam uma história que acaba sendo o melhor que poderia se imaginar da clássica trama do jogo original, de 1991 – que, de fato, era simples ao extremo: basicamente, era Sonic enfrentando o Dr. Robotnik e evitando a destruição de seu mundo – mas, agora, a trama começa com nosso protagonista ainda criança, em sua dimensão, cheio de pistas curvadas, gramados e características que remetem ao clássico visual do jogo do Mega Drive – o ouriço acaba sendo vitima do ataque de um grupo de gaviões que quer seus poderes e, como último recurso, acaba fugindo para terra – onde acaba vivendo escondido e sozinho por 10 anos, na floresta próxima a pequena cidade de Green Hills (nome em homenagem a uma das fases do jogo, inclusive), nos Estados Unidos – Sonic (agora com a voz de Ben Schwartz) se sente solitário e acaba, sem querer, chamando a atenção do governo, que envia o egocêntrico e maldoso Dr. Robotnik (Carrey) para localizar o que seria o sinal de energia vindo da pequena cidade – sem opção, o ouriço se revela para o xerife do lugar, o bondoso Tom (Madden), que acaba por ajuda-lo a fugir do implacável cientista.
Ganhando pontos principalmente por seu senso de humor, a trama é funcional dentro do que se propõe – embora seja visível que o número de cenas de ação seja até pequeno – e, algumas delas não muito memoráveis – o longa se destaca pelo trabalho de dublagem para Sonic por parte de Ben Schwartz, que dá dinamismo as falas do ouriço – o que é perfeitamente condizente com a natureza veloz dele – o que torna bacana ele ter como super-herói favorito o Flash e gostar de filmes como Velocidade Máxima – fora o fato de ser justificável ele ser tão tagarela, afinal, o pobrezinho passou dez anos sozinho, sem ter amigos – então precisou interagir com ele próprio – o que torna o choque de finalmente ter um amigo real curioso, quando conhece o xerife de James Marsden – um tipo de papel que parece mais um mero apoio para o protagonista digital, mas que acaba sendo curioso, devido a sutileza do ator – embora ele crie uma afeição bem rápida pelo Sonic, mesmo que acabe sendo confundido como “cumplice de terrorismo” por ajudar o novo amigo – creio que coisas assim não devem ser exigidas em adaptações de games de 16 bits... Ainda assim é eficiente a ligação entre eles – um completando o que deseja para a vida – Sonic não quer deixar a Terra e Tom reluta em deixar o tédio da pequena Green Hills para se aventurar como policial em San Franscisco – um clichê, mas que torna a relação de amizade dos dois mais real.
Embora o elenco de apoio não tenha muito o que fazer, devido a criações pouco criativas – como a esposa de Tom, a Maggie de Tika Sumpter, e sua irmã (de Natasha Rothwell), que tem um ódio um tanto infundado pelo cunhado – servindo apenas para forçar algumas risadas – além do assistente de Robotnik, o Rocha de Lee Madjoub – mas, felizmente, o longa ganha pontos com a composição previsivelmente engraçada de Jim Carrey para o egocêntrico vilão – um personagem tão caricato que somente um ator como Carrey saberia incorporar bem – sua vontade em se mostrar superior a todos a sua volta é algo divertido, fazendo o ator explorar suas caretas absurdas, como já fez em O Máscara, Ace Ventura ou O Mentiroso, por exemplo – tirando o exagero de faze-lo dançar em um certo momento, o resto é uma composição que é o que daria para imaginar de um personagem que, originalmente, era o mais unidimensional possível – e, visualmente, Carrey acaba lembrando bem o vilão do game, com seu bigode pontudo e os clássicos óculos redondos.
Permeado por algumas cenas de ação bem feitas e divertidas, mesmo que sem um cuidado muito grande para a concepção dos movimentos do nosso herói ouriço, Sonic é um trabalho convincente, que deve emocionar os fãs do clássico videogame, além de conseguir a atenção das crianças de hoje – mesmo não tendo um roteiro tão legal quanto Os Incríveis, esta bem longe de ser uma bomba como Pica Pau – O Filme, onde criaturas animadas com atores geraram resultados sofríveis – Sonic é legal o suficiente para funcionar neste meio termo.
Obs.: como parece ser regra nos blockbusters agora – esse ano, Bad Boys e Aves de Rapina já tiveram isso – tem também uma cena durante os créditos finais, dando sinais para uma continuação e uma participação que os fãs do jogo vão gostar...