O sucesso atual das grandes franquias do cinema prova a predileção do público por sequências, principalmente de super-heróis ou personagens marcantes da infância da geração Z. No caso, Gato de Botas 2: O Último Pedido se encaixa nos dois grupos. Após 12 anos sem lançar um filme, o segundo da série surpreendeu ao arrecadar mais de US$400 milhões de bilheteria e angariar prêmios e indicações relevantes (duas estatuetas do Annie Awards 2023 e uma posição no Oscar 2023). Produzido pela DreamWorks Animation e distribuído pela Universal Pictures, esta “nova história dos contos de fadas de Shrek” continua a registrar altos ganhos para o universo deste ogro icônico do gênero da animação.
O filme aposta em uma temática constante no cinema dos últimos anos, a do herói em confronto com a dura realidade do fim dos tempos áureos. No caso, uma forçada “aposentadoria” chega para um presunçoso felino considerado intocável, como Gato (dublagem original de Antonio Banderas) se define em falas do tipo “Eu sou conhecido por muitos nomes [...], eu sou o Gato de Botas!” e “A lenda nunca morrerá”. Nesse contexto, a continuação agora dirigida por Joel Crawford e Januel Mercado, desenvolve um enredo com um olhar adulto, posicionando a morte como o vilão e apresentando uma lenda desnorteada e, outro mais infantil, focando na aventura do protagonista ao tentar se reencontrar.
A esclarecer, a partir do roteiro de Paul Fisher, o destemido Gato de Botas, após mais uma batalha empolgante na cidade de Del Mar, morre pela oitava vez e é avisado de que a próxima será a última. Temos assim um novo Gato, aflito com a morte e com sua encarnação macabra, o misterioso Lobo (voz original de Wagner Moura). Abalado, o bichano caricato de capa e espada abandona a vida de perigo e recomeça em outro estilo: animal domesticado do abrigo para gatos de Mamãe Luna, lugar onde conhece seu futuro e mais fiel companheiro, não por coincidência um cachorro, o desajeitado “Perrito” (Harvey Guillén). Nesta casa também é apresentada a família criminosa de “Cachinhos Dourados” (Florence Pugh) e os “Três Ursos” que, em busca de Gato, aparece e menciona uma lendária estrela mágica concedente de um desejo a quem a encontra através de seu mapa.
O felino enxerga uma solução para seus problemas e planeja roubar o pergaminho de “João Trombeta”, um confeiteiro e ganancioso colecionador de artefatos mágicos. O inesperado, a partir disso, é seu reencontro com sua ressentida ex-noiva e parceira, ‘Kitty Pata Mansa” (Salma Hayek), almejante de tal objeto. Decorridas algumas cenas de combate, a ex-dupla e Perrito escapam com o valioso guia. Assim, com todos atrás de sua satisfação pessoal, a audiência é presenteada com uma jornada eletrizante, caminhada entre uma calmaria reflexiva das atitudes individuais e intensas sequências de perseguição típicas da narrativa do protagonista.
Exibindo ainda uma mescla peculiar de elementos em 2D e 3D, proporcionando movimentos dinâmicos e fluidos, a produção reformula seu formato e se inspira na arte oriental dos animes com liberdade. Contudo, vale salientar, um ponto negativo acerca desse estilo implementado é a introdução de muitos diálogos nos planos de ação, fazendo com que a trama beire o cansativo para um público alvo mais imaturo.
Detalhadamente, observando falas como “Quando se tem uma única vida, isto a torna especial.”, é razoável constatar os simbolismos retratados pelo longa produzido por Mark Swift e Chris Meledandri, dando ênfase à renúncia do gatinho mais amado, diante da novidade do medo, à sua postura de “viver cada aventura como se fosse a última”. Por meio do cãozinho altruísta, gentil e otimista ao encarar sua triste realidade, os diretores inserem um elemento capaz de transmitir uma lição valiosa de humildade e valorização da vida, sem necessitar a perda de ternura e coragem. Paralelamente, com Cachinhos e os ursos, valores e a celebração da diversidade familiar são prestigiados. Já com Kitty, por sua vez, o protagonista narcisista e solitário enfrenta dilemas emocionais e, gradativamente, percebe a beleza de dividir momentos com amigos e amores.
Sob uma visão mais crítica, é interessante definir o acréscimo intrépido do "Lobo mau" como fundamental para um enredo mais completo e equilibrado. Outrossim, as subtramas bem construídas das demais personagens deram um suporte essencial e preencheram a história que poderia ser mais um clichê do gênero.
Nota-se uma obra que começa reivindicando o status de conto de fadas e termina com morais da história conectando personagens profundas dotadas de camadas. O resultado surpreende pela ousadia e criatividade diante de temas difíceis, sem prejudicar a diversão desta narrativa repleta de seres fantásticos aprendendo sobre si e as várias fases de uma mesma vida.